Detox de homem: cresce o número de mulheres que não querem mais namorar para investir em si mesmas - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Comportamento 29/08/2026 11:55

Detox de homem: cresce o número de mulheres que não querem mais namorar para investir em si mesmas

Detox de homem: cresce o número de mulheres que não querem mais namorar para investir em si mesmas

Nos últimos três anos, a empreendedora Leticia Filipim, 40, viajou para a Tailândia, para a África, passou um tempo morando na Califórnia, adotou um estilo de vida nômade, emagreceu 10 kg e abriu um novo negócio. Tudo isso enquanto cuidava da mãe, que tem problemas de saúde, saía com as amigas e fazia cursos.

O que Leticia não tem feito é investir na chamada “vida amorosa”. Ela sai eventualmente com homens, mas prefere que não passe de dois encontros para “não complicar”. Não gasta mais tempo em apps de namoro, nem busca conhecer alguém.

— Nada grave aconteceu no meu último relacionamento. Mas eu fui juntando as peças das minhas relações na última década e observando o padrão de comportamento masculino. Eu fui crescendo na minha vida, na parte emocional, no meu negócio, e parece que os homens não evoluem, eles se mantêm naquele estágio ali ‘de garotão brincando de viver’ — avalia.

Assim como Leticia, muitas mulheres têm dedicado a energia que despendiam em relacionamentos héteros (ou buscando por eles) consigo mesmas. É como se o movimento boy sober (ou detox de homem) que surgiu há alguns anos tivesse não só permanecido, mas se estendido. Não é mais só dar um tempo de homem, mas realmente deixar esse aspecto da vida em segundo plano.

— A sobrecarga na relação não é só de trabalho braçal, mas também a sobrecarga mental de gerenciar o relacionamento e ainda as demandas emocionais dos homens. Não tenho uma visão de que todos os homens são ruins, mas dentro das opções disponíveis hoje, a maioria não tem amadurecimento emocional e mental para estar numa relação. Então eu entendo que é melhor pra mulheres solteiras ficar sozinhas — afirma. — Sou adepta da ideia de descentralizar o amor romântico da minha vida.

Ela garante que não se sente só. Está sempre com amigas, família, e depois volta para seu mundinho, ao lado da cachorrinha Pretinha. Canaliza tempo e dinheiro para si mesma, viagens, trabalho e estudo. E mesmo fisicamente, ama a si mesma: criou um ritual semanal de intimidade, em que se cuida e se dá prazer. Quando quer contato físico com alguém, também não se impede, se pintar, tudo bem.

Para Brenda Scalco, estrategista de marca, tendência e comportamento, mais do que um modismo, o boy sober veio para ficar, como um comportamento estrutural da sociedade em resposta às relações líquidas modernas.

—É um movimento intencional em que a mulher escolhe por vontade própria passar um tempo indeterminado sem estar em apps de relacionamento, sem ir a dates, sem voltar com o ex, ou ter contatinhos. Acredito que isso também vem muito de levantar uma bandeira no sentido de se pronunciar, uma forma de expressão de mulheres que estão exaustas de serem colocadas na prateleira, de esperarem que o seu valor seja atrelado à validação de um homem.

Então, ela faz o movimento oposto: se retira dessa discussão e descentraliza o amor romântico da sua própria vida.

Segundo ela, apesar do boy sober ser uma coisa trendy, mais digital, da geração Z, tem raízes profundas, até nos livros do sociólogo Zygmunt Bauman, que abordam o amor líquido, a “falta de vínculo, de responsabilidade afetiva, de compromisso entre as pessoas”.

Ela identifica uma constante frustração feminina no ambiente de encontros, que adquiriu uma “lógica do consumo, em que se conhece uma pessoa, desliza para a direita, para a esquerda, escolhendo esse ou aquele produto”.

Embora esse consumismo exista para todos, há um recorte de gênero. De acordo com Brenda, é a chamada prateleira do amor, em que muitas ainda ficam ali esperando serem escolhidas.

— Ainda vivemos num sistema extremamente machista, patriarcal, onde o valor da mulher está em ser escolhida, então atrelamos o nosso valor existencial a quantos homens nos querem, se vão nos chamar para sair, se vão sumir depois do encontro.

Aí surge a questão: e se nós, mulheres, parássemos de colocar o homem como o centro do assunto? Se pararmos com essa temática principal na nossa vida, sobra muito tempo, e o que fazer com o esse tempo? Olhar para nós mesmas, praticar um novo esporte, um novo hobby, falar sobre que livro leu, sobre o que estamos fazendo.

Brenda ainda avalia que, embora o boy sober seja um movimento mundial, as mulheres no Brasil têm se identificado e engajado mais do que outras nacionalidades, segundo ela, graças à “exaustão da brasileira”. Além de uma carga pesada de trabalho, ela ainda enfrenta uma cobrança estética que consome sua renda e tempo.

— A brasileira tem que estar perfeita, né? Depilada, cabelo hidratado, roupa trendy, bunda gostosa, peito bonito, preenchimento, botox, sempre muito atraente para ser escolhida pelo homem. Em outros lugares do mundo, vemos que não é assim. Então, essa mulher tem que se manter linda, impecável, sexy, trabalhar 12 horas por dia, sem qualidade de vida. Daí ela aloca uma quinta-feira para sair, acha que conheceu um cara legal e ele dá golpe, ou é machista. Os pratinhos da vida vão caindo e ela analisa: o quanto que vale a pena manter tudo isso?

Heteropessimismo

A psicanalista Carol Tilkian vê o movimento com ressalvas, já que ele alimentaria a “vilanização do outro” ou o heteropessimismo:

— Nesses movimentos, ao invés de eu lidar com a ambivalência das relações e com a minha responsabilidade no tipo de escolha afetiva que faço, transformo o outro em oponente. Você coloca o outro como tóxico, mas qual é a solução? Se é uma mulher heterossexual, vai ficar sem se relacionar? Será que o convite não é aprender a se relacionar de maneiras menos tóxicas? Porque raramente só um é o tóxico da relação, o enlace é tóxico.

Tilkian dá como exemplos situações em que a mulher faz mais do que dá conta para se fazer necessária e depois se sente pouco valorizada, ou romantiza homens interessantes, mas que não são interessados em suas vidas, e depois os nomeia como narcisistas.

A psicanalista cita um levantamento que conduziu que revela que o maior medo no amor de um em cada três brasileiros, é de não ser suficiente. O segundo maior medo é de se machucar de novo.

—Estamos tão inseguros, que entramos nessa lógica de olhar o outro como um rival em potencial. Se sou eu contra o outro, como vou me relacionar? Quando estamos nesse estado de medo, começamos a operar num modo de confirmação. Então busco todos os indícios para confirmar que o outro pode ser um possível vilão, um possível cara tóxico, para que eu me afaste e não me machuque — explica.

Apesar disso, na sua prática clínica ela garante que tanto mulheres como homens estão buscando alguém e enfrentando desafios nessa busca.

Apesar de não achar o boy sober o caminho ideal, Tilkian vê o lado bom do movimento: estimular que as mulheres se priorizem e abram espaço em suas vidas para outros interesses, além da busca por relacionamentos.

— A Valeska Zanello, autora de “A Prateleira do Amor”, tem uma fala maravilhosa: que os homens aprenderam a amar muitas coisas e as mulheres aprenderam a amar os homens. Então, culturalmente, o nosso valor sempre esteve centralizado no amor romântico. Acho que é um ganho maravilhoso podermos diversificar os afetos — diz.

No entanto, para ela, deslocar o ideal do amor romântico para o ideal do amor próprio pode ter uma mesma raiz totalmente fantasiosa, no intuito de controlar a narrativa: “já que não tenho príncipe, vou ser minha melhor versão”.

— Por que tem que ser tudo ou nada?

O boy sober, não é um tempinho, é um ano de rehab. Por isso que ligo ao heteropessimismo. Não é porque você está solteira, que o seu job número um tem que ser procurar um homem. Agora, o outro ponto, é deixar que a exaustão se transforme num fatalismo e num ressentimento.

É mais tranquilo dizer que está muito mais fácil para eles do que para a gente. Assim como eles estão falando a mesma coisa. No fim, eles é muita gente. Melhor do que boy sober é diminuir a quantidade de vezes que se bebe.

Deu em O Globo

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista