Arqueólogos não imaginavam encontrar cinco grilhões de ferro em um sítio celta de 2.300 anos na França, e peças raríssimas podem revelar comércio de pessoas escravizadas - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Arqueologia 19/07/2026 19:22

Arqueólogos não imaginavam encontrar cinco grilhões de ferro em um sítio celta de 2.300 anos na França, e peças raríssimas podem revelar comércio de pessoas escravizadas

Arqueólogos não imaginavam encontrar cinco grilhões de ferro em um sítio celta de 2.300 anos na França, e peças raríssimas podem revelar comércio de pessoas escravizadas

Cinco grilhões celtas de ferro descobertos em Allonnes, no oeste da França, podem revelar a participação de um assentamento do século III a.C. no comércio de pessoas escravizadas.

As peças raras foram encontradas ao lado de armas, objetos rituais, ferramentas e centenas de moedas antigas.

Escavação de sítio celta na França surpreende ao revelar grilhões de ferro de 2.300 anos, incluindo algema de apenas 6 centímetros e peça de tornozelo com mais de 1 quilo
Imagem: INRAP

Grilhões de ferro celtas surpreenderam os arqueólogos

Os objetos foram recuperados durante uma escavação realizada ao longo de dois anos, perto de um santuário religioso no Vale do Loire.

O sítio arqueológico reunia áreas de produção artesanal, atividades religiosas e estruturas associadas à vida cotidiana.

Segundo o Instituto Nacional Francês de Pesquisa Arqueológica Preventiva, o INRAP, foram identificados uma algema dupla para os pulsos, uma peça destinada aos tornozelos e três fragmentos de outros tipos de grilhões.

O instituto considera os objetos “extremamente raros” para o final da Idade do Ferro. O período citado pelos pesquisadores se estendeu de 450 a 50 a.C., enquanto o assentamento de Allonnes foi fundado durante o século III a.C.

Uma das algemas de pulso tem apenas 6 centímetros de diâmetro. Essa medida sugere que a peça poderia ter sido utilizada para prender uma mulher ou criança.

A algema de tornozelo, por sua vez, pesa mais de 1 quilograma. O peso ajuda a mostrar a carga física imposta às pessoas obrigadas a utilizar esse tipo de instrumento.

Escavação de sítio celta na França surpreende ao revelar grilhões de ferro de 2.300 anos, incluindo algema de apenas 6 centímetros e peça de tornozelo com mais de 1 quilo
Artefatos de metal descobertos no antigo assentamento celta de Allonnes, França. Crédito: Emmanuelle Collado/INRAP

Armas e algemas indicam sociedade hierarquizada

A presença dos grilhões junto a armas levou os pesquisadores a considerar que Allonnes pode ter mantido alguma ligação com a escravização ou comercialização de pessoas durante o final da Idade do Ferro.

O especialista em metalurgia celta Thierry Lejars afirmou que a identificação de algemas e armas sugere uma organização social hierárquica, formada por grupos dominantes e subordinados, entre eles possíveis prisioneiros ou escravos.

 

De acordo com o INRAP, os gauleses escravizavam prisioneiros de guerra, pessoas condenadas e devedores.

 

Homens, mulheres e crianças submetidos a essa condição perdiam seus direitos, podiam ser negociados e frequentemente eram forçados a trabalhar nos campos.

O sítio também revelou intensa atividade metalúrgica. Os arqueólogos encontraram espadas, pontas de lança, chaves e arreios de cavalos produzidos por ferreiros, trabalhadores do bronze, latoeiros e outros artesãos especializados.

Escavação de sítio celta na França surpreende ao revelar grilhões de ferro de 2.300 anos, incluindo algema de apenas 6 centímetros e peça de tornozelo com mais de 1 quilo
Ilustração artística das algemas de pulso e tornozelo descobertas durante a escavação em Allonnes. Crédito: Elven Le Goff/INRAP

Moedas danificadas eram usadas como oferendas

O complexo religioso forneceu roupas, anéis, amuletos e pertences pessoais depositados como oferendas.

Muitos objetos foram dobrados ou danificados antes de serem deixados no santuário, provavelmente como parte de práticas religiosas.

Centenas de moedas, cunhadas ao longo de mais de cinco séculos, também foram recuperadas. Cerca de um terço havia sido limado, cortado ou marcado com cinzel, segundo a especialista em moedas antigas Isabelle Bollard-Raineau.

Para a pesquisadora, essas alterações retiravam das moedas sua função comercial e transformavam os objetos em oferendas permanentes ao sagrado. As descobertas mostram que o assentamento combinava produção metalúrgica, práticas religiosas e uma estrutura social marcada por fortes desigualdades.

Esta matéria foi elaborada com base em informações do Instituto Nacional Francês de Pesquisa Arqueológica Preventiva, com dados, números e declarações preservados conforme o material consultado.

Deu em CPG
Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


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