Censura 11/08/2026 18:16
Adoniran Barbosa e a ditadura: a censura que barrou ‘Tiro ao Álvaro’

Neste mês de agosto, em que Adoniran Barbosa completaria 116 anos de nascimento, a memória do “Pai do Samba Paulista” permanece viva como a expressão mais autêntica do cotidiano, do humor e do linguajar das ruas de São Paulo.
Compositor de clássicos imortais como ‘Saudosa Maloca’ e ‘Samba do Ernesto’, João Rubinato — nome de batismo do artista — transformou a oralidade popular e os ditos “erros de português” da classe trabalhadora em poesia lírica e crônica social.
O que nem todos lembram, contudo, é que nem mesmo o lirismo singelo do sambista escapou da paranoia repressiva do regime militar brasileiro. Em 1973, em pleno vigor do Ato Institucional nº 5 (AI-5), Adoniran tentou registrar um compilado de suas obras e deparou-se com o veto oficial a uma de suas canções mais célebres: ‘Tiro ao Álvaro’, escrita em 1960 em parceria com Osvaldo Moraes.
A justificativa para a proibição da faixa não envolveu acusações de subversão política ou conspiração ideológica.
O documento emitido pelo departamento de censura vetou a letra alegando simplesmente que a “falta de gosto impede a liberação da letra“, circulando em caneta as palavras “tauba”, “automorve” e “revorve” — termos em que o autor brincava com a pronúncia popular paulistana. Para os censores, a gramática do povo era tratada como um “assassinato” ao vernáculo.
A história dos bastidores da resistência artística e as contradições do aparelho repressivo ganham novo olhar na obra ‘Chame o ladrão’, novo livro do escritor, editor e cineasta Miguel de Almeida.
Resultado de uma pesquisa de três anos, o livro aborda o lado vibrante, criativo e, por vezes, absurdo do embate entre os artistas e a burocracia estatal.
Em entrevista exclusiva ao Aventuras na História, Miguel de Almeida explica que a reação contra a linguagem de Adoniran Barbosa reflete uma longa tradição de arbitrariedade institucional que se somou ao despreparo técnico dos funcionários encarregados de analisar a produção cultural brasileira durante a ditadura.
“A história da censura no Brasil – desde a Colônia – traz a marca da incoerência e da falta de lustro. De início, ocorreram os vetos (principalmente) por conta da Igreja Católica. Mais tarde, já na República, surgiram as implicâncias com os costumes, o linguajar e ainda o aspecto religioso”, analisa o autor.
Almeida detalha que, sob o regime instaurado em 1964, esses elementos se intensificaram em meio a um vácuo de capacidade analítica. “Sob o ditador Getúlio Vargas, as perseguições mantiveram a faca sobre essas três pernas e agravaram-se as proibições de caráter estritamente político.
Já na ditadura militar de 1964 todos esses elementos censórios se fizeram presentes com o adicional da ignorância; era um deus-nos-acuda de incompreensão de texto, de lógica e de história cultural.”
O perfil do corpo censório da época, segundo o pesquisador, agravava a arbitrariedade dos pareceres emitidos contra os compositores.
“No início radical da censura militar, com o AI-5 de 1968, com a tigrada querendo pegar os artistas, o aparelho censório contava com menos de 200 funcionários mal-formados (nenhum possuía curso superior) e soltos à deriva na tarefa de cortar e vetar”, explica.
“Daí que o censor exercia seu ofício basicamente à luz de seus preconceitos, objeções e desfaçatez ideológica. Não foi por acaso que mandaram prender Sófocles e Shakespeare – felizmente, as ordens não chegaram a ser cumpridas. Ou seja, a Censura do governo militar, assim como a administração deles, não possuía rumo, diretriz ou capacitação.”
Sobre o veto específico imposto ao criador de ‘Tiro ao Álvaro’, Miguel faz questão de apontar a autoria do parecer moralista. “Adoniran Barbosa foi vítima do caldo censório.
Veja só a justificativa da censora Eugênia Costa Rodrigues – coloco o nome dela para que sua ignorância não seja esquecida – diante da letra de Tiro ao Álvaro: ‘falta de gosto impede a liberação da letra’. Adoniran padeceu da mesma falta de lustro que afetou a escritora Adelaide Carraro, cujos livros sofreram vários cortes devido ao seu linguajar.
No caso, os censores homens se atormentavam com a descrição de uma autora descrever o corpo masculino – ‘um pinto murcho…’.”
A incerteza quanto ao critério dos censores transformava a liberação de livros, discos e peças de teatro em um jogo imprevisível. Compositores como Odair José submetiam a mesma composição repetidas vezes com títulos trocados, esperando que a análise caísse nas mãos de outro funcionário.
“Passar pela censura era – vale o trocadilho – uma roleta russa. Tiro ao Álvaro teve a infelicidade de cair nas mãos de uma censora cuja limitação intelectual a impediu de saborear a crônica e o caso descrito pelos autores”, ressalta Miguel de Almeida.
O autor relembra episódios icônicos em que canções abertamente críticas passavam despercebidas, enquanto obras sem fundo político acabavam barradas.
“Vem daí a constatação de que a censura do governo militar não possuía nem eira nem beira. Vazada em preconceitos, guiava-se pelas idiossincrasias de cada censor. Alguns mais carolas, outros mais liberais, outros ainda mais fanáticos. E incapazes de transcendência”.
Veja o caso de Apesar de Você, música e letra de Chico Buarque. A canção foi liberada pela censura, lançada em disco e, depois de ter vendido cerca de 100 mil cópias, alguém do governo deu-se conta de que a letra de maneira alegórica se referia à ditadura. Foi censurada, embora já estivesse na boca do povo e cantada nos bailes de carnaval!”, ressalta Miguel de Almeida.
A arbitrariedade também se estendia ao cinema. “A censura militar era uma bagunça. Cada um atirava para o seu lado. O filme Dona Flor e seus dois maridos recebeu treze cortes do ministro da Justiça, Armando Falcão.
Ele assistiu ao filme só com homens, proibindo a presença de mulheres na sessão. Aí já se imaginava a cabeça dele. O produtor Luis Carlos Barreto teve a sorte de encontrar a filha de Ernesto Geisel, Amália Lucy, que levou o filme para ser assistido pelo pai na festa surpresa de seu aniversário montada por sua mulher.
Geise, a esposa e todos os convidados adoraram o filme. Ao final, comunicado dos cortes por Amália Lucy, Geisel mandou que a produção fosse liberada sem qualquer corte. Vemos aí a distância entre o general da ditadura e seus acólitos”, reflete Almeida.
Nas pesquisas em arquivos oficiais para o livro ‘Chame o ladrão’, pareceres de vetos chamaram a atenção do autor pelo teor ilógico.
“Os pareceres dos censores, que eu li na pesquisa, são todos injustos, pecam pela incapacidade de compreensão intelectual da criação. Como contei, de início os funcionários do órgão não possuíam sequer fundamental completo. Me chocou – e achei engraçado – a análise do filme Terra em Transe, de Gláuber Rocha. O censor escreveu que não entendeu nada da obra e que portanto ela deveria ser totalmente censurada, já que ali deveriam existir mensagens subliminares.”

Recusando-se a alterar a letra para corrigir os supostos “erros” de português e transformá-la em “Tiro ao Alvo”, Adoniran Barbosa guardou Tiro ao Álvaro por anos. A música só viria a ser oficialmente gravada em 1980, em um célebre dueto com Elis Regina, quando o regime militar já entrava em seu período de declínio.
“Em 1980, quando Tiro ao Álvaro é enfim liberada, a ditadura já caminhava para seu final, vivia seu estertor, e por certo o funcionário que a analisou não dividia os mesmos preconceitos linguísticos da censora Eugênia. Naquele momento da década, a população já tinha enviado sinais, via protestos e também eleições, que o tempo dos militares chegara ao fim”, afirma.
“E os artistas agora debochavam publicamente dos censores. Rita Lee, por exemplo, em seus espetáculos, fazia a pergunta: ‘Dona Solange, a senhora já ouviu falar de Modess?’ Solange Hernandez, a chefe da censura à época, implicara com um verso de Rita, e o vetara: ‘Mulher é um bicho esquisito/todo mês sangra’”, relembra Miguel.
Ao avaliar as sequelas deixadas por quase duas décadas de controle estatal sobre a criação artística, o escritor adverte que a mentalidade censória não desapareceu por completo com a redemocratização, apenas mudou de endereço.
“Eu não saberia dizer se a censura refinou a produção. Havia uma toada de uso das metáforas – algumas eram até interessantes e criativas. Como a letra de Apesar de Você. A questão é que o público passou a achar ‘mensagens’ ou ‘recados’ em qualquer coisa”, pondera.
“Mas a censura, assim como a falta de liberdade da ditadura, causou um imenso mal ao país. Ainda pagamos por esse período após quarenta anos de redemocratização A censura saiu do Estado para entrar na Sociedade: esses cancelamentos e assassinatos de reputação executados pela chamada opinião pública digital é filha direta da censura militar”, conclui Miguel de Almeida.
Deu em Aventuras na História

Descrição Jornalista
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