Brasil 22/11/2021 09:30
Dia da Consciência Negra: 10 expressões do português de origem racista
Em muitos casos, a associação da cor preta a algo negativo fica evidente em frases como: você está na minha "lista negra", ela comprou o computador no "mercado negro" ou sou a "ovelha negra" da família. Mas certas expressões de origem racista são muito menos óbvias.

O histórico de escravidão e discriminação a negros no Brasil deixou marcas que se estendem para a linguagem que utilizamos no dia a dia.
Em muitos casos, a associação da cor preta a algo negativo fica evidente em frases como: você está na minha “lista negra”, ela comprou o computador no “mercado negro” ou sou a “ovelha negra” da família. Mas certas expressões de origem racista são muito menos óbvias.
Para gerar conscientização e sugerir que sejam abolidas do cotidiano, a Defensoria Pública da Bahia lançou para o Dia da Consciência Negra uma espécie de dicionário de expressões racistas.
“Nosso idioma foi construído sob forte influência do período de escravização e muitas destas expressões seguem sendo usadas até hoje, ainda que de forma inconsciente ou não intencional. Precisamos repensar o uso de palavras e expressões que são frutos de uma construção racista”, diz o texto de introdução da cartilha, chamada “Expressões Racistas do Cotidiano”.
Conheça dez expressões de origem racista citadas nesse dicionário que ainda integram o vocabulário de muitos brasileiros:
A cartilha da Defensoria Pública da Bahia diz que, embora haja mais de uma explicação para a origem dessa palavra, uma delas faz referência “aos criados, geralmente pessoas escravizadas, que deveriam segurar objetos para seus senhores e eram proibidos de falar”.
Por causa disso, o dicionário recomenda que a palavra “criado-mudo” seja substituída no dia a dia das pessoas por “mesa de cabeceira”. Em 2019, a rede de móveis Etna anunciou no Dia da Consciência Negra que iria abolir o termo do seu catálogo e de todas as suas lojas.
Em campanha de vídeo, a empresa explicou que, embora muitas pessoas utilizem “criado-mudo” sem saber da sua origem, o nome remete ao período da escravidão no Brasil, quando pessoas escravizadas passavam dia e noite imóveis ao lado da cama para atender aos pedidos dos “senhores”.
“Sem nos dar conta, ainda carregamos termos racistas como esse, mas sabemos que é sempre tempo de mudar e evoluir”, dizia o vídeo lançado pela Etna em 2019.
A cartilha da Defensoria Pública da Bahia explica que a expressão “da cor do pecado”, muitas vezes usada como “elogio” por pessoas brancas, carrega a cultura racista de “hipersexualização dos corpos negros, estigmatizados no período colonial, quando os ‘senhores’ violentavam sexualmente mulheres negras e encaravam isso como um momento de diversão”.
Outras expressões citadas na cartilha também remetem a essa sexualização das pessoas negras, principalmente das mulheres. A publicação destaca que essa objetificação abre caminho para violência sexual e discriminações.

CRÉDITO,GETTY IMAGES Cartilha da Defensoria Pública destaca que uso de expressões de origem racista podem significar microagressões a pessoas negras
A expressão “dar com pau”, usada hoje em dia para expressar “abundância” ou “grande quantidade”, também remete à violência da escravidão.
“Expressão originada nos navios negreiros. Muitos dos capturados preferiam morrer a serem escravizados e faziam greve de fome na travessia entre o continente africano e o Brasil. Para obrigá-los a se alimentar, um ‘pau de comer’ foi criado para jogar angú, sopa e outros alimentos pela boca”, diz o dicionário da Defensoria Pública da Bahia.
Por isso, a publicação sugere que, em vez de dizer, por exemplo: “tinha gente a dar com pau”, as pessoas digam “tinha muita gente” ou “basante gente”.
Outra variação da expressão com origem na escravidão, também muito usada hoje em dia, é: “nem a pau”. Nesse caso, ela pode ser substituída por: “de jeito nenhum”.
A expressão “nas coxas” costuma ser usada para se referir a algo mal feito. Mas, segundo a cartilha da Defensoria Pública da Bahia, ela tem origem na “época da escravidão brasileira, quando as telhas eram feitas de argila, moldadas nas coxas de pessoas escravizadas. Como tamanho e formato variavam, a expressão remete a algo mal feito”.
Essa palavra, usada para dizer que alguém está “manchando” a imagem ou reputação de alguém, vem do latim denigrāre, que significa “enegrecer”.
“Possui na raiz o significado de ‘tornar negro’. Utilizado como sinônimo de difamar ou caluniar, reforça, mais uma vez, ser negro como negativo, ofensivo”, diz o “dicionário” da Defensoria Pública da Bahia.
Essa expressão, usada para se referir a “desempatar um jogo”, tem base tanto na escravidão quanto na misoginia e no desprezo à mulher, segundo a cartilha.
“Àquela época, era comum ver os senhores de escravos colocando como prêmio em jogos ou apostas uma mulher negra escravizada”, diz a publicação da defensoria, que recomenda que não utilizemos mais essa expressão.
Assim como “nas coxas”, meia tigela é expressão usada frequentemente para se referir a algo medíocre ou mal feito. Mais uma vez o termo tem origem na escravidão.
“Os negros que trabalhavam à força nas minas de ouro nem sempre conseguiam alcançar suas metas. Quando isso acontecia, recebiam como punição apenas metade da tigela de comida e ganhavam o apelido de ‘meia tigela’, que hoje significa algo sem valor e medíocre”, diz o dicionário de Expressões Racistas do Cotidiano.
A palavra originalmente era usada como nome de um instrumento de percussão de origem africana, semelhante a um instrumento de reco-reco, diz a cartilha.
Mas, no Brasil, passou a ser utilizada de maneira pejorativa para se referir às oferendas a orixás nas religiões de matriz africana. A defensoria destaca que cada religião de matriz africana tem nome próprio para se referir a oferendas e sugere que os termos corretos sejam adotados no cotidiano, sem atribuir conotação negativa a um rito que deve ser respeitado como parte de uma religião.
Segundo a cartilha, no candomblé e na ubanda, fala-se em “ebó” ou “despacho” para tratar de oferendas a orixás ou entidades espirituais. “Vamos deixar de estereotipar religiões de matriz africana e cada um seguir com sua fé”, sugere a publicação da defensoria.
A cartilha destaca que o termo “mulato”, na língua espanhola, se referia ao filhote macho do cruzamento do cavalo com a jumenta ou da égua com o jumento- o que em português chamamos de mula.
O termo, que define o animal mestiço, passou a ser usado, segundo o dicionário Houaiss, a partir do século XVI como analogia para se referir a filhos de mãe branca e pai negro ou vice-versa. Ou seja, compara-se um animal mestiço com um ser humano que descende de brancos e negros.
“A enorme carga pejorativa é ainda maior quando se diz ‘mulata tipo exportação’, reiterando a visão racista do corpo da mulher negra como mercadoria”, diz o dicionário de Expressões Racistas do Cotidiano.
Uma discussão cada vez mais em voga diz respeito ao uso da palavra escravizado no lugar de “escravo”, para se referir aos africanos trazidos à força ao Brasil durante a colonização portuguesa.
O dicionário da Defensoria Pública da Bahia explica qual o argumento por trás disso: “Usar a palavra ‘escravo’ sugere que seja uma característica e condição inerente à pessoa, sendo que foi algo imposto ao povo africano, que foi sequestrado e torturado pela escravidão. A palavra sugere desumanização, esquecendo a história e o legado desses povos para a história mundial.”
Apesar dessas expressões nem sempre serem usadas com a “intenção” de ofender ou discriminar, a publicação da defensoria sugere que as pessoas voluntariamente abram mão delas, porque elas reforçam uma cultura de subjulgar, sexualizar e inferiorizar os negros.
“O racismo se revela de diversas formas em nossa sociedade. Estas microagressões, além de reproduzirem um discurso racista, ao identificarem a negritude como marcador de inferioridade social, afetam o bem estar de pessoas negras”, diz a Defensoria Públca da Bahia.

Descrição Jornalista
Relatório dos EUA cita Moraes 279 vezes ao analisar atuação do STF
02/04/2026 19:04
O que acontece com seu cérebro se você tomar café todos os dias?
02/04/2026 17:37
Governo informa funcionamento dos órgãos estaduais no período da Semana Santa
02/04/2026 04:09 83 visualizações
Minervino Wanderley lança o livro “Quero Meu Mundo de Volta!”
02/04/2026 05:17 71 visualizações
Combo que liga STF a Vorcaro pressiona PGR a investigar ministros
02/04/2026 15:03 64 visualizações
Autor de biografia afirma que PT envelheceu e evita contrariar Lula
02/04/2026 07:27 64 visualizações
Governo dos EUA expressa “séria preocupação” com censura no Brasil
02/04/2026 08:34 64 visualizações
Botafogo vence Mirassol, deixa Z4 e ameniza crise
02/04/2026 06:23 62 visualizações
Litto Lins, ‘Lumi’ e ‘Lollapalizo’: veja agenda do fim de semana em Natal
02/04/2026 09:00 62 visualizações
Cientistas conseguem reverter o envelhecimento
02/04/2026 15:26 54 visualizações
Veja como fazer pagamentos com a palma da mão, sem cartão; vídeo
02/04/2026 14:14 52 visualizações
Inmet publica alertas de chuvas de até 100 mm por dia para cidades do RN nesta quinta-feira
02/04/2026 08:56 52 visualizações