Comportamento 25/02/2021 16:31
Fumigar calçadas, desinfetar sapatos e outros atos inúteis do “teatro da pandemia”
Provas do contágio através de superfícies e a utilidade das nebulizações estão sendo questionadas, mas muitos recursos ainda são gastos em medidas que oferecem uma falsa sensação de segurança

O Governo dos Estados Unidos decidiu fumigar a Casa Branca depois da saída de Donald Trump. Assim, horas antes de Joe Biden entrar na residência presidencial, uma equipe de funcionários se dedicou a aspergir desinfetante em todos os cômodos.
Na semana passada, os britânicos viram seu primeiro-ministro, Boris Johnson, empenhar-se a fundo em limpar o assento de uma cadeira. Um ano depois de um novo coronavírus deixar o mundo de joelhos, muitas são as medidas tomadas só para agradar à plateia. É o “teatro da pandemia”, como definiu em abril de 2020 a pesquisadora Zeynep Tufekci num artigo em que criticava ações inúteis e até contraproducentes, como fechar parques.
O Governo dos Estados Unidos decidiu fumigar a Casa Branca depois da saída de Donald Trump. Assim, horas antes de Joe Biden entrar na residência presidencial, uma equipe de funcionários se dedicou a aspergir desinfetante em todos os cômodos.
Na semana passada, os britânicos viram seu primeiro-ministro, Boris Johnson, empenhar-se a fundo em limpar o assento de uma cadeira. Um ano depois de um novo coronavírus deixar o mundo de joelhos, muitas são as medidas tomadas só para agradar à plateia.
É o “teatro da pandemia”, como definiu em abril de 2020 a pesquisadora Zeynep Tufekci num artigo em que criticava ações inúteis e até contraproducentes, como fechar parques.
Del Val, diretora da plataforma do CSIC (agência científica espanhola) para a covid-19, se concentra na vertente psicológica do problema: “Muita gente tem como seguir no máximo duas medidas em seu cotidiano, sendo que uma é usar máscara, e a outra é limpar tudo ou manter distância, e não nos cabe ventilar mais do que isso”.
Elvis García, sanitarista da Universidade Harvard, considera que o problema com o “teatro da higiene” é que “é fácil de entender, intuitivo e fácil de atacar”. E acrescenta: “A questão das partículas e das máscaras é mais difícil de entender”.
Já em suas recomendações de março de 2020, o ECDC só aconselhava limpar pontos especialmente manuseados, como maçanetas, interruptores, corrimãos e botões de elevador, enquanto nas ruas da Espanha o Exército já fumigava bancos e calçadas ao ar livre.
A cientista Teresa Moreno, do IDAEA (Instituto de Avaliação Ambiental e Pesquisa Hídrica, na sigla em inglês, um órgão do CSIC espanhol), analisou a presença do coronavírus nas barras e botões do metrô e dos ônibus de Barcelona nos meses de maio e junho.
“Naquele momento, as pessoas achavam que o contágio se dava mais por superfícies”, recorda. O mesmo trabalho também colheu amostras do ar, o que é a sua especialidade. Os pesquisadores encontraram traços do vírus em ambos os elementos, mas se tratava de fragmentos sem capacidade de contágio.
“No ar encontramos níveis baixos, e era de quando as pessoas não usavam máscara, por isso não parece um foco de infecção; eu uso o transporte público e não sinto que esteja em um lugar perigoso”, observa Moreno.O mais interessante é que havia veículos que a empresa pública de transportes de Barcelona limpava com água sanitária, enquanto outros eram fumigados com ozônio. Os desinfetados com um pano e água sanitária ficavam livres de rastros do vírus, o que não era o caso dos ônibus vaporizados.
“Vimos que com os canhões de ozônio era muito difícil que se espalhasse por todo o veículo. Em concentrações baixas, o ozônio não faz nada, continuávamos encontrando traços. E em concentrações altíssimas ele não é viável, porque é muito tóxico”, diz a cientista.
“Estou preocupada com os artefatos que estão sendo oferecidos agora, porque são muito tóxicos, reagem com os materiais e prejudicam a saúde”, adverte. Del Val aponta: “Não está nada claro que funcionem, e em todo caso é preciso ventilar ao acabar, pela toxicidade para as mucosas: então ventile bem e já está tudo certo”.
As autoridades sanitárias são claras nesse aspecto. O ECDC assinala que “a pulverização [também denominada fumigação] de desinfetantes ao ar livre ou em grandes superfícies interiores (auditórios, salas de aula e edifícios), assim como o uso de radiação de luz ultravioleta, não é recomendada para a população devido à falta de eficácia, possíveis danos ambientais e a possível exposição dos seres humanos a produtos químicos irritantes”.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) também se opõe claramente ao uso de sprays, por serem inúteis e perigosos, em ambientes e também em pessoas ―como nos túneis de lavagem que nebulizam produtos antes do acesso a determinados ambientes.
Em um site dedicado a desmentir mitos da pandemia, a OMS também esclarece que as possibilidades de contágio pelos sapatos é “muito baixa” e que o uso de termômetros rápidos não servem para detectar doentes de covid-19, porque muitos não apresentam febre e mesmo assim são contagiosos.
“A pistola para medir a temperatura não faz muito sentido. No ebola sim, porque você só contagia se tiver febre, mas neste caso a relação custo-benefício é só para a plateia”, afirma García. E reclama:
“O importante não é ter termômetros para os viajantes, e sim uma quarentena de 10 dias”. Além disso, o ECDC desaconselha o uso de luvas porque “não conferem um benefício adicional e podem provocar uma higiene de mãos inadequada e uma maior contaminação das superfícies”.
De novo, são decisões teatrais que podem dar uma falsa sensação de segurança para quem entra num edifício com capachos, arcos pulverizadores e assistentes com termômetros.
O epidemiologista Miguel Hernán, de Harvard, critica outros “teatros pandêmicos” que continuam sendo representados, como “o teatro de impor distância de segurança, que não é controlada, em bares mal ventilados, como se não existisse contágio por aerossóis quando se fala em voz alta, porque a música impede de ser ouvido”.
Ou o “teatro de recomendar teletrabalho em vez de regulá-lo por lei para todos os postos em que for possível”.
García aponta outras questões que também lhe parecem representações sem substância:
“Há medidas importantes que não quiseram tomar e se inventaram coisas em troca, como os hospitais de pandemias, os fechamentos perimetrais quando a incidência está igualmente disparada em todos os bairros, as discussões sobre o toque de recolher em estabelecimentos que teriam que ser fechados, vestir trabalhadores como astronautas para alguma coisa”. “São coisas intuitivas, embora não façam sentido”, diz. E aponta um último aspecto que tem grande impacto visual e psicológico: as ondas de contágios.
“É uma construção que torna as pessoas predispostas a que o vírus venha. Para os governos é bom, porque assumimos que é algo inevitável que simplesmente acontece. Quando enfrentamos uma epidemia, é preciso ir a fundo para acabar com ela, não usar essa linguagem teatral das ondas”, critica.
Deu em El País

Descrição Jornalista
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