Comportamento 15/12/2020 09:21
Classe média sai da quarentena para os braços da covid-19 e lota hospitais privados no Brasil
População das classes A e B que ficou em ‘home office’ e em isolamento no início da pandemia agora vai a festas, restaurantes e confraternizações, se infectando e transmitindo o novo coronavírus

Foram quase seis meses trancada dentro de sua casa em Brasília.
Desde o início da pandemia do novo coronavírus, em março, até outubro, a aposentada Vânia Carvalho de Mendonça, 71, não colocou o pé para fora da soleira da porta.
“Até as compras no mercado quem fazia era o meu marido”, conta. Em outubro a situação da crise sanitária no Brasil parecia estar melhorando, com o número de mortes e casos diminuindo semana a semana. O aniversário do neto, que Vânia não via há quase um ano, fez com que ela quebrasse sua quarentena.
Entrou em um avião e viajou até São Paulo para participar dos festejos. De quebra, foi a um jantar na casa de amigos do filho, com outros oito adultos e sete crianças.
Dias depois a idosa estava internada na unidade de terapia intensiva no hospital Albert Einstein, na zona sul da capital paulista, recebendo oxigênio, situação que se estendeu por cinco dias.
O caso de Vânia não é exceção.
Cada vez mais brasileiros das classes A e B que ficaram em quarentena no início da pandemia, contando com o privilégio do home office, chegam ao limite psicológico da tranca dentro de casa.
A melhora dos números de contágios e mortes pela covid-19 e o relaxamento das restrições por parte do poder público, que liberou a abertura de bares e restaurantes, fez com que muitos isolados ganhassem as ruas pelo Brasil, muitas vezes sem o devido cuidado —como uso de máscara.
De certa forma, a história se repete: o novo coronavírus chegou ao Brasil trazido por turistas de classe média que voltavam de férias na Europa, e agora encontra nesta mesma população terreno fértil novamente.
“É possível afirmar que o início desta nova elevação do número de casos iniciou de novo pela classe A e B, assim como ocorreu em março. Mas logo foi seguida por um crescimento generalizado em todas as camadas da população”, afirma Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein.
Uma das consequências desta reabertura foi o aumento no número de casos da doença, que teve um reflexo direto na ocupação de leitos do sistema privado e público de saúde.
No Albert Einstein, por exemplo, onde Vânia foi atendida, a média diária de pessoas internadas com covid-19 na UTI em outubro e novembro foi de 28. Nos primeiros dias de dezembro este número já está na casa dos 50 atendimentos (o hospital afirma que não trabalha com taxa de ocupação, pois remaneja leitos de acordo com a necessidade).
“Quase tivemos que dobrar o número de leitos de covid-19”, afirma Klajner. Situação semelhante foi vista em outros hospitais particulares. Em 7 de dezembro o Sírio Libanês anunciou um plano de contingência para lidar com o aumento na procura por leitos voltados para pacientes com o novo coronavírus, e no HCor a média móvel de internações pela doença —que leva em conta intervalos de sete dias— saltou de 17 em meados de outubro para 51 na última semana.
Já recuperada do susto, Vânia lamenta o ocorrido.
“Eu me arrependo pelo lado de ter contraído o vírus. Me preveni durante meses e uma saidinha deu nisso. Mas emocionalmente eu precisava sair. E as crianças ficam pedindo, sabe? ‘Vovó, vem ver a gente!’. Aí você se deixa levar por essa parte emocional”, conta. Os sintomas da doença começaram a se manifestar dias após o jantar na casa de um amigo do filho.
“Eu tive febre, muita dor de cabeça e no corpo, não tinha força nem pra falar. E aí veio a falta de ar, que me fez ser internada”, conta. Dos oito adultos presentes no encontro, seis testaram positivo para a doença, todos com sintomas leves e sem necessidade de internação.
Com as festas de fim de ano se aproximando, existe o temor por parte das autoridades que os números da doença no país explodam, tendo em vista o aumento de confraternizações e reuniões de amigos e familiares para celebrar o Natal e o Ano Novo.
“Acho que as pessoas precisam ponderar o que é melhor: deixar de estar com seus familiares por um ano, um momento, e poder desfrutar destes momentos num futuro próximo, ou correr o risco de morrer e acabou”, diz Vânia.
Deu em El País

Descrição Jornalista
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