Governo Lula mantém R$ 83 milhões do cartão corporativo em sigilo e nega 22 mil pedidos de acesso à informação - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Dinheiro 22/10/2026 14:18

Governo Lula mantém R$ 83 milhões do cartão corporativo em sigilo e nega 22 mil pedidos de acesso à informação

Governo Lula mantém R$ 83 milhões do cartão corporativo em sigilo e nega 22 mil pedidos de acesso à informação

Dados contrastam com o discurso de transparência de Lula na reta final da campanha, enquanto o presidente cobra de Flávio Bolsonaro a abertura de sigilos

O Lula mantém sob sigilo cerca de R$ 83 milhões em despesas do cartão corporativo da Presidência da República e acumula 22.474 pedidos de acesso à informação classificados como negados desde 2023.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desafiou o senador Flávio Bolsonaro (PL) a abrir os sigilos bancário, fiscal e telefônico dele e de seus familiares. Os números contrastam com o discurso de transparência adotado pelo petista na reta final da campanha eleitoral.

O desafio entre Lula e Flávio Bolsonaro

Nesta terça-feira (20), Lula protocolou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um documento autorizando a de seus dados bancários, fiscais e telefônicos.

A autorização vale também para os dados da , Rosângela da Silva, a Janja, e de seus cinco filhos, referentes aos últimos oito anos.

A iniciativa formaliza o desafio feito a Flávio durante o debate da Band, no domingo (18). Na ocasião, o presidente afirmou que abriria seus dados caso o adversário fizesse o mesmo.

Flávio Bolsonaro se manifestou nesta quarta-feira (21). Ele afirmou que aceita abrir os seus sigilos se o petista abrir os de seu ex-assessor Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, e os da primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja.

Na petição protocolada na Justiça Eleitoral, Flávio autorizou o acesso às próprias informações dos últimos 20 anos. Ele estabeleceu, porém, exigências para que a medida também alcance o presidente e pessoas próximas a ele.

As autorizações dadas por Lula e Flávio não significam que os sigilos já tenham sido quebrados nem que as informações estejam disponíveis para consulta pública.

Quem é Marcola e o que investiga a PF

Ex-chefe de gabinete da Presidência na gestão Lula 3, Marcola é investigado em um dos inquéritos que apuram suspeitas de tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente.

A Polícia Federal identificou repasses de R$ 249 mil da lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, ao ex-assessor. Marcola afirma que o valor corresponde a um pessoal já quitado. Roberta diz que o auxílio financeiro ocorreu por amizade. A relação entre os dois é investigada no contexto de suspeitas de favorecimento de interesses privados junto ao governo federal.

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Cartão corporativo: 98,6% dos gastos sob sigilo

Enquanto cobra do adversário uma iniciativa de transparência, Lula e seu governo mantêm de acesso a informações sobre despesas públicas. Também registram milhares de negativas a solicitações feitas com base na Lei de Acesso à Informação (LAI).

Os dados do Cartão de Pagamento do Governo Federal (CPGF) mostram que a maior parte das despesas vinculadas à Presidência foi mantida em sigilo durante o atual mandato.

Entre 2023 e agosto de 2026, os gastos totais somaram R$ 84,54 milhões. Desse montante, R$ 83,37 milhões foram classificados como sigilosos, o equivalente a aproximadamente 98,6% do total desembolsado no período.

Considerando apenas os gastos com informações sigilosas, a evolução foi esta:

  • 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Lula: R$ 24,06 milhões;
  • 2024: R$ 26,32 milhões;
  • 2025: R$ 22,73 milhões;
  • 2026, com dados disponíveis somente até agosto: R$ 10,25 milhões nos primeiros oito meses.

Nesse tipo de gasto, é possível ver apenas o mês e o ano da despesa, o valor e a unidade administrativa que fez a transação, como Gabinete Pessoal do Presidente, Vice-Presidência ou Secretaria-Geral. Não há acesso a dados importantes, como a data exata do gasto, o nome do portador do cartão ou o fornecedor do bem ou serviço adquirido. Entre os exemplos estão hospedagem, combustível, alimentação, material de consumo ou apoio logístico.

A classificação de despesas relacionadas à Presidência costuma ser fundamentada na proteção da segurança do presidente, de seus familiares e das equipes responsáveis por sua proteção. Informações sobre deslocamentos, hospedagens, itinerários e operações de segurança podem expor rotinas e comprometer a atuação dos agentes públicos.

Mais de 22 mil negativas via LAI

O painel Busca LAI registra 22.474 solicitações classificadas como “Acesso Negado” no Poder Executivo federal entre 2023 e outubro de 2026. O maior número ocorreu em 2023, com 6.292 pedidos nessa categoria. Em 2024, foram 5.613; em 2025, 5.535. Neste ano, até outubro, o total chegou a 5.034. As negativas se mantiveram acima de 5 mil por ano em todo o período analisado.

Os dados abrangem o conjunto dos órgãos e entidades do Poder Executivo federal. As justificativas previstas nas regras de acesso à informação incluem a proteção de dados pessoais, o sigilo legal de documentos, a preservação de informações relacionadas à segurança e determinadas hipóteses de documentos preparatórios.

Há ainda situações em que o órgão alega que o atendimento exigiria trabalho adicional desproporcional.

Itamaraty barrou dados sobre hospedagens em embaixadas

Em setembro de 2026, um requerimento ao Ministério das Relações Exteriores pediu dados detalhados sobre custos, datas, eventos e justificativas de hospedagens em embaixadas brasileiras no exterior. O pedido cobria duas frentes: a acolhida de artistas e pessoas sem cargos públicos e a estada da primeira-dama Rosângela Lula da Silva acompanhada de seus assessores.

Consultar Decretos

No dia 14 de outubro, o órgão indeferiu o acesso. Enquadrou o requerimento como pedido genérico, com base no artigo 13 do Decreto 7.724/2012 e no artigo 10 da Lei de Acesso à Informação.

O ministério argumentou que a ausência de delimitação temporal, geográfica ou nominal para os convites e registros inviabiliza a busca nos sistemas governamentais. O autor foi orientado a reformular a solicitação com um escopo reduzido e delimitado, para possibilitar o atendimento da demanda.

GSI negou registros de visitas aos palácios

O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República também negou, em mais de uma oportunidade, os registros de entrada e saída referentes a encontros e agendas oficiais nos Palácios da Alvorada e do Planalto desde 1º de janeiro de 2023.

As solicitações pediam a lista de nomes dos visitantes, datas, horários, entidades representadas e autoridades visitadas, excluindo expressamente encontros estritamente privados.

O GSI negou o acesso com base na proteção à intimidade e à vida privada. Classificou ainda o conteúdo sob o fundamento de risco à segurança de altas autoridades nacionais e seus familiares. Houve também justificativas baseadas no “caráter genérico” do pedido.

Entre as solicitações negadas estão registros específicos relacionados a Fábio Luís Lula da Silva (o Lulinha), a Luís Cláudio Lula da Silva (filho caçula de Lula) e ao Procurador-Geral da República, Paulo Gonet.

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O órgão justificou, ainda, que os compromissos públicos do presidente no Palácio da Alvorada já são disponibilizados em transparência ativa por meio do portal oficial da Presidência da República.

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


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