Inteligência 17/10/2026 09:45
Homens têm QI maior que mulheres? Entenda as diferenças entre os gêneros

A possível diferença de QI entre homens e mulheres costuma gerar debates sobre quem teria maior capacidade intelectual. No entanto, a explicação científica é bem mais complexa do que parece.
A maior presença masculina em alguns grupos com pontuações extremamente elevadas não pode ser entendida apenas como uma questão de superioridade intelectual. Existem outros fatores que podem influenciar esses resultados.
Para a terapeuta e pesquisadora do Centro de Pesquisas e Análise Heráclito (CPAH) Flávia Ceccato, autora do livro “Descobrindo a Inteligência Existencial: Ferramentas, Insights e Implicações” e membro da IIS Society, sociedade de alto QI, é fundamental diferenciar inteligência média de distribuição estatística.
“Não é correto interpretar a maior presença masculina em determinados grupos de superdotação como uma prova de que os homens possuem uma inteligência geral superior. As médias de inteligência entre os sexos são muito próximas. O que pode existir é uma diferença na variabilidade dos resultados, além de fatores relacionados à identificação dessas pessoas”, ressalta.
Alguns grandes bancos de dados populacionais indicam maior variabilidade masculina na distribuição dos resultados de inteligência.
Na prática, isso significa que uma maior dispersão pode colocar proporcionalmente mais homens nos dois extremos da curva, tanto entre resultados muito baixos quanto entre resultados muito altos.
Quanto mais extremo é o critério utilizado para definir um QI excepcionalmente elevado, como 145 ou 160, maior pode se tornar a diferença proporcional entre homens e mulheres identificados nesses grupos. Isso não significa, porém, que os homens tenham uma média geral de inteligência superior.
“É importante compreender a diferença entre média e variabilidade. Podemos ter médias muito semelhantes e, ao mesmo tempo, uma distribuição diferente dos resultados. Essa diferença estatística pode fazer com que apareçam proporcionalmente mais homens em alguns extremos, mas isso não define uma superioridade intelectual masculina”, explica Flávia Ceccato.
Meninas podem nem sempre apresentar os mesmos comportamentos que levam pais e professores a perceber precocemente uma capacidade intelectual excepcional. Dessa forma, algumas podem ser menos encaminhadas para avaliações ou ter suas habilidades interpretadas de outras maneiras.
“A maior presença masculina entre os superdotados identificados pode resultar de uma combinação entre variabilidade estatística e fatores sociocomportamentais relacionados à identificação”, ressalta.
O núcleo cognitivo da superdotação pode ser equivalente, mas a forma como essa capacidade aparece no comportamento não precisa ser igual. Em determinados contextos, homens podem tornar suas habilidades mais visíveis por meio de comportamentos como maior assertividade, competitividade, confronto intelectual, busca por novidades ou externalização do tédio.
Já algumas mulheres podem apresentar maior modulação social das próprias capacidades, além de autocobrança, perfeccionismo, internalização de dificuldades e, em alguns casos, até uma ocultação deliberada da competência para preservar o sentimento de pertencimento em determinados grupos.
“A superdotação não possui um comportamento único e muito menos dois modelos biológicos, um masculino e outro feminino. O sexo, isoladamente, não permite prever como uma pessoa superdotada irá agir. Personalidade, ambiente familiar, cultura, experiências e outras características individuais podem ser muito mais determinantes”, afirma.
A testosterona participa da organização e modulação do cérebro e pode estar relacionada a determinados domínios, como aspectos da cognição espacial, motivação, competitividade e tomada de decisão. Isso, porém, não significa que ela determine uma inteligência geral maior.
Estudos como “Qual a diferença entre o cérebro delas e o deles”, disponibilizado na Revista Multidisciplinar Ciência Latina e “Testosterone Supplementation and Cognitive Functioning in Men — A Systematic Review and Meta-Analysis“, publicado no Journal of the Endocrine Society, analisaram os efeitos da testosterona sobre a cognição global e não demonstraram que o aumento hormonal, por si só, transforme um indivíduo em mais inteligente.
Também existem diferenças entre homens e mulheres nas trajetórias de maturação cortical, incluindo regiões do córtex pré-frontal. O córtex pré-frontal dorsolateral, por exemplo, está relacionado a funções importantes, como memória de trabalho, controle executivo e raciocínio.
Ainda assim, não existe uma demonstração robusta de que uma característica específica dessa região no cérebro masculino resulte em maior inteligência geral. O QI não depende de uma única área cerebral.
A inteligência envolve redes distribuídas pelo cérebro, especialmente sistemas relacionados à integração entre diferentes regiões, conectividade neural, eficiência dos processos cerebrais, fatores genéticos e influências ambientais acumuladas ao longo da vida.
“Não podemos procurar uma única região do cérebro ou um único hormônio para explicar a inteligência. O funcionamento cognitivo é resultado de uma interação extremamente complexa entre diferentes redes cerebrais, genética, ambiente e experiências”.
“Mais importante do que transformar inteligência em uma competição entre os gêneros é compreender a enorme diversidade humana. Existem pessoas com capacidades extraordinárias em diferentes áreas, e o desafio é reconhecer essas potencialidades sem reduzir o indivíduo ao seu sexo ou a um único número de QI”, conclui Flávia Ceccato.
Deu em Portal Edicase
Por Angela Rocha

Descrição Jornalista
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