Por que jovens não costumam reconhecer abuso online no namoro, segundo estudo - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Comportamento 02/10/2026 18:39

Por que jovens não costumam reconhecer abuso online no namoro, segundo estudo

Por que jovens não costumam reconhecer abuso online no namoro, segundo estudo

Para a pesquisadora, a vigilância se normalizou a ponto de dificultar a distinção entre amor e controle, e esse fenômeno tem até um nome próprio: violência entre parceiros íntimos facilitada pela tecnologia, também conhecida pela sigla em inglês TFIPV.

Basicamente, ela designa o uso de celulares, redes sociais, aplicativos de mensagem, rastreamento de localização e IA (inteligência artificial) para vigiar, coagir, assediar ou controlar o cônjuge ou ex-parceiro.

Por que os jovens não enxergam o abuso

Entre abril e maio de 2026, Patel entrevistou dez especialistas que atendem jovens em situação de violência no Brasil, na Tchéquia, na Inglaterra, na França, na Grécia, na Indonésia, na África do Sul, na Espanha, na Suécia e nos Estados Unidos, por meio do programa “Abuso Não É Amor”, da YSL Beauty.

Em todos esses países, verificou-se que, embora os jovens sintam desconforto com o controle digital praticado por seus companheiros, não o classificam como abuso.

Nos Estados Unidos, Tracey Vitchers, diretora executiva da It’s On Us, ONG fundada para aumentar a conscientização e combater o assédio sexual em campi universitários dos Estados Unidos, conta que estudantes chegam aos grupos de apoio com dúvidas, não com denúncias. Muitos questionam se o suposto interesse do parceiro em saber onde está frequentemente é algo normal.

Como compartilhar localização com amigos é uma prática comum, o pedido vindo de um parceiro pode parecer familiar, e não uma invasão. “Muitos desses jovens cresceram tendo acesso a esse tipo de tecnologia, então torna-se difícil compreender que ela também pode ser usada como ferramenta de abuso”, afirma Vitchers.

Na África do Sul, Sidwell Sehoana, da ADAPT, ONG dedicada à conscientização, ao aconselhamento e à capacitação sobre violência de gênero, ouviu de uma jovem que entregou a senha ao namorado porque acreditava quer era aquilo o que casais faziam e que se tratava de uma prova de amor.

“Esse controle é encarado como um modo de vida dentro do relacionamento e só é visto como problema quando há violência física”, aponta Sehoana.

Origem do hábito está dentro de casa

Parte da explicação está na família. Pais e responsáveis costumam rastrear a localização dos filhos, olhar mensagens e pedir senhas, sempre em nome da segurança.

A lição implícita, segundo o estudo, é que quem ama não tem nada a esconder. Anos depois, parceiros cobram os mesmos comportamentos como prova de devoção. Em nove dos dez países analisados, os especialistas observaram essa transferência.

Zandra Kanakaris, da organização sueca 1000 Möjligheter, é dura ao descrever o processo: “Os pais ensinam as crianças a serem controladas e acham que é assim que o amor se parece”. Contudo, como a espanhola Ana Bella, fundadora da Fundação Ana Bella, alerta “se uma menina de 11 anos acha que dar a senha do Instagram é prova de amor, ela está sendo treinada para aceitar a violência como estilo de vida”.

O estudo ressalva que não condena o monitoramento parental. Compartilhar localização pode ser cuidado legítimo quando há limites claros e consentimento. O problema é que o jovem nunca aprende a perceber quando os mesmos comportamentos, vindos de um parceiro, se tornam coercitivos.

Criados em um ambiente em que controle e cuidado se confundem, os jovens chegam ao relacionamento sem palavras para descrever o que sentem. Os especialistas chamam isso de “lacuna de linguagem”. Assim, em vez de “abuso”, eles falam em “ciúme”, “intensidade” ou “proteção”.

“Muitas vezes, os jovens sabem que algo está errado, mas não têm a linguagem para entender a gravidade da situação”, observa Maia Samuel, da ONG Women’s Aid, da Inglaterra.

“Por vezes, a linguagem da violência chega tarde”, complementa Bia Diniz, fundadora da Cruzando Histórias, no Brasil. Não à toa, é comum ouvir relatos de pessoas que achavam que seu companheiro era “só” ciumento.

Falta de apoio às vítimas

Mesmo quando o jovem reconhece o problema e procura ajuda, a resposta costuma ser insuficiente. Pais e professores recomendam “largar o celular”.

Segundo Samuel, o conselho erra o alvo: o aparelho não é o agressor, e desconectar-se isola ainda mais jovens para quem o celular é a ligação com amigos e escola. Na prática, culpa-se a vítima pelo espaço onde o abuso acontece.

A mesma lógica aparece nas instituições. Diniz relata o caso de uma jovem que foi a uma delegacia com capturas de tela de ameaças, registro de 50 ligações perdidas em uma só noite e provas de que era rastreada por um aplicativo que nunca autorizou. O policial perguntou se ela já havia tentado bloqueá-lo.

Os especialistas ainda apontam outros entraves jurídicos:

  • Idade. Na Inglaterra, a lei de violência doméstica só vale quando ambas as partes têm mais de 16 anos;
  • Leis sem uso. Na República Tcheca e na Indonésia, existem leis contra deepfakes e divulgação de imagens íntimas sem consentimento, mas elas quase não são aplicadas. Na Indonésia, vítimas ouvem perguntas como “Você tirou a foto original?”; e
  • Estereótipo. Ynaée Benaben, da ONG En Avant Toutes, da França, lembra que a violência doméstica ainda é imaginada como a de uma mulher de 35 a 40 anos, casada e com filhos. Uma jovem de 21 anos, controlada por mensagens e rastreamento, não se reconhece nessa imagem, e o sistema de Justiça muitas vezes também não.

Risco ampliado pela IA

Esse cenário de vítimas sem nome para o que vivem e sem amparo institucional ganha um agravante com a IA. Em seis dos dez países, os especialistas já a veem como instrumento de abuso, por meio de extorsão com deepfakes, chatbots que validam o comportamento controlador e uso de grandes modelos de linguagem para redigir mensagens de paquera, o que mina a autenticidade da comunicação.

“Os agressores sempre vão encontrar novas formas. Hoje é isso. Amanhã será outra coisa. Mas o comportamento por trás é o mesmo”, aponta Kanakaris. Por isso, o estudo defende que a prevenção se concentre no comportamento, não na plataforma.

9 sinais para reconhecer o controle digital

Para ajudar os jovens a darem nome ao que vivem, o estudo descreve nove sinais de alerta de violência entre parceiros.

  1. Ignorar: deixar mensagens sem resposta de propósito ou silenciar notificações como punição;
  2. Chantagear: ameaçar divulgar fotos, capturas de tela ou deepfakes para forçar obediência;
  3. Humilhar: publicar conteúdo constrangedor ou “avaliar” o parceiro em canais públicos;
  4. Manipular: usar frases como “se você me amasse, me daria sua senha”;
  5. Ciúme: interrogar o parceiro sobre curtidas, seguidores ou stories;
  6. Controlar: decidir quem o parceiro pode seguir ou o que pode postar;
  7. Intrusão: exigir senhas, vasculhar mensagens e rastrear a localização em tempo real;
  8. Isolar: obrigar o parceiro a apagar contas, bloquear amigos ou sair de grupos; e
  9. Intimidar: inundar de cobranças ou usar a confirmação de leitura para punir demora na resposta.

O estudo adverte que um comportamento isolado não define abuso. O que importa é o padrão, o momento e o contexto, como um silêncio imposto logo após uma discussão. Casais que combinam compartilhar localização por consentimento mútuo não estão, necessariamente, em uma relação abusiva.

Deu em Galileu
Ricardo Rosado de Holanda
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