Como o custo de vida corroeu um trunfo de Lula e virou motor da oposição - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Economia 26/09/2026 14:06

Como o custo de vida corroeu um trunfo de Lula e virou motor da oposição

Como o custo de vida corroeu um trunfo de Lula e virou motor da oposição

O IPCA (Índice de Preços no Consumidor) caiu de 0,07% em julho para uma deflação de 0,32% em agosto, a menor taxa para o mês desde 2022, enquanto o desemprego recuou para 5,3% no trimestre encerrado em julho, 0,3 ponto percentual abaixo de um ano antes, segundo o IBGE, e o rendimento médio real está em R$ 3.762, 3,3% acima do registrado no mesmo período de 2025.

Esses bons indicadores econômicos, usados pelo governo Lula (PT) como argumento para a reeleição, porém, não refletem na percepção da população.

Segundo pesquisa Quaest divulgada neste mês, 67% dos entrevistados disseram ter percebido aumento nos preços dos alimentos no mês anterior , enquanto apenas 9% afirmaram ter notado queda.

A distância entre os números da economia e a experiência cotidiana ajuda a explicar um dos principais problemas da campanha de Lula e que tem sido explorada pela oposição, especialmente Flávio Bolsonaro (PL), que concentra parte das suas propagandas na televisão no poder de compra das famílias e nos preços dos alimentos.

Em agosto, durante agenda em Alagoas, o candidato afirmou que os R$ 600 do Bolsa Família “enchiam o carrinho” durante o governo de Jair Bolsonaro, mas “agora não enchem mais”. Em outro evento, no Rio Grande do Sul, disse que seu compromisso seria “fazer com que a comida volte a ficar barata, como era na época do presidente Bolsonaro”.

O dilema vivido por Lula guarda paralelos diretos com o cenário enfrentado por Joe Biden nos Estados Unidos em 2024. Na ocasião, o democrata apresentava números de emprego históricos e queda na inflação, mas acabou tragado pela “inflação percebida” no cotidiano das famílias americanas, que não sentiam a recuperação no bolso.

“Existe uma percepção contagiante de mal-estar econômico ligado à alimentação que contamina até os eleitores que sabem que há números positivos na macroeconomia. Aconteceu exatamente isso com o próprio Biden nos Estados Unidos, e a oposição está sabendo explorar muito bem essa sensação”, avalia o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper.

A mesma mensagem aparece no plano de governo do filho de Jair, que dedica um capítulo ao tema com o título “Brasil Mais Barato — para sobrar dinheiro no fim do mês”

O documento afirma que o governo Lula tornou tudo mais caro e promete reduzir impostos sobre o consumo, os custos de transporte e a conta de luz, além de criar medidas para diminuir o preço dos alimentos e fazer acenos liberais no estilo do argentino Javier Milei.

Nas redes sociais, a campanha também levou a disputa para dentro dos supermercados, com vídeos de Flávio mostrando preços nas prateleiras e associando o custo da comida ao governo Lula.

O avanço de Flávio nas últimas pesquisas indica que a estratégia surtiu efeito, o que provocou respostas de Lula que passou a abordar preço de alimentos, renda e poder de compra em suas peças na televisão.

Para Consentino, a dificuldade do governo está justamente em transformar indicadores que melhoraram em uma percepção concreta para o eleitor.

“Por mais que você exiba indicadores macroeconômicos sólidos, não é isso que o brasileiro come no dia a dia. Você precisa transformar essa narrativa de indicadores econômicos positivos em ativos do ponto de vista socioeconômico para o dia a dia da população.”

Ao podcast Café da Manhã, da Folha de S. Paulo, a economista Monica de Bolle diferencia inflação e nível de preços e ajuda a explicar por que uma queda do IPCA não significa necessariamente que o consumidor tenha a sensação de que a vida ficou mais barata.

“Uma coisa é a gente falar que o preço da carne, do ovo e do leite está maior do que há dois anos. Outra coisa é falar que a inflação está mais alta que há dois anos. Mas, no final, o que fica mais evidente para o consumidor é isso que muitas das campanhas estão explorando.”

A contraofensiva do Planalto

Em setembro, Lula anunciou um reajuste de 15,04% no Bolsa Família , elevando o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro — anunciado a apenas 17 dias do primeiro turno. O anúncio veio depois de reuniões do presidente com mulheres que relataram dificuldades para manter o orçamento familiar diante da alta dos preços, especialmente dos alimentos.

Para Consentino, a proximidade da medida com a eleição contribui para que ela seja interpretada também sob uma perspectiva eleitoral. “O governo está anunciando muita coisa agora, muito próximo das eleições, e isso tende a ser visto como algo eleitoreiro — o que, por vezes, é eleitoreiro mesmo.

Reajustar o Bolsa Família faltando poucos dias para o primeiro turno guarda muita relação com a dinâmica do pleito. Em parte, o governo escancara esse tipo de percepção e, de novo, a oposição sabe explorar muito bem essa questão.”

A campanha de Lula também passou a responder diretamente à ofensiva de Flávio sobre os preços dos alimentos. Em 17 de setembro, o programa eleitoral do presidente levou o tema para a televisão e associou a alta do arroz e do feijão ao governo Jair Bolsonaro, reconhecendo também que a situação ainda não atinge o patamar ideal.

“Eu sei que ainda não está bom. Tem gente prometendo baixar o preço das coisas. Mas, quando eles tiveram a caneta na mão, o arroz e o feijão chegaram às alturas”, afirmou Lula, que citou medidas adotadas ou anunciadas pelo governo para aumentar o poder de compra, como a isenção de impostos sobre produtos da cesta básica, a ampliação do limite de faturamento do MEI, o reajuste do salário mínimo acima da inflação e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.

Monica de Bolle afirma que medidas como o reajuste do Bolsa Família podem produzir algum alívio no orçamento, mas o efeito eleitoral depende de quanto essas ações conseguem alterar a experiência concreta do eleitor até a votação.

No documento da campanha de Flávio que prevê redução de impostos sobre o consumo e medidas relacionadas aos preços de energia e combustíveis, além de propostas para diminuir custos de transporte, melhorar a logística e ampliar a capacidade de armazenamento de alimentos.

Para a economista, porém, as propostas de Flávio para o tema deixa questões econômicas sem resposta, já que não explica quais mudanças seriam feitas na área fiscal e quais tributos poderiam ser reduzidos.

“A estratégia de apontar pro governo Lula e falar que está tudo errado, que está tudo mais caro mas não dar detalhes, é problemática porque, no final das contas, o que Flávio diz para os seus eleitores o que vão fazer?”, questiona.

A economista também considera que a disputa ainda está concentrada em medidas de efeito mais imediato, sem que as duas campanhas tenham apresentado ao eleitor uma discussão mais detalhada sobre os próximos anos.

“O importante pras duas campanhas seria apresentar para o eleitorado uma perspectiva futura, para além do imediato. Sobre isso a gente não tem qualquer discussão.”

Deu em Global South World

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


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