— É muito difícil imaginar uma operação econômica que dá 20% de margem livre para pagar juros.
Brasil sempre conviveu com juros altos, por que agora tantas empresas estão entrando em recuperação judicial?
Eu acho que é meio paradoxal. De um lado é porque o instrumento (recuperação judicial) funcionou muito bem. Tínhamos um sistema de reestruturação de dívida na década de 1940, que era a antiga lei de falência, num modelo punitivista. Em 2005, o modelo mudou e, em 2020, ela sofreu uma alteração muito importante. Há distorções, mas o resultado que ela entrega é bom.
De outro lado, têm as razões macroeconômicas, dependendo do setor, que fazem com que as empresas não consigam sobreviver em determinados ambientes. Algumas são específicas de indústrias, outras são genéricas. Por exemplo, os juros. Se você imaginar o varejo, estou fazendo recuperações no varejo agora. Qual é a margem do varejo? 3%, 5%. Como esse comércio paga juros de 20%? Não paga. Se o dinheiro que ele tomou para pagar 14% virou 20%, a operação dele é deficitária. Não tem jeito, não tem matemática que resista a isso.
No caso do varejo, tem várias outras coisas. A pandemia acelerou a compra em todas as livrarias. Por que elas quebraram? Porque elas estavam alavancadas financeiramente e as pessoas passaram a comprar pela internet. Uma das coisas que afetou sensivelmente o varejo, além da internet, foi o tigrinho, as bets. A pessoa gastava R$ 1.000 em consumo de bens e serviços não essenciais, se você gasta R$ 500 na bet, são menos R$ 500 que você jogou para dentro do comércio.
Fiz agora uma recuperação no varejo de alimentos. Várias empresas quebraram e várias estão em recuperação. Mudou o perfil do consumo. Antes da pandemia, a entrega respondia por 1%, 2%, agora pode chegar a 50%. E tem o fenômeno da black kitchen, onde só tem a cozinha, não tem garçom, não tem louça, não paga luz, não paga nada. Isso afetou muito adversamente o consumo de alimentos preparados. Hoje, o Brasil ainda tem esse problema de macroestrutura, por que quem opera no setor produtivo e tem uma margem de resultado de 20%? É muito difícil imaginar uma operação econômica que dá 20% de margem livre para pagar juros.
Mas as empresas não estavam muito alavancadas? Não tem uma questão de gestão?
Óbvio que há casos de empresas que ingressam em recuperação porque houve fraude, roubo, porque são mal geridas. Mas quando você olha o perfil das empresas que estão entrando em recuperação agora, são empresas que estão há 50 anos no mercado dando lucro. E normalmente quando isso acontece, os credores preservam a atividade da empresa e trocam a gestão.
A tendência é que esses fundos de special situation cresçam, já que respondem a esse aumento das recuperações judiciais?
Quando a lei de recuperação judicial surgiu, isso era muito raro: ter gente especializada em colocar dinheiro novo em operação quebrada. Em 2020 veio uma legislação que deu alto grau de segurança jurídica para essa operação. Hoje, o Itaú tem um setor dentro dele para fazer isso.
Eu acho que é meio paradoxal. De um lado é porque o instrumento (recuperação judicial) funcionou muito bem. Tínhamos um sistema de reestruturação de dívida na década de 1940, que era a antiga lei de falência, num modelo punitivista. Em 2005, o modelo mudou e, em 2020, ela sofreu uma alteração muito importante. Há distorções, mas o resultado que ela entrega é bom.
De outro lado, têm as razões macroeconômicas, dependendo do setor, que fazem com que as empresas não consigam sobreviver em determinados ambientes. Algumas são específicas de indústrias, outras são genéricas. Por exemplo, os juros. Se você imaginar o varejo, estou fazendo recuperações no varejo agora. Qual é a margem do varejo? 3%, 5%. Como esse comércio paga juros de 20%? Não paga. Se o dinheiro que ele tomou para pagar 14% virou 20%, a operação dele é deficitária. Não tem jeito, não tem matemática que resista a isso.
No caso do varejo, tem várias outras coisas. A pandemia acelerou a compra em todas as livrarias. Por que elas quebraram? Porque elas estavam alavancadas financeiramente e as pessoas passaram a comprar pela internet. Uma das coisas que afetou sensivelmente o varejo, além da internet, foi o tigrinho, as bets. A pessoa gastava R$ 1.000 em consumo de bens e serviços não essenciais, se você gasta R$ 500 na bet, são menos R$ 500 que você jogou para dentro do comércio.
Fiz agora uma recuperação no varejo de alimentos. Várias empresas quebraram e várias estão em recuperação. Mudou o perfil do consumo. Antes da pandemia, a entrega respondia por 1%, 2%, agora pode chegar a 50%. E tem o fenômeno da black kitchen, onde só tem a cozinha, não tem garçom, não tem louça, não paga luz, não paga nada. Isso afetou muito adversamente o consumo de alimentos preparados. Hoje, o Brasil ainda tem esse problema de macroestrutura, por que quem opera no setor produtivo e tem uma margem de resultado de 20%? É muito difícil imaginar uma operação econômica que dá 20% de margem livre para pagar juros.
Mas as empresas não estavam muito alavancadas? Não tem uma questão de gestão?
Óbvio que há casos de empresas que ingressam em recuperação porque houve fraude, roubo, porque são mal geridas. Mas quando você olha o perfil das empresas que estão entrando em recuperação agora, são empresas que estão há 50 anos no mercado dando lucro. E normalmente quando isso acontece, os credores preservam a atividade da empresa e trocam a gestão.
Deu em O Globo

