Com 30% de inadimplência no Desenrola, governo estuda compra de dívidas antigas - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Crédito 20/09/2026 04:39

Com 30% de inadimplência no Desenrola, governo estuda compra de dívidas antigas

Com 30% de inadimplência no Desenrola, governo estuda compra de dívidas antigas

Do total de 5,54 milhões de dívidas renegociadas com o programa lançado em maio, 2,25 milhões originaram novos empréstimos — o restante foi pago à vista — com juros abaixo dos originais.

De todo o montante repactuado, 30,34% já estão inadimplentes este mês, de acordo com as informações do FGO. Em relação ao saldo da carteira, que abate as parcelas que já foram pagas, R$ 1,25 bilhão do total de R$ 3,3 bilhões não foi pago, ou 37,4%.

Em nota, o Ministério da Fazenda afirmou que, até o momento, nenhuma operação foi coberta pelo Fundo.

Em relação à inadimplência indicada pelos dados do FGO, a pasta disse que as informações estão sendo checadas junto às instituições financeiras participantes, porque o número divulgado pode estar abarcando também operações que foram canceladas. Isso ocorre quando a renegociação é feita, mas o cliente não paga a primeira parcela.

Operações do Desenrola — Foto: Criação O Globo
Operações do Desenrola — Foto: Criação O Globo

Só serão cobertas pelo FGO as operações efetivamente inadimplentes. No caso de cancelamento, a operação é desfeita, e a dívida antiga é mantida. De todo modo, quase um terço das novas operações não teve as parcelas pagas.

A ausência de pagamento dos novos empréstimos fechados no âmbito do Novo Desenrola é um sinal de alerta, sobretudo porque o programa tinha o objetivo de sanear o orçamento das famílias.

A iniciativa ajudou a reduzir o custo de dívidas antigas, mas os dados do FGO indicam que o espaço aberto na renda de parte da população atendida não foi suficiente para dar conta de todos os compromissos financeiros.

Nesta semana, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou, em entrevista ao Extra, que as duas versões do Desenrola foram bem-sucedidas, mas que vai apresentar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma nova iniciativa para combater o alto endividamento sem que as pessoas precisem fazer novas negociações.

Promessa de campanha?

A ideia é “comprar” dívidas das famílias da época da pandemia de Covid-19, com um deságio obtido por um leilão entre os credores. Na prática, o governo pagaria aos credores, mas ainda está em discussão como o mecanismo funcionaria, especialmente na ponta dos endividados.

No entanto, o governo ainda avalia, do ponto de vista jurídico, se poderá lançar essa outra versão do Desenrola em pleno período eleitoral. A dúvida é se seria aplicável a restrição das regras eleitorais que proíbem, em ano de eleição, a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios pela administração pública.

A ala que não vê empecilhos argumenta que a segunda versão do Desenrola já está em execução neste ano. Porém, a discussão atual colocaria uma nova forma de abordagem para o programa, na qual o governo — direta ou indiretamente, via uma estatal — compra a dívida das famílias com um deságio elevado, a ser dado pelos bancos credores.

Embora o martelo não tenha sido batido, o desenho que estava com a área técnica previa que a dívida fosse comprada pelo Tesouro e depois cancelada — ou seja, haveria um perdão do débito.

O objetivo é alcançar dívidas antigas (com prazos entre dois e cinco anos, majoritariamente feitas na pandemia), de baixo valor e com pouca perspectiva de recuperação.

Há cenários em que o deságio esperado ficaria entre 95% e 97%. Caso isso se confirme, no cenário mais otimista, a área econômica considera possível reduzir em 50% o estoque de dívidas e o número de pessoas inadimplentes.

Ao comprar a dívida, o governo poderia ficar como credor e colocar isso como ativo a receber em seu balanço. O cenário favorito, no entanto, era permitir a compra com imediato cancelamento do débito. Nos dois casos, há despesa primária na operação, ou seja, o movimento também depende da abertura de espaço orçamentário.

A intenção, segundo Durigan, é apresentar uma alternativa capaz de reduzir o estoque de dívidas antigas sem impacto elevado nas contas públicas.

Se a área jurídica der sinal positivo para que o programa se concretize no período eleitoral, restará outra decisão: lançar antes ou depois do primeiro turno. Caso os pareceres sejam contrários, porém, a lógica vai ser transformar a medida em promessa de campanha, a ser executada no próximo mandato, em caso de reeleição.

De qualquer forma, o governo está trabalhando em mais uma medida para tentar melhorar a sensação da população e recuperar parte dos pontos perdidos em aprovação de governo e intenção de voto.

R$ 28 bi negociados

O Desenrola 2.0 negociou um total de R$ 28,37 bilhões em dívidas das famílias brasileiras entre 5 de maio e 31 de agosto, segundo números do Ministério da Fazenda. Após os descontos, as dívidas caíram para R$ 5,71 bilhões. Essa conta considera tanto os compromissos pagos à vista, após aplicadas as deduções, quanto aqueles quitados com novo contrato de empréstimo.

Eram elegíveis ao Novo Desenrola pessoas que ganhavam até 5 salários mínimos (R$ 8.105), com parcelas vencidas de empréstimos de cheque especial, crédito pessoal sem garantia (CDC) ou fatura de cartão de crédito entre 90 dias e dois anos.

Só entraram no programa as dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026. Inicialmente, as renegociações ficariam abertas por 90 dias, mas foram prorrogadas até o fim de agosto.

Os descontos oferecidos variavam conforme a “idade da dívida”. Para cheque especial e rotativo do cartão, ficaram entre 40% e 90%. No CDC e no parcelado do cartão, entre 30% e 80%. O novo saldo podia ser pago à vista ou parcelado em até 48 meses, com taxa de até 1,99% ao mês.

Para bancar os descontos, os novos empréstimos resultantes das renegociações tinham garantia do FGO.

Na primeira edição do programa, lançada em 2023, foram renegociados R$ 53,07 bilhões em dívidas de cerca de 15 milhões de pessoas, sendo que R$ 25,57 bilhões são referentes ao público-alvo do programa (renda de até dois salários mínimos), cujas operações tinham garantia do FGO.

Deu em O Globo
Ricardo Rosado de Holanda
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Descrição Jornalista