A picanha não veio e Lula já promete a caneta emagrecedora pelo SUS - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Eleições 18/09/2026 11:15

A picanha não veio e Lula já promete a caneta emagrecedora pelo SUS

A picanha não veio e Lula já promete a caneta emagrecedora pelo SUS

A 17 dias do primeiro turno e empatado nas pesquisas, o presidente distribui promessas como quem distribui santinho — falta só entregar alguma coisa de verdade

Existe um padrão que se repete com a precisão de um relógio suíço na política brasileira: quando o mandatário sente o chão tremer sob seus pés, a cornucópia estatal se abre. Programas são anunciados, benefícios são reajustados, promessas são empilhadas uma sobre a outra com a urgência de quem sabe que o tempo está acabando.

não foge ao roteiro.

A 17 dias do primeiro turno, o presidente foi até o complexo industrial da Eurofarma, em Montes Claros (MG), para anunciar que a chamada caneta emagrecedora será oferecida gratuitamente pelo SUS a pacientes com obesidade. No mesmo dia — pura coincidência, naturalmente — o governo divulgou o reajuste do Bolsa Família, com novos valores previstos para outubro. Outubro, mês de eleição. Que conveniente.

A pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada nesta quinta-feira, 17 de setembro, explica a pressa. Flávio Bolsonaro (PL) aparece numericamente à frente de Lula num eventual segundo turno: 47,2% contra 46,8%. Empate técnico dentro da margem de erro de um ponto percentual, com 5.018 ouvidos entre 11 e 16 de setembro. Em outras palavras: a que parecia garantida virou uma moeda no ar.

A caneta que cura tudo — menos o desespero

Na visita à fábrica, Lula fez questão de dizer que a caneta emagrecedora será destinada apenas a pacientes com obesidade, mediante indicação médica, acompanhada de mudanças na e exercícios físicos.

“Essa canetinha vai ser utilizada para cuidar de graça das pessoas que tenham obesidade. Quando o médico detectar que um homem ou uma mulher tem problema de saúde”, afirmou.

O presidente ainda criticou a possibilidade de distribuição indiscriminada do medicamento: “Daqui a pouco vai ter deputado distribuindo canetinha para o povo. A caneta não é assim. Isso é irresponsabilidade.”

Curioso. Quem faz o anúncio com pompa e circunstância a menos de três semanas da eleição é o próprio presidente — mas irresponsável é o deputado que eventualmente distribuir. A autoironia involuntária de Lula é, de fato, imbatível.

Promessas de véspera: o cardápio que nunca chega à mesa

Vamos ao inventário. Num único dia, o eleitor brasileiro recebeu: a promessa de caneta emagrecedora gratuita pelo SUS e o reajuste do Bolsa Família com pagamento previsto para o mês da eleição. Tudo isso enquanto as pesquisas mostram empate técnico com o principal adversário.

Agora compare. O próprio STF já considerou inconstitucional o aumento do Bolsa Família às vésperas de eleições. Mas quem se importa com precedentes quando há votos em jogo?

A pergunta que ninguém faz é simples: onde estava essa urgência sanitária nos três anos anteriores? A obesidade é uma epidemia no Brasil há décadas.

O SUS já atende milhões de pacientes com doenças crônicas associadas ao excesso de peso. Se a caneta emagrecedora era tão importante, por que o anúncio não veio em 2024? Ou em 2025? Por que precisou esperar setembro de 2026, com as urnas a menos de vinte dias?

Porque a motivação nunca foi a saúde pública. É a saúde eleitoral.

O padrão que se repete

Lula governa como quem faz campanha permanente — e faz campanha como quem governa por decreto de generosidade alheia. O dinheiro é público, as promessas são pessoais, e a conta fica para o contribuinte. Sempre.

A caneta emagrecedora pelo SUS pode até ser uma boa política de saúde. Pode até fazer sentido clínico. Mas quando o anúncio coincide milimetricamente com pesquisas desfavoráveis, reajuste de benefícios sociais e a proximidade do primeiro turno, é impossível não enxergar o que está diante dos olhos: um presidente encurralado nas pesquisas, distribuindo promessas como quem joga confete num comício.

A nunca veio. O povo ainda espera. Mas a caneta, essa sim, apareceu — bem a tempo de pedir voto.

Resta saber se o eleitor vai engolir mais uma promessa de véspera ou se, desta vez, vai cobrar a conta de tudo que foi prometido e jamais entregue. Porque promessa de campanha tem prazo de validade — e o de Lula já venceu faz tempo.

Deu em ContraFatos
Ricardo Rosado de Holanda
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