Homem encontra no seu jardim maior tesouro de prata da Era Viking, com mais de 18 kg - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Curiosidades 12/09/2026 20:57

Homem encontra no seu jardim maior tesouro de prata da Era Viking, com mais de 18 kg

Homem encontra no seu jardim maior tesouro de prata da Era Viking, com mais de 18 kg

Entre os objetos estão barras de prata, pulseiras, 47 moedas inteiras e fragmentos de moedas, um pequeno martelo associado ao deus Thor e outras peças de prata.

Cerca de 320 objetos ainda estavam dentro do vaso de barro em que foram enterrados e o restante foi localizado no solo ao redor.

“Deveria ter sido apenas algumas horas de trabalho árduo de jardinagem, removendo grama teimosa, pedras e cascalho para um novo terraço de azulejos, mas acabou sendo a maior surpresa da minha vida”, afirmou o jardineiro, que preferiu permanecer anônimo, em comunicado.

O tesouro inclui pulseiras e correntes — Foto: Museus do Norte da Jutlândia
O tesouro contém moedas árabes e anglo-saxônicas, e testemunha estreitas ligações com a Europa e regiões muito a leste durante a Era Viking — Foto: Museus do Norte da Jutlândia

Descoberta ao acaso

O homem contou que percebeu algo estranho cerca de meia hora depois de começar a cavar. “Minha mão bateu em algo que fazia um barulho estranho.

A princípio, pensei que fosse ferro-velho ou arame de cerca e alguns cacos de cerâmica, mas quando comecei a cavar com as mãos, de repente consegui retirar um objeto de metal após o outro do chão.

Depois de um breve período de trabalho cuidadoso, percebi que eram joias, moedas e barras de prata”, relatou.

“Este é um tesouro de prata da Era Viking excepcionalmente importante”, afirma Torben Sarauw, arqueólogo e responsável pelo patrimônio cultural dos Museus do Norte da Jutlândia, em entrevista ao The Art Newspaper.

“Ele oferece uma visão rara da economia da prata na Era Viking, onde a prata funcionava não apenas como moeda, mas, na forma de lingote, era usado para comércio, pagamentos e reserva de valor.”

O termo “lingote” se refere a um bloco de metal produzido para ser armazenado, transportado, pesado ou transformado novamente. No caso dos vikings, a prata não precisava estar necessariamente na forma de uma moeda para ter valor.

Cofre viking

Uma das características que mais chamaram a atenção dos especialistas é a grande quantidade de barras, fragmentos de prata e peças quebradas agrupadas de acordo com seu peso. Isso indica que o material provavelmente não foi reunido de maneira aleatória.

“Ao analisarmos o peso dos objetos de prata, o tesouro revela informações sobre as práticas econômicas da Era Viking. O tesouro não consiste apenas em objetos bonitos. A maioria deles faz parte de um sistema de valor estruturado por peso”, observa Sarauw no comunicado.

Na prática, isso significa que um pedaço de prata podia valer mais ou menos de acordo com quanto pesava e com a pureza do metal. Por essa razão, barras, joias e outros objetos podiam ser cortados em partes menores, divididos ou derretidos para que a quantidade necessária fosse utilizada em uma transação.

Sarauw comparou o achado a um “cofre da Era Viking”. A analogia ajuda a explicar por que o conjunto é tão importante: ele preserva não apenas objetos, mas um registro de como a riqueza podia ser armazenada e organizada há cerca de mil anos.

Contato com outras regiões

O tesouro também ajuda a reconstruir a dimensão das conexões comerciais da Dinamarca medieval. Entre as peças há moedas de origem anglo-saxônica e árabe.

Duas delas são pennies de prata cunhadas durante o reinado de Eduardo, o Velho, que governou a Inglaterra entre 899 e 924. Como essas moedas só poderiam ter chegado ao local depois de entrarem em circulação, elas ajudam os arqueólogos a estabelecerem uma data mínima para o enterramento do tesouro.

Uma das barras de prata do tesouro possui runas gravadas. Possivelmente está escrito "hutu" e pode ser um nome, a marca de um proprietário ou alguma outra marcação significativa — Foto: Museus do Norte da Jutlândia
Uma das barras de prata do tesouro possui runas gravadas. Possivelmente está escrito “hutu” e pode ser um nome, a marca de um proprietário ou alguma outra marcação significativa — Foto: Museus do Norte da Jutlândia

Também foram encontrados dirhams, moedas de prata do mundo islâmico. Muitas trazem inscrições em árabe que podem indicar o local e o período em que foram cunhadas. Algumas aparecem fragmentadas, algo compatível com o uso da prata pelo peso.

“É isso que torna a descoberta fascinante. A prata estava escondida em Rebild, mas aponta para um mundo muito maior. As moedas revelam que havia conexões com o mundo islâmico a leste e com a Inglaterra a oeste, bem como uma Era Viking em que pessoas, mercadorias e valores circulavam por enormes distâncias”, destaca Sarauw, no comunicado.

Segundo o arqueólogo, o achado foi enterrado em um período de grandes transformações na Dinamarca, marcado pela formação do reino dinamarquês e pela expansão do cristianismo na Escandinávia. Para ele, o tesouro pode ajudar a entender tanto as relações econômicas quanto as mudanças políticas e religiosas daquele momento.

Perguntas sem respostas

Entre os objetos mais intrigantes está uma barra de prata com uma inscrição feita em runas, sistema de escrita utilizado por povos germânicos e escandinavos. A marca pode ser lida como “hutu”.

Os pesquisadores ainda não sabem exatamente o que a inscrição significa. Ela pode corresponder a um nome, indicar o proprietário da peça ou representar algum outro tipo de identificação. Por enquanto, a interpretação permanece em aberto.

Além disso, a equipe ainda tenta responder por que o tesouro foi enterrado. O terreno onde o material foi encontrado está hoje em uma área urbanizada, o que limita a realização de uma investigação arqueológica ampla.

Não se sabe, por exemplo, se o tesouro foi escondido perto de uma antiga comunidade viking, junto a uma estrada ou em um local escolhido justamente por ser discreto e seguro. A ausência de uma escavação arqueológica extensa também dificulta a reconstrução do contexto original do depósito.

Região já havia revelado outros tesouros

A descoberta de Rebild não é um caso isolado. Em 1971, também na região, foi encontrado outro grande depósito de prata, conhecido como Rebildskat. Datado do século 10, ele continha cerca de quatro quilos de prata, entre barras, joias quebradas e pequenos fragmentos, que haviam sido embrulhados em uma pele.

Mais recentemente, na primavera de 2026, foi descoberto nas proximidades o chamado Tesouro de Rold, formado por seis pulseiras de ouro intactas da Era Viking, com peso total de 762,5 gramas.

O tesouro contém moedas árabes e anglo-saxônicas, e testemunha estreitas ligações com a Europa e regiões muito a leste durante a Era Viking — Foto: Museus do Norte da Jutlândia
O tesouro contém moedas árabes e anglo-saxônicas, e testemunha estreitas ligações com a Europa e regiões muito a leste durante a Era Viking — Foto: Museus do Norte da Jutlândia

Os dois tipos de achado ajudam a revelar aspectos diferentes daquela sociedade. Enquanto o tesouro de Rebild mostra principalmente como a prata podia funcionar como riqueza medida pelo peso, o conjunto de ouro de Rold está mais associado a status, poder e às elites.

“Estamos diante de uma região que, repetidamente, revela descobertas espetaculares da Era Viking. O novo tesouro de prata demonstra que a área de Rebild não era periférica, mas sim parte das amplas conexões econômicas e culturais que ligavam a Escandinávia às regiões ao redor do Mar Báltico e ao mundo islâmico a leste, bem como à região do Mar do Norte, à Inglaterra e à Europa Ocidental a oeste”, lembra Sarauw.

Destino será decidido após avaliação

tesouro agora passa por avaliação do Museu Nacional da Dinamarca. De acordo com as autoridades locais, os Museus do Norte da Jutlândia trabalham com a expectativa de, no futuro, apresentar o conjunto no Museu Viking de Fyrkat, associado à famosa fortaleza circular ligada ao rei Harald Bluetooth – aquele, cujo nome inspirou a tecnologia de transferência de dados sem fio.

Antes disso, no entanto, será necessário definir as condições de segurança e conservação das peças. “Quando se trata de objetos únicos e muito valiosos como estes, normalmente existem exigências elevadas em termos de segurança, vigilância, alarmes, vitrines e manuseio geral dos objetos”, explica Sarauw.

Na Dinamarca, quando uma descoberta é oficialmente declarada tesouro nacional, ela passa a pertencer ao Estado, e o Museu Nacional é responsável por estabelecer os requisitos para eventual exposição.

“Antes de sabermos se podemos exibir as descobertas em Fyrkat, é preciso esclarecer quais são os requisitos necessários e se eles podem ser atendidos”, conclui o arqueólogo.

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


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