Por que ouvir do médico que seu problema “é normal” pode fazer mal pra você - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Medicina 11/08/2026 11:38

Por que ouvir do médico que seu problema “é normal” pode fazer mal pra você

Por que ouvir do médico que seu problema “é normal” pode fazer mal pra você

A pesquisa reuniu 14 experimentos, envolvendo membros do público e profissionais de saúde, com 9.371 participantes e avaliou situações envolvendo diferentes condições de saúde, como menopausa, enxaqueca, dor de dente, alergias sazonais e níveis elevados de glicose no sangue.

Os resultados revelaram uma diferença importante entre o que profissionais de saúde pretendem comunicar e o que pacientes efetivamente entendem.

“Os profissionais de saúde esperavam que a normalização dos sintomas de um paciente aumentaria a probabilidade de sucesso do tratamento ou, na pior das hipóteses, não teria impacto algum, mas os pacientes reagiram exatamente ao contrário”, afirma Seyi Lawal, autora do estudo e estudante de doutorado na Universidade da Califórnia, em comunicado.

Uma palavra, duas interpretações

A inspiração para a pesquisa surgiu do interesse de Lawal pela comunicação sobre a menopausa. Algumas pacientes relatam sentir-se desconsideradas quando ouvem que sintomas incômodos são simplesmente uma parte “normal” do envelhecimento.

A partir dessa experiência, os pesquisadores se perguntaram se médicos e pacientes poderiam estar atribuindo significados diferentes à mesma palavra. Para investigar a questão, os participantes receberam diferentes cenários médicos nos quais um profissional descrevia determinados sintomas como “normais” ou não.

Depois, os pesquisadores avaliaram a disposição das pessoas em procurar tratamento e compararam as respostas com aquilo que profissionais de saúde esperavam que os pacientes fizessem.

O padrão se repetiu em diferentes situações: quando ouviam que um sintoma era normal, os participantes se mostravam menos propensos a buscar tratamento.

A diferença pode estar justamente no significado atribuído à palavra. Para um profissional, “normal” pode ser uma descrição estatística, algo que ocorre com frequência em determinada população. Para um paciente, a palavra pode soar como uma avaliação sobre o que é aceitável ou sobre o que deve ser feito.

Os médicos parecem usar "normal" para se referir a algo comum e bem compreendido. Os pacientes, por sua vez, frequentemente interpretam como aceitável — Foto: Freepik
Os médicos parecem usar “normal” para se referir a algo comum e bem compreendido. Os pacientes, por sua vez, frequentemente interpretam como aceitável — Foto: Freepik

A descoberta ajuda a explicar por que algumas pessoas podem sair de uma consulta com a sensação de que suas queixas foram minimizadas. Apesar do profissional não ter essa intenção.

Esse fenômeno ocorre em meio a discussões sobre experiências de pacientes que se sentem desacreditados ou desconsiderados durante atendimentos médicos, algumas vezes descritas como “gaslighting médico”. O estudo não afirma que toda experiência desse tipo seja causada por problemas de linguagem, mas aponta uma possível falha de comunicação que pode contribuir para esse sentimento.

“Os médicos geralmente têm um objetivo nobre. Eles querem aliviar a ansiedade, mas de alguma forma isso acaba tendo o efeito contrário”, diz On Amir, autor sênior do estudo, professor de marketing e titular da Cátedra Presidencial Wolfe Family em Inovação e Empreendedorismo em Ciências da Vida na Universidade da Califórnia.

“Os médicos não devem parar de tranquilizar os pacientes. Mas eles devem deixar suas intenções inequívocas”.

Como evitar a interpretação equivocada

Os pesquisadores também testaram maneiras de reduzir essa falha de comunicação. Uma delas consistia em combinar a normalização do sintoma com uma recomendação explícita de tratamento. Outra era explicar que a palavra “normal” estava sendo utilizada em um sentido estatístico, e não como sinônimo de algo aceitável ou que não exige cuidados.

As duas estratégias ajudaram a diminuir a diferença entre a intenção do profissional e a interpretação do paciente. A descoberta também traz uma recomendação para quem está do outro lado da consulta.

“Ouvir que os sintomas são ‘normais’ não deve ser interpretado como se fossem menos graves”, explica Brianna Chew, coautora do estudo e também doutoranda na Universidade da Califórnia.

Por isso, quando houver dúvida, uma pergunta simples pode evitar o mal-entendido: “Quando você diz que isso é normal, quer dizer que é comum ou que não precisa de tratamento?”

A diferença entre essas duas interpretações pode parecer pequena, mas, segundo o estudo, pode mudar a decisão de um paciente sobre procurar ou não cuidados de saúde. Afinal, um sintoma pode ser comum e ainda assim merecer atenção médica.

Deu em Galileu
Ricardo Rosado de Holanda
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