Crime organizado 03/08/2026 08:34
Como o PCC expandiu sua atuação pelo Brasil e exterior

O Primeiro Comando da Capital (PCC) surgiu no dia 13 de agosto de 1993, quando oito prisioneiros fundaram a facção na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, no Vale do Paraíba. Hoje, a facção é apontada como uma das maiores organizações criminosas do país.
O PCC atua principalmente em São Paulo, mas já estendeu suas operações por todo o Brasil, inclusive para outros países da América do Sul, como Paraguai e Bolívia. Em 2024, autoridades apontaram que a organização movimentou mais de R$ 6 bilhões.
A expansão nacional da organização criminosa ocorreu não apenas nas grandes metrópoles, mas também em cidades de médio e pequeno porte, em áreas rurais, nos presídios e em praticamente todas as regiões do país. Um dos principais fatores para esse avanço foi o sistema penitenciário paulista.
A transferência de lideranças da facção para presídios federais e unidades prisionais no interior do Brasil contribuiu para espalhar integrantes e criar novas bases de comando fora de São Paulo.
Jovens operadores que ocupam os níveis mais baixos dos mercados ilegais passaram a desempenhar um papel importante na expansão das facções criminosas. Ao circularem entre diferentes presídios, bairros periféricos e comunidades, eles se tornaram responsáveis por disseminar a “palavra” e os códigos dessas organizações.
Um exemplo dessa estrutura foi revelado por um documento apreendido em uma penitenciária de São Paulo, em 2024. Segundo as investigações, o Primeiro Comando da Capital (PCC) mantém uma cartilha com 45 regras que orientam a conduta de seus integrantes dentro e fora do sistema prisional.
Intitulado “Cartilha do Crime”, o documento tem sete páginas e reúne normas sobre comportamentos considerados inadequados pela facção, além das punições previstas para cada infração. As sanções variam desde medidas disciplinares internas até a exclusão da organização.
Clique aqui e confira a cartilha completa.
As redes das facções, formadas a partir da constante circulação de integrantes entre os presídios e as periferias, rapidamente ultrapassaram os limites da cidade de São Paulo e se espalharam por todo o país.
Com o tempo, alguns desses integrantes conseguiram crescer dentro da facção e passaram a ocupar cargos de liderança. Nessas posições, assumiram funções estratégicas e passaram a coordenar atividades criminosas em diferentes regiões do país.
Essa ascensão levou muitos deles a atuar em locais importantes para o crime organizado, como regiões de fronteira, portos e aeroportos. Esses pontos são considerados estratégicos porque concentram grande parte da entrada, saída e circulação de drogas, armas, dinheiro e outras mercadorias ilegais.

A expansão da facção também mudou a forma como os mercados ilegais funcionam no Brasil. Além de controlar atividades criminosas, essas organizações passaram a exercer influência em diferentes setores e, em alguns casos, mantêm relações com pessoas ligadas ao poder público e ao setor empresarial.
Atualmente, traficantes de drogas, armas e veículos roubados, além de contrabandistas e estelionatários, costumam atuar dentro das mesmas redes criminosas. Essa integração permite que o PCC participe de diversas atividades ilegais, como o garimpo, a extração ilegal de madeira e a cobrança por serviços de “proteção” em áreas sob influência da facção.
Além disso, as investigações apontam que a organização também busca infiltrar recursos em atividades legais. Entre os setores que podem ser usados para lavar dinheiro ou ocultar patrimônio estão empresas de transporte, eventos culturais, hotéis, mercado imobiliário, clubes e competições esportivas, comércio de veículos e até operações financeiras de alcance internacional.
Em entrevista ao iG, a desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), Ivana David afirma que a infiltração de organizações criminosas na economia legal ocorre por meio da fusão entre capital ilícito e estruturas empresariais legítimas.
“Dessa forma, o crime organizado amplia seu poder econômico e político ao ocultar a origem do dinheiro e diversificar suas fontes de renda. Na lavagem de dinheiro, por exemplo, a infiltração começa com empresas de fachada e negócios que existem apenas no papel para movimentar recursos provenientes do tráfico de drogas. Também há a compra de estacionamentos, veículos de alto valor, bares e hotéis para misturar dinheiro lícito e ilícito.”Desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), Ivana David
Ainda segundo a desembargadora, o crime organizado também se infiltra em outros setores da economia.
“A infiltração também ocorre em contratos de serviços essenciais, como transporte público, coleta de lixo e saúde. Além disso, o crime organizado invade o setor imobiliário, adquirindo terrenos, prédios e incorporadoras para valorizar o capital de forma legal. Outro ramo altamente lucrativo é o de combustíveis, como demonstrou uma operação recente em São Paulo, com o controle de postos de gasolina e distribuidoras para adulterar produtos e fraudar impostos.”Desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), Ivana David
Segundo a desembargadora Ivana David, estimativas do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), e de forças de segurança apontam que o PCC possui atualmente entre 40 mil e 42 mil integrantes batizados no Brasil e no exterior.
Ivana David afirma que a facção tem presença consolidada em 25 unidades da federação, com base em dados obtidos pelo Ministério Público e cruzados em investigações criminais. No entanto, ressalta que “esse número pode variar de acordo com a fonte consultada”.
Ainda segundo a desembargadora, relatórios de inteligência internacional e o próprio Ministério Público indicam que, além do contingente nacional, a organização conta com mais de 2 mil integrantes atuando formalmente em pelo menos 28 países.
Questionada sobre os principais desafios no combate ao crime organizado, Ivana afirmou que o enfrentamento às facções ainda esbarra em desafios estruturais.
“Os maiores desafios passam pela descentralização financeira, já que a lavagem de dinheiro utiliza pequenos comércios locais e criptoativos, o que dificulta o rastreamento em tempo real. Também é preciso enfrentar a corrupção sistêmica, com a infiltração em órgãos públicos e licitações municipais, além de interromper a comunicação entre integrantes do crime organizado dentro e fora dos presídios. Outro ponto é a ausência do Estado em áreas dominadas pelas facções, onde o poder público acaba sendo substituído e cria uma relação de dependência da população local.”Desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), Ivana David
Para enviar cargas ilícitas ao exterior, o PCC precisou assumir o controle das rotas de escoamento a partir de países produtores da América do Sul. Para isso, passou a utilizar por muitos anos o Porto de Santos e rotas que atravessam Bolívia, Paraguai e Argentina para enviar drogas à Europa e à África.
No exterior, a facção também estabeleceu parcerias logísticas com cartéis e grupos criminosos locais, como o Trem de Aragua, organização criminosa transnacional originária do sistema prisional do estado de Aragua, na Venezuela e considerada uma das maiores da América Latina. Essa articulação facilita a recepção, o armazenamento e a distribuição dos entorpecentes nos países de destino.

O grupo passou a usar países com menor fiscalização, como o Uruguai, e nações europeias, como Portugal, como pontos de apoio para armazenar, transportar e distribuir drogas, além de dar suporte aos integrantes da facção.
Em entrevista ao iG, o subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, Christian Vianna de Azevedo, afirmou que a primeira expansão internacional do PCC ocorreu em direção aos países fornecedores de cocaína: Bolívia, Peru e Colômbia.
“Ele queria baratear a compra. Antes, comprava de intermediários. Então, quando expandiu, há cerca de 10 anos, para a fronteira com o Paraguai, na região de Mato Grosso do Sul, ocorreu a morte de Jorge Rafaat, empresário e traficante conhecido como o ‘Rei da Fronteira’. Depois, avançou para as fronteiras com o Peru, a Colômbia e a Venezuela. Com isso, conseguiu comprar cocaína mais barata, com acesso direto aos fornecedores.”Subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, Christian Vianna de Azevedo
Ainda segundo Christian Vianna, a expansão seguinte ocorreu de forma gradativa e ganhou força na Europa nos últimos anos.
“Hoje, a Europa é o continente que mais consome cocaína. O PCC mantém parcerias antigas com a máfia italiana, a albanesa e outros grupos criminosos, atuando como intermediador do tráfico. A facção recebe um percentual sobre a droga enviada por portos, veleiros, barcos pesqueiros e aviões. Na Europa, essas organizações ficam responsáveis pela distribuição.”Subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, Christian Vianna de Azevedo
Na Europa, segundo Christian, as principais portas de entrada do PCC foram Portugal e Espanha.
“Hoje, há dezenas de integrantes da facção em Portugal, quase uma centena. Na Espanha, a situação não é diferente, e o PCC também está presente em outros países europeus, como a França. A organização ainda atua na Guiana Francesa, o que impacta o território francês, e utiliza a Europa e a África Ocidental para lavar dinheiro. Além disso, a presença na África Ocidental serviu como um entreposto estratégico para ampliar a atuação da facção além do Brasil.”Subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, Christian Vianna de Azevedo
Ainda de acordo com o subsecretário, a cocaína foi o principal produto do PCC durante muitos anos e desempenhou um papel fundamental na expansão internacional da facção. Segundo ele, a organização percebeu que a exportação da droga poderia gerar lucros muito superiores aos obtidos no mercado brasileiro.
“A cocaína é uma commodity, ainda que ilícita, sujeita às regras de oferta e demanda. Como só Colômbia, Peru e Bolívia produzem a droga, o PCC percebeu que exportá-la renderia um lucro muito maior.”Subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, Christian Vianna de Azevedo
Christian Vianna explica que a infraestrutura logística brasileira foi determinante para essa estratégia. Portos, rodovias e aeroportos passaram a ser utilizados como corredores para o envio da droga ao exterior.
“O Brasil é um excelente corredor de exportação. O PCC começou a penetrar essa infraestrutura para usá-la como rota de exportação. Hoje, o país é considerado o principal corredor de trânsito da cocaína no mundo.”Subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, Christian Vianna de Azevedo
Segundo ele, os países considerados estratégicos para a facção vão além dos produtores de cocaína. Nações de trânsito e regiões utilizadas como entrepostos também fazem parte da estrutura criminosa.

“Além de Colômbia, Peru e Bolívia, o PCC tem operadores em países como Paraguai e Venezuela. Já a África Ocidental funciona como entreposto para o envio de cocaína à Europa, ao Oriente Médio e a outros mercados.”Subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, Christian Vianna de Azevedo
O subsecretário ainda afirma que os futuros corredores bioceânicos também deverão ser explorados pelo crime organizado.
“Esses corredores vão facilitar a logística de exportação e poderão ser utilizados para abastecer mercados em expansão no Pacífico, como China, Austrália e Nova Zelândia.”Subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, Christian Vianna de Azevedo
Além da cocaína, Christian afirma que o PCC também lucra com o comércio ilegal de armas. Segundo ele, a facção recebe armamentos como forma de pagamento em negociações com organizações criminosas internacionais.
“A cocaína é o principal produto que o PCC exporta. Mas a facção também movimenta fuzis e outras armas. Em uma operação da Europol, em 2023, foi descoberto que a máfia italiana ‘Ndrangheta’ pagou carregamentos de cocaína com centenas de fuzis vindos do Paquistão.”Subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, Christian Vianna de Azevedo
Segundo o subsecretário, o fluxo das armas ocorre no sentido inverso ao da droga: enquanto a cocaína sai do Brasil, os armamentos entram no país. Ele também afirma que a lavagem de dinheiro é uma atividade internacional da organização.
“As armas vêm de fora para dentro. Já a lavagem de dinheiro ocorre não só no Brasil, mas também em países vizinhos, na África Ocidental, na Europa e no Oriente Médio, inclusive por meio de criptoativos que passam por carteiras em Dubai.”Subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, Christian Vianna de Azevedo
Para Christian, o principal desafio no enfrentamento ao PCC é ampliar a cooperação entre os países.
“O maior problema é a falta de uma integração, cooperação e colaboração mais efetivas. Não adianta combater o PCC apenas no Brasil se a facção já possui estruturas montadas em outros países. É preciso enfrentá-la também no exterior.”Subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais, Christian Vianna de Azevedo

Descrição Jornalista
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