Arqueologia 11/05/2026 16:08
Arqueólogos descobrem pedras de 80 toneladas sob o mar, que se acredita serem restos de uma das sete maravilhas do mundo antigo
Mais de 1.600 anos após desaparecer das descrições históricas, o Farol de Alexandria volta a se materializar, desta vez nas profundezas do Mediterrâneo.
Arqueólogos do Projeto PHAROS acabam de recuperar 22 blocos monumentais de pedra do fundo do mar, peças que teriam integrado a entrada de uma das estruturas mais impressionantes já construídas pela humanidade.
Os blocos recuperados incluem lintéis, ombreiras, soleiras e lajes de pavimento. Cada peça pesa entre 70 e 80 toneladas, o que já dá a dimensão do que foi o Farol de Alexandria em seu auge. A equipe liderada por Isabelle Hairy, do CNRS, avalia que esses elementos faziam parte da entrada monumental da estrutura, uma região arquitetônica onde influências egípcias e gregas se combinavam de forma única.
A presença de ruínas submarinas nessa área de Alexandria era conhecida desde 1968, quando foram avistadas pela primeira vez. O salto mais significativo até então ocorreu em 1994, quando o arqueólogo Jean-Yves Empereur coordenou uma campanha que identificou e catalogou mais de 3.300 objetos espalhados pelo leito marinho.
Entre eles estavam esfinges, obeliscos, colunas e blocos de granito, todos ligados ao farol e às estruturas ao seu redor. A operação mais recente representa o passo seguinte: não apenas mapear, mas extrair e analisar as peças mais expressivas do sítio.
Recuperar os blocos é apenas o começo. Cada peça extraída passa por um processo de escaneamento com fotogrametria de alta precisão, que gera modelos digitais detalhados.
A Fundação Dassault Systèmes, parceira do projeto, informa que o objetivo é incorporar essas novas peças a uma coleção de mais de cem blocos já digitalizados durante a última década de pesquisas submarinas.
Com esses modelos em mãos, os pesquisadores trabalham como se estivessem montando um quebra-cabeça em escala monumental.
Cada bloco é analisado em relação aos demais e cotejado com descrições e representações antigas do farol, numa tentativa de produzir uma reconstrução coerente e fiel da estrutura como ela era quando ainda estava de pé.
O Farol de Alexandria foi erguido no início do século III a.C., durante o reinado de Ptolomeu I Soter, e seu projeto é atribuído a Sóstrato de Cnido. Localizado na ilha de Faros, na costa da cidade que leva o nome de Alexandre Magno, o farol atingia mais de 100 metros de altura, tornando-se uma das maiores construções feitas por seres humanos até então.
O Farol de Alexandria é uma das poucas Sete Maravilhas do Mundo Antigo sobre a qual existem registros históricos razoavelmente detalhados, mas nenhuma estrutura visível sobrou acima d’água. Isso tornava qualquer avanço na compreensão da sua forma arquitetônica dependente de fontes escritas e representações indiretas. Os blocos agora recuperados e digitalizados mudam essa equação, oferecendo evidência física concreta para a reconstituição virtual que o Projeto PHAROS está construindo.
A reconstrução virtual do Farol de Alexandria não é apenas um exercício estético.
Cada bloco reposicionado no modelo digital ajuda a responder perguntas que os historiadores discutem há séculos: qual era a proporção exata das três seções da torre, como a entrada monumental estava disposta, de que forma os estilos arquitetônicos egípcio e grego se articulavam no mesmo edifício.
As pedras de 80 toneladas que ficaram no fundo do Mediterrâneo por mais de 16 séculos carregam essas respostas gravadas na sua geometria.
À medida que mais blocos são escaneados e incorporados ao modelo, a silhueta do Farol de Alexandria vai ganhando definição. O que começou como ruínas dispersas no leito marinho se transforma, peça por peça, numa das reconstruções arqueológicas mais ambiciosas já tentadas, devolvendo ao mundo uma estrutura que moldou a engenharia, a navegação e o imaginário coletivo da Antiguidade por mais de mil anos.
Deu em Catraca Livre

Descrição Jornalista
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