Saúde 04/02/2026 12:17
Brasil bate recorde com mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025: vendedores, faxineiros e auxiliares lideram lista entre 2 mil profissões analisadas

O Brasil concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária associados a transtornos mentais e comportamentais em 2025, o maior volume já registrado na série recente do Ministério da Previdência Social.
O número representa aumento de 15,66% em relação a 2024, quando foram concedidos 472.328 benefícios, consolidando o segundo recorde anual consecutivo.
Entre as ocupações com maior número de afastamentos aparecem funções amplamente presentes no cotidiano das cidades.
Estão nesse grupo vendedor do comércio varejista, faxineiro, auxiliar de escritório, assistente administrativo e alimentador de linha de produção.
O levantamento considera mais de duas mil ocupações profissionais e tem como base registros do Instituto Nacional do Seguro Social.
A classificação foi elaborada a partir de uma lista de profissões construída pela Organização Internacional do Trabalho em parceria com o Ministério Público do Trabalho.
Os dados consolidados abrangem o período entre 2012 e 2024. O recorte inclui afastamentos relacionados ou não a acidentes de trabalho.
Já os números de 2025 refletem o total de benefícios concedidos ao longo do ano.
A presença recorrente dessas funções no topo do ranking reflete características comuns apontadas em análises de órgãos públicos e especialistas da área trabalhista.
De forma geral, tratam-se de atividades com alta rotatividade, menor estabilidade contratual e forte pressão por produtividade.
Esses fatores são frequentemente associados a maior desgaste psicológico.
No comércio varejista, estudos sobre saúde do trabalhador citam remuneração variável vinculada a metas e contato constante com o público como elementos de risco.
Em serviços de limpeza e apoio, aparecem com frequência jornadas extensas e pouca autonomia na organização das tarefas.
Já em áreas administrativas, avaliações técnicas mencionam acúmulo de demandas e controle rigoroso de prazos.
Segundo o procurador do Ministério Público do Trabalho Raymundo Lima Ribeiro Júnior, investigações conduzidas pelo órgão indicam que a combinação entre vínculos precários e sobrecarga contribui para o aumento do adoecimento mental.
De acordo com ele, há casos em que empresas controlam de forma detalhada o tempo de pausas, inclusive para necessidades básicas.
Essa prática, segundo o procurador, pode intensificar o estresse ocupacional.
A auditora fiscal do trabalho Odete Cristina Pereira Reis, coordenadora nacional de Fiscalização em Riscos Psicossociais, avalia que o ranking evidencia um padrão estrutural do mercado de trabalho.
Na análise da auditora, baixos salários e reduzida autonomia funcional limitam a capacidade de decisão dos trabalhadores.
Esse cenário tende a elevar os níveis de tensão e dificultar trajetórias de desenvolvimento profissional.
Os transtornos ansiosos lideraram as causas de afastamento por saúde mental em 2025.
Ao longo do ano, foram concedidos 166.489 benefícios por esse motivo.
Na sequência, aparecem os episódios depressivos, responsáveis por 126.608 licenças.
Os dados constam nos registros administrativos da Previdência Social.
Outros diagnósticos também figuram entre os mais frequentes.
Entre eles estão transtorno bipolar, estresse grave, esquizofrenia, dependência química e alcoolismo.
Todos apresentaram crescimento em relação ao ano anterior, segundo as estatísticas oficiais.
Os números divulgados se referem ao total de benefícios concedidos, e não ao número de trabalhadores distintos.
Uma mesma pessoa pode receber mais de uma licença por incapacidade temporária ao longo do ano.
Em 2025, o Brasil registrou cerca de 4,12 milhões de afastamentos do trabalho por doença.
Esse foi o maior patamar dos últimos cinco anos.
Dentro desse total, os transtornos mentais e comportamentais responderam por mais de meio milhão de concessões.
O dado reforça a tendência de crescimento observada desde 2024.
O impacto financeiro das licenças por saúde mental não é detalhado de forma específica pelo INSS.
Ainda assim, análises do tema utilizam estimativas baseadas em afastamentos médios de cerca de três meses.
Os pagamentos considerados giram em torno de R$ 2.500 por benefício.
Com base nesses parâmetros, o custo potencial pode se aproximar de R$ 4 bilhões em 2025.
O valor final depende da duração efetiva das licenças e do salário de contribuição de cada segurado.
As estatísticas também indicam que as mulheres concentram a maior parte dos afastamentos por transtornos mentais.
Ao mesmo tempo, dados previdenciários mostram que elas recebem, em média, benefícios de menor valor do que os homens.
A diferença está associada a desigualdades salariais e ao histórico contributivo.
O avanço dos afastamentos reacendeu o debate sobre prevenção no ambiente de trabalho.
A discussão ganhou força após a atualização da Norma Regulamentadora nº 1.
A regra trata do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
A norma passou a prever a inclusão dos riscos psicossociais, como metas excessivas, jornadas prolongadas, assédio moral e falta de suporte organizacional.
Após pressões de entidades empresariais e sindicais, o governo federal decidiu adiar a aplicação plena dessas exigências.
O novo prazo estabelecido é maio, conforme comunicados recentes do Ministério do Trabalho e Emprego.
A pasta informou não haver previsão de nova prorrogação.
No cenário internacional, a Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho estimam que depressão e ansiedade provoquem a perda de cerca de 12 bilhões de dias úteis por ano no mundo.
O impacto econômico global é estimado em aproximadamente US$ 1 trilhão.
Com números recordes e mudanças regulatórias em curso, como o mercado de trabalho brasileiro pode reduzir os fatores associados ao adoecimento mental sem comprometer a geração de empregos?
Deu em CPG

Descrição Jornalista
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