Nas margens da rodovia CE-060, que cruza a região metropolitana de Fortaleza, um conjunto de 30 casas tem ares de cidade fantasma.
As ruas estão desertas, os imóveis estão trancados e o silêncio é rompido apenas por um latido ou outro de cães vira-latas que permanecem na região.
A comunidade Jacarezal, em Pacatuba (a 35 km da capital), foi abandonada às pressas após membros de uma facção picharem mensagens com ameaças nos muros das casas. Em alguns imóveis, os moradores levaram as portas, janelas e até as telhas, deixando de pé apenas as paredes das casas vazias.
A expulsão dos moradores ocorreu em setembro de 2025 em meio a uma disputa do Comando Vermelho e do TCP (Terceiro Comando Puro), ambas facções com origem no Rio de Janeiro.
Em um fenômeno que mistura disputa territorial do crime organizado, medo e falhas no sistema de Justiça, centenas de famílias no Ceará são forçadas a abandonar suas casas sob ameaça de facções criminosas, que vem aprofundando o cenário de violência no estado.
A Secretaria de Segurança Pública do Estado identificou ao menos 219 casos de deslocamentos forçados de famílias no Ceará no período janeiro de 2024 e setembro de 2025, o que equivale a dez casos por mês no período. O levantamento cruzou dados dos registros policiais e informações de inteligência.
O número, contudo, pode ser ainda maior por conta da subnotificação, já que não existe um crime específico de “expulsão” ou “deslocamento forçado”. Assim, as investigações mapeiam registros de ameaça ou esbulho (invasão de propriedade), nem sempre ideais para a complexidade do caso.
Os deslocamentos ocorrem em dois contextos: por ameaças diretas de um grupo criminoso contra famílias ligadas a rivais, ou por medo, quando as pessoas fogem em meio ao conflito entre facções na comunidade.
Ao longo de 2025, foram registrados deslocamentos forçados nos bairros de Antônio Bezerra, Vicente Pizón, José de Alencar, José Euclides e Presidente Kennedy, em Fortaleza, além de cidades como Maranguape e Pacatuba.
A Folha conversou, sob condição de anonimato, com vizinhos de uma moradora expulsa de sua casa no bairro Presidente Kennedy, em Fortaleza. Em outubro, ela deixou a casa própria onde morava há 28 anos após ser ameaçada por membros de facções. Teve que se mudar às pressas para outro bairro, onde passou a pagar um aluguel de R$ 1.000.
Crime lucra com mercado imobiliário paralelo
Presidente do Comitê de Prevenção e Combate à Violência da Assembleia Legislativa, o deputado Renato Roseno (PSOL) afirma que os deslocamentos urbanos forçados têm causas multifatoriais. No Ceará, o cenário foi agravado com a construção de grandes conjuntos habitacionais que, sem laços comunitários, que se tornam territórios vulneráveis ao crime.
“A expulsão de moradores se dá porque o tráfico de drogas deixou de ser atividade mais rentável. A venda de imóveis, aluguel de imóveis e utilização de imóveis para outras finalidades tem sido uma atividade rentável também. Tem uma lógica de mercado ultra capitalista ilegal”, avalia.
Em muitos casos, explica o secretário da Segurança Pública do estado, Roberto Sá, as residências que ficaram desocupadas são alugadas para outros moradores, alimentando a arrecadação das facções criminosas.
“Às vezes, quem ocupa o imóvel não é o criminoso que expulsou. Pode ser um inquilino de boa-fé, num aluguel informal, que repassa o dinheiro para o tráfico sem saber”, afirma.
O distrito de Uiraponga, no município de Morada Nova (155 km da capital), tornou-se um símbolo desse drama. Lá, o êxodo dos moradores foi gradual.
Tudo começou com uma rixa entre dois criminosos de uma mesma facção, um preso em São Paulo e outro foragido no Rio de Janeiro, que passaram a ordenar ameaças contra as famílias um do outro. Em uma localidade pequena, onde muitos são parentes, o pânico se alastrou.
Desde então, foi destacado um policiamento permanente no distrito –antes, a presença era apenas esporádica– e há um projeto com a prefeitura para incentivar o retorno dos moradores, com a promessa de segurança contínua. Para o secretário Roberto Sá, casos como o de Uiraponga revelam uma descrença da população no sistema de Justiça.
“As pessoas vão embora porque não acreditam na punição dos criminosos. A polícia prende, mas se o cara fica pouco tempo ou manda ordens de dentro da cadeia, o medo permanece”, afirma.
Governo diz ter adotado protocolo de resposta; 45 foram presos
A Secretaria de Segurança Pública criou um protocolo de resposta integrada para os casos de deslocamentos forçados, inspirado em uma ação bem-sucedida contra extorsões a provedores de internet.
O objetivo final da investigação é ir além do crime de ameaça e enquadrar os envolvidos no artigo mais robusto da lei: associação criminosa. Entre agosto e novembro de 2025, foram 45 presos por deslocamento forçado usando essa linha de investigação.
O deputado Renato Roseno afirma que é preciso ampliar a presença do Estado por meio da cultura, lazer, esporte, mediação de conflitos, além de uma segurança de proximidade comunitária: “Quanto maior for a presença do Estado social, menor vai ser a presença do Estado ilegal, da governança criminal.”
No Jacarezal, em Pacatuba, duas famílias voltaram para casa depois que a polícia passou a fazer rondas constantes no local. Mas o clima de medo ainda impera e ninguém quis dar entrevistas pelo temor de represálias.
“Aqui não se fala nada”, resumiu uma moradora, por detrás das grades fechadas do portão.

