FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Emprego 18/01/2026 11:18

O emprego repleto de vagas que paga US$ 120 mil, mas ninguém aceita

O emprego repleto de vagas que paga US$ 120 mil, mas ninguém aceita

Galpões equipados, oficinas modernas e salários elevados não têm sido suficientes para preencher um vazio crescente no mercado de trabalho dos Estados Unidos.

Profissões manuais, essenciais para o funcionamento da economia, acumulam milhares de vagas abertas.

Ainda assim, o interesse interno por esse tipo de trabalho segue em queda.

O paradoxo chama atenção porque muitas dessas posições oferecem remuneração de seis dígitos e planos de carreira estáveis.

Grandes montadoras relatam dificuldades para contratar técnicos qualificados, mesmo com pacotes considerados altamente competitivos. A escassez já começa a afetar prazos, produtividade e serviços básicos.

Um mercado aquecido, mas sem mãos

O CEO da Ford, Jim Farley, estima cerca de 5.000 vagas abertas para mecânicos, com ganhos que podem chegar a US$ 120 mil (R$ 646 mil) por ano, quase o dobro do salário médio nacional.

Para ele, o problema é estrutural e se estende a áreas como emergência, transporte rodoviário, fábricas, eletricidade, encanamento e construção. Enquanto isso, concessionárias seguem com boxes vazios, elevadores parados e falta de mão de obra especializada.

Farley descreve um déficit amplo que alcança mais de um milhão de postos essenciais, criando um descompasso que afeta da oficina ao canteiro de obras. Por outro lado, a indústria automobilística perde ritmo porque não encontra mão de obra qualificada na velocidade que a demanda exige.

Remuneração, ritmo e formação

No setor, o pagamento por produção recompensa quem executa rápido e acumula tarefas. Porém, chegar aos seis dígitos leva tempo, uma vez que só a prática demanda cerca de cinco anos.

Anúncios no centro de empregos da Ford indicam entrada próxima de US$ 42 mil (R$ 226 mil) anuais para ofícios qualificados.

Para mecânicos de automóveis no sudeste de Michigan, a proposta inicia em US$ 43.260, com aumento após três meses consecutivos. O edital pede oito anos de experiência ou aprendizagem e dispensa diploma universitário.

Em caminhões industriais, o piso começa em US$ 44.435, exigindo a mesma formação técnica.

O caso de Ohio como retrato

Ted Hummel, em Ohio, mostra o topo possível: ele recebe US$ 160 mil (R$ 860 mil) como técnico sênior em transmissões. Entretanto, a escalada levou cerca de uma década para romper os US$ 100mil.

Ele iniciou na Klaben Ford Lincoln, em Kent, perto de Cleveland, em agosto de 2012, e só passou de seis dígitos em 2022.

Hummel atua por produção e hoje soluciona transmissões com rapidez, embora, no começo, gastasse até 20 horas em um único reparo ao conferir etapas no manual da Ford. Sua chefia relatou ao WSJ que raramente falta serviço e gostaria de replicar talentos como o dele.

Entrar e evoluir custa caro: muitos técnicos bancam o próprio ferramental. Hummel cita como exemplo uma chave dinamométrica de US$ 800 exigida pela Ford.

Por outro lado, o corpo paga a conta, e afastamentos por meses derrubam a renda.

Oferta e demanda: os números adiante

Segundo a Forbes, o setor comercial deve criar 345 mil empregos até 2028. Contudo, para cada cinco aposentadorias em profissões especializadas, apenas duas reposições surgem, mantendo cerca de um milhão de postos vagos.

Assim, a manufatura pode somar 2,1 milhões de vagas não preenchidas até 2030.

Enquanto escritórios enfrentam ondas de demissões, a oferta operacional permanece farta. Ainda assim, mais americanos seguem rumo ao diploma universitário. Nesse contraste, um cargo de escritório paga US$ 70 mil, ao passo que um mecânico de alto desempenho pode alcançar US$ 120 mil ou mais.

O alerta de Jim Farley expõe um dilema estratégico:

há vagas, salários competitivos e demanda crescente, mas faltam técnicos dispostos e qualificados nos EUA. Portanto, o próximo ciclo testará a capacidade da indústria, da formação profissional e das empresas em atrair e reter talento técnico.

Deu em Capitalist
Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista