Comportamento 14/12/2025 12:59
Pessoas otimistas vivem mais?

Embora a longevidade dependa, é claro, de muitos fatores, como genética e estilo de vida, há evidências que dão respaldo à alegação de Van Dyke.
Diversos estudos indicam que manter níveis baixos de estresse e uma visão positiva e otimista da vida está associado a longevidade.
Por exemplo, no início dos anos 1930, pesquisadores pediram a 678 freiras iniciantes, a maioria com cerca de 22 anos, que escrevessem uma autobiografia ao ingressar em um convento.
Seis décadas depois, os pesquisadores analisaram os textos e compararam os resultados com os desfechos de saúde dessas mulheres.
Os pesquisadores constataram que mulheres que expressaram mais emoções positivas no início da vida, como dizer que sentiam gratidão, em vez de ressentimento, viveram, em média, dez anos a mais do que aquelas cujos textos tendiam a ser mais negativos.
Um estudo do Reino Unido também constatou que pessoas mais otimistas viveram entre 11% e 15% mais do que seus pares pessimistas.
E, em 2022, um estudo que analisou cerca de 160 mil mulheres de diferentes origens étnicas constatou que aquelas que se diziam mais otimistas tinham maior probabilidade de chegar aos 90 anos do que as pessimistas.
Uma possível explicação para esses resultados está nos efeitos que a raiva tem sobre o coração.
Pessoas com uma visão mais positiva ou otimista da vida parecem lidar melhor com a raiva ou conseguir controlá-la. Isso é relevante porque a raiva pode provocar diversos efeitos significativos no organismo.
A raiva desencadeia a liberação de adrenalina e cortisol, os principais hormônios do estresse do organismo, especialmente nos homens. Mesmo explosões breves de raiva podem levar a um declínio da saúde cardiovascular.
A sobrecarga adicional que o estresse crônico e a raiva impõem ao sistema cardiovascular tem sido associada a um maior risco de desenvolver condições como cardiopatias, AVC e diabetes tipo 2.
Esses problemas respondem por cerca de 75% das mortes precoces. Embora estresse e raiva não sejam as únicas causas dessas doenças, contribuem de forma significativa para seu surgimento.

Crédito,Getty Images A raiva faz mal ao coração
Assim, quando Dick Van Dyke diz que não fica com raiva, isso pode ser uma das razões de sua longevidade.
Há também uma explicação mais profunda, em nível celular, para a influência do estresse sobre a longevidade, relacionada aos telômeros — estruturas protetoras localizadas nas extremidades dos cromossomos (os “pacotes” de informação genética presentes nas células).
Em células jovens e saudáveis, os telômeros permanecem longos e resistentes. Com o avanço da idade, porém, eles se encurtam e se desgastam gradualmente. Quando ficam excessivamente danificados, as células passam a ter dificuldade para se dividir e se reparar, uma das razões pelas quais o envelhecimento se acelera ao longo do tempo.
O estresse tem sido associado ao encurtamento mais rápido dos telômeros, o que dificulta a comunicação e a renovação das células. Em outras palavras, emoções que provocam estresse, como a raiva descontrolada, podem acelerar o processo de envelhecimento.
Um estudo também constatou que a meditação, que pode ajudar a reduzir o estresse, está associada positivamente ao comprimento dos telômeros. Assim, controlar melhor a raiva pode contribuir para uma vida mais longa.
Além disso, pessoas otimistas tendem a adotar hábitos mais saudáveis, como praticar exercícios regularmente e manter uma alimentação equilibrada, o que favorece a saúde e a longevidade ao reduzir o risco de doenças cardiovasculares. O próprio Dick Van Dyke afirma que ainda tenta se exercitar ao menos três vezes por semana.

Crédito,Getty Images Desacelerar a respiração, contar as inspirações ou recorrer a técnicas de relaxamento, como a yoga, ajuda a acalmar o sistema cardiovascular, em vez de sobrecarregá-lo
Se você quer viver tanto quanto Dick Van Dyke, há coisas que podem ajudar a controlar os níveis de estresse e de raiva.
Ao contrário do que se acredita, tentar “extravasar” a raiva, socando um saco, gritando em um travesseiro ou correndo até a sensação passar, não ajuda de fato. Essas ações mantêm o organismo em estado de alerta elevado, o que afeta o sistema cardiovascular e pode prolongar a resposta ao estresse.
Uma abordagem mais tranquila funciona melhor. Desacelerar a respiração, contar as inspirações ou recorrer a técnicas de relaxamento, como a yoga, ajuda a acalmar o sistema cardiovascular, em vez de sobrecarregá-lo. Com o tempo, isso reduz o esforço imposto ao coração, o que pode contribuir para uma vida mais longa. O ideal é adotar essas práticas sempre que você se sentir especialmente estressado ou com raiva.
Também é possível fortalecer emoções positivas ao tentar estar mais presente no dia a dia. Ao manter essa atenção, você se torna mais consciente do que acontece ao seu redor e dentro de você.
Por exemplo, se você planeja sair para jantar com seu parceiro ou parceira, tente ser mais intencional na forma como faz isso. Isso pode incluir reservar um restaurante de que ambos realmente gostem ou pedir uma mesa em um local mais tranquilo, para ter mais tempo de conversar. Vá com calma e procure prestar atenção ao momento, absorvendo ao máximo as sensações que estiver vivenciando.
Também é possível estimular emoções positivas ao reservar tempo para o lazer. Para adultos, brincar significa fazer algo simplesmente pelo prazer, não porque tenha um objetivo específico. Esse tipo de atividade aumenta as emoções positivas e pode, por consequência, beneficiar a saúde.
O conselho de Dick Van Dyke pode estar correto. Embora não seja possível controlar todos os fatores que influenciam a saúde, aprender a lidar melhor com a raiva e abrir espaço para uma visão mais positiva da vida pode contribuir tanto para o bem-estar quanto para a longevidade.
*Jolanta Burke é professora associada do Centro de Ciências da Saúde Positiva da RCSI University of Medicine and Health Sciences
Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em inglês).
Deu em BBC

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