Comportamento 25/05/2024 17:35
Você lembra do primeiro beijo? Saiba como funciona sua memória autobiográfica
Nós lembramos de experiências a partir dos três anos de idade, ou antes, mas é normal esquecer de detalhes triviais do nosso passado, segundo psicólogo

Quem não lembra do primeiro beijo de amor? Quem não se recorda com nostalgia daquele doce que a mãe fazia, ou daquelas tardes intermináveis de brincadeiras de infância? Todos nós somos capazes de recordar experiências felizes.
Mas cada indivíduo tem sua própria história pessoal, com seu próprio roteiro.
Ao revisar uma experiência, o cérebro adota um estado especial de consciência. A mente recapitula os eventos mais importantes, como se estivesse projetando um filme. Essa capacidade de viajar para trás e reviver o passado é chamada de memória pessoal ou autobiográfica.
Lembramos de experiências a partir dos três anos de idade, ou antes
A memória autobiográfica começa com a primeira memória vital, que surge por volta dos três anos de idade.
A criança já tem um senso de identidade, uma linguagem incipiente e alguma maturidade cerebral. Leonardo da Vinci lembrou-se de um papagaio invadindo seu berço e batendo em seus lábios.
Frida Kahlo imaginou que um amigo aparecia atrás da janela. García Márquez contou que, quando era muito jovem, em Aracataca, seu avô o levou para ver um dromedário de circo (isso para não citar a lembrança fictícia da primeira pedra de gelo, magistralmente descrita no começo do romance “100 Anos de Solidão”, sua obra-prima que versa justamente sobre a memória e o passado).
Durante o desenvolvimento, a memória continua a registrar eventos emocionais. Na juventude, desfrutamos de muitas “primeiras vezes” que são vividas intensamente, acompanhadas de sentimentos que as ampliam. Isso nos permite, anos depois, recuperar a emoção daquele instante sem perder sua vivacidade.
Em seguida, visualizamos a cena inteira, incluindo informações multissensoriais. Voltamos a sentir os aromas de jasmim, as texturas das mãos carinhosas ou o sabor do ensopado fumegante de nossa avó. Vemos os rostos e as expressões, ouvimos o tom grave das vozes, suas risadas…
Às vezes, um desses detalhes é a chave para desencadear a evocação – o efeito da madeleine de Proust.
Quando se trata de eventos traumáticos, a memória retém a dor. Maria Velon, vítima do tsunami de 2004 na Tailândia, ainda se arrepia com a lembrança da onda que a separou de seus filhos.
Um homem de cem anos, entrevistado na televisão, ainda treme ao contar a história: uma bala atingiu sua têmpora de raspão na Guerra Civil quando ele tinha 18 anos.
Por que nos lembramos tão claramente de momentos críticos de nossa história pessoal?
Sabemos pela neurociência que as informações são codificadas por estruturas cerebrais que trabalham em conjunto.
O hipocampo codifica detalhes espaciais e vincula informações do córtex visual. A amígdala dispara para reativar a emoção. No córtex pré-frontal, essas sensações são ordenadas, compondo uma narrativa coerente.
Isso envolve a interconexão de milhões de neurônios, desencadeando uma atividade frenética. A ressonância magnética fornece apenas vislumbres de explosões simultâneas aqui e ali, portanto, ainda não entendemos todos os aspectos. Mas parece indiscutível que toda a nossa mente está ativamente envolvida.
Graças a essa atividade frenética, armazenamos memórias e, posteriormente, recuperamos essas cenas passadas por meio de uma reconstrução que nem sempre é totalmente precisa. Alguns detalhes são consolidados, outros desaparecem.
O trauma é intensificado ou atenuado. Às vezes, novas informações podem ser incorporadas, preenchendo lacunas mentais e criando falsas memórias.
Em geral, as lembranças pessoais, espalhadas ao longo da vida, têm um denominador comum: seu significado. Elas são marcos na vida que tiveram uma influência positiva ou negativa em nossa existência.
Elas carregam uma alta carga emocional: vergonha, medo, alegria, humor… Ninguém se esquece de seu casamento, do nascimento de um filho ou de uma conquista importante. Tampouco esquecemos uma perda, um rompimento ou uma grande decepção.
Além disso, há memórias comuns a toda uma geração.
Armazenamos eventos que eclodiram em um momento histórico, deslumbrando-nos com seu brilho: um golpe de Estado, a morte de Lady Di ou Maradona, os Rolling Stones em um show, os ataques de 11 de setembro e assim por diante. Milhões de cérebros registram simultaneamente esses eventos públicos, que produzem enorme comoção.
Eles são chamados de memórias de flashbulb (flashbulb memories). Todos se lembrarão de onde estavam, como receberam a notícia, o que pensaram e o que fizeram. Aspectos aparentemente insignificantes são iluminados nesse quadro: a imagem de Matías Prats, as Torres Gêmeas, um comentário isolado…
Mas nem todos os eventos são iguais. Nem tudo tem esse significado. A maior parte de nossa experiência diária desaparece depois de algumas horas, como o jantar da última quinta-feira ou a série policial de sábado. Vemos utilidade no esquecimento: fatos irrelevantes são apagados, acumulando-se em um saco de memórias vulgares e comuns, chamadas de memórias gerais.
O esquecimento de detalhes triviais é um sintoma de saúde mental. Ele limpa o cérebro de dados inúteis.
Além disso, nosso cérebro se preocupa especificamente em eliminar as irritações da vida cotidiana. Ele manda para a lixeira os pequenos eventos que prejudicam nossa eficácia social.
A raiva, as discussões absurdas, as esperas incômodas, as picadas de mosquito etc. evaporam. …. Se não esquecêssemos o negativo, perderíamos nossa ilusão, nossa confiança no futuro. Não tomaríamos mais iniciativas, não faríamos mais viagens ou reuniões.
De fato, a mente tende a adotar uma espécie de visão cor-de-rosa: ela favorece a persistência de memórias positivas. Com o tempo, as pessoas mais velhas preferem reviver momentos felizes. Manuel Vicent (88) relembra os domingos de sua infância, colhendo aspargos selvagens à beira-mar.
A mexicana Elena Poniatowska (92) se vê no colo do pai tocando piano em Paris. Borges sempre carregava consigo as ruas do bairro de Palermo, em Buenos Aires. A memória atua, por assim dizer, como um mecanismo de regulação emocional.
Em resumo, somos projetados para lembrar o que foi essencial em nossa vida, dando-lhe um significado coerente.
Cada vez que contamos um momento passado, atribuímos a ele um lugar, um significado dentro da história de nossa vida. A durabilidade dessas lembranças prova que nossa memória não é frágil, mas seletiva.
A memória autobiográfica cria nossa identidade, melhora nosso humor e fortalece os laços emocionais que nos unem aos nossos entes queridos.
Quando alguém contar a história de sua vida, ouça o que ele tem a dizer. Não estará perdendo tempo, mas recuperando o tempo, ressuscitando a experiência vivida. A memória pessoal nos faz humanos e, ao mesmo tempo, nos torna mais humanos.
José T. Boyano é Professor Associado de Psicologia na Universidade de Málaga, na Espanha, e Orientador Educativo. Este artigo foi publicado originalmente no site The Conversation.

Descrição Jornalista
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