Política 18/06/2021 07:27

‘Nenhum nome do centro tem musculatura sozinho para enfrentar Lula ou Bolsonaro’, diz Rodrigo Maia

A oposição ao governo Jair Bolsonaro tem aproximado adversários históricos na política. Na última sexta-feira, foi a vez do deputado federal Rodrigo Maia (sem partido), um dos líderes da oposição aos governo petistas, se reunir com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que deve novamente concorrer à Presidência da República em 2022.

A oposição ao governo Jair Bolsonaro tem aproximado adversários históricos na política. Na última sexta-feira, foi a vez do deputado federal Rodrigo Maia (sem partido), um dos líderes da oposição aos governo petistas, se reunir com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que deve novamente concorrer à Presidência da República em 2022.

Em entrevista à BBC News Brasil, Maia defendeu que o processo de diálogo político contra Bolsonaro “inclui o presidente Lula” e contou que se colocou à disposição dele para conversar com a equipe que organizará o plano de governo de sua candidatura. Ressaltou, porém, que isso não significa um apoio ao ex-presidente já no primeiro turno.

Seu foco, afirma, é trabalhar para que seu campo, que chama de “centro liberal”, tenha um candidato próprio capaz de chegar ao segundo turno no lugar do atual presidente para enfrentar Lula.

O plano, difícil de ser executado, é que todos os candidatos hoje atrás de Lula e Bolsonaro nas pesquisas se unam em uma única candidatura. Isso inclui a inglória missão de unir adversários como Ciro Gomes (PDT) e o governador de São Paulo, João Dória (PSDB).

“Nenhum dos nossos nomes tem musculatura sozinho para enfrentar o Lula ou o Bolsonaro”, reconhece Maia.

Outra dificuldade que o próprio deputado vê na construção dessa candidatura do “centro liberal” é que parte relevante dos partidos do seu campo político, como PSDB, MDB e DEM, tem se alinhado ao governo Bolsonaro no Congresso, atraídos pelo repasse de recursos da União para suas bases eleitorais.

“Eu acho que o centro liberal hoje está muito amarrado na pauta bolsonarista. (…) Eu vejo hoje no Parlamento nosso campo muito acanhado, muito refém dessa máquina federal”, ressalta.

Se um candidato do “centro liberal” não passar do primeiro turno, Maia diz que votará em Lula contra Bolsonaro – em 2018, fez exatamente o inverso, escolheu no segundo turno o atual presidente para derrotar o PT.

Sua passagem à oposição a Bolsonaro acabou alimentando seu desgaste no DEM, partido que integrava desde os anos 90 e do qual acaba de ser expulso. A saída se deu por divergências públicas com o presidente do partido, ACM Neto, relacionadas ao alinhamento da legenda ao governo federal.

Agora, Maia tende a ingressar no PSD, seguindo o mesmo trajeto do prefeito do Rio, Eduardo Paes. Apesar das especulações de que ambos possam apoiar a candidatura de Marcelo Freixo (PSB) ao governo do Rio de Janeiro, Maia diz que o mais provável é ele e Paes trabalharem para que o PSD lance seu próprio candidato ao Palácio da Guanabara.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – O sr. e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, se reuniram com o ex-presidente Lula na semana passada. Qual foi o objetivo desse encontro?

Rodrigo Maia – O prefeito Eduardo Paes fez o convite. O prefeito teve uma relação muito próxima ao presidente Lula quando um era presidente e o outro era prefeito. Eles mantêm boa relação e combinaram esse almoço certamente pra discutir política.

Discutimos a conjuntura política atual, futura, eleição de 2022. Acho que é importante que aqueles que, do meu ponto de vista, estão no campo democrático, dialoguem, independente se estarão ou não no mesmo palanque na eleição de 2022 no primeiro turno.

BBC News Brasil – O encontro surpreendeu parte do mundo político porque o senhor esteve historicamente no campo adversário do ex-presidente Lula, com duras críticas à política econômica do PT, aos escândalos de corrupção. Houve uma mudança de visão sua em relação ao Lula e ao PT? O que explica que agora os srs. tenham esse diálogo?

Maia – Eu, mesmo quando fazia oposição ao PT, sempre tive um bom diálogo com os líderes do PT na Câmara de Deputados. Sempre fui um adversário transparente, aberto, crítico principalmente à política econômica do final do primeiro governo do presidente Lula, mas principalmente do governo Dilma. Se você comparar a política fiscal do primeiro governo do presidente Lula com a política fiscal do governo Dilma, você vai ver diferenças enormes. E eu posso dizer que a equipe que comandou o Ministério da Economia (no governo Lula), escolhido pelo (ministro Antônio) Palocci, são todos quadros da minha relação política hoje, com que eu converso: o Marcos Lisboa, o Bernard Appy, o Joaquim Levy, que depois foi ministro da Dilma. Então, você tem que separar um pouco os dois governos.

Claro que os fatos ocorridos, os desvios, a utilização da Petrobras, são temas que a gente critica e vai continuar criticando. Eu sempre disse que o que tinha sido feito contra o presidente Lula, do meu ponto de vista, em relação ao que tinha de prova material contra ele, era muito frágil. Agora, é claro que a Petrobras foi utilizada por muitos de uma forma indevida e o Judiciário e o Ministério Público avançaram muito (contra o esquema de corrupção). E a gente viu o que aconteceu com a Lava Jato depois de muito poder, muitos excessos, muitas arbitrariedades.

À frente da presidência da Câmara eu tive a oportunidade de conviver mais próximo a todos os partidos e aos deputados do PT. Então, pra mim, estar dialogando com o presidente Lula no momento que a gente tem um governo que desrespeita o Congresso Nacional, desrespeita o Supremo Tribunal Federal, questiona a legitimidade do sistema eleitoral brasileiro, é claro que esse governo acaba aproximando e nos colocando numa posição de mais proximidade em relação ao diálogo pra eleição de 2022.

BBC News Brasil – O sr. em 2018 votou no atual presidente Bolsonaro e um dos motivos era por que o sr. queria tirar o PT?

Maia – Não. Eu tinha dois temas. Primeiro, a minha dificuldade, claro, de votar no PT pela oposição histórica que fiz ao PT, mas, mais do que isso, eu olhava o (ministro da Economia) Paulo Guedes como um quadro que poderia, de alguma forma, conduzir a política econômica pra um caminho diferente daquilo que o Bolsonaro defendeu a vida inteira. A gente sabe que o Bolsonaro não é liberal na economia em hipótese nenhuma, mas eu achava que o Paulo Guedes poderia assumir esse papel. Acho que até no início tentou, mas depois acabou contaminado e envolvido com essa agenda bolsonarista.

Mas foram esses dois motivos que me fizeram votar no segundo turno. Eu nunca fiz campanha. Não sou daqueles que digo que eu me arrependo, até porque todo mundo sabia quem era o Bolsonaro. Quem falar que não sabia, não tá falando a verdade. Então, posso dizer que eu tinha uma posição de muito contraponto ao PT e tinha o Paulo Guedes na outra ponta que era uma pessoa com quem eu e meu pai (César Maia) tínhamos uma relação há muitos anos no Rio de Janeiro.

BBC News Brasil – Justamente, o sr. tem dito que seu voto em Bolsonaro foi por esses dois fatores: sua oposição ao PT e o apoio à agenda econômica de Guedes. Agora, o sr. está disposto a fazer o contrário: votar no PT para tirar o Bolsonaro?

Maia – Não, eu estou disposto a construir uma candidatura no meu campo, no campo que eu chamo de centro liberal. Eu divido (o centro político) em dois grupos: o centro, que alguns chamam de centrão, e o centro liberal, que é o campo em que eu me coloco, que na economia tem uma visão que não é pragmática como o centrão tem.

Acho que o nosso campo deveria construir uma candidatura, mas que o encaminhamento não está do tamanho correto. Acho que essa tentativa permanente de uma certa exclusão do (governador de São Paulo João) Dória, de um certo conflito interno no PSDB com o governador de São Paulo, acho isso muito ruim e sinaliza de forma muito negativa.

Sendo o Dória o candidato do nosso campo ou não, isso é uma questão que eu acho que tem que ser uma decisão coletiva, porque nenhum dos nossos nomes tem musculatura sozinho para enfrentar o Lula ou o Bolsonaro. Acho que a nossa ida ao segundo turno passa por São Paulo, sendo o Dória o candidato desse campo, (assim como) passa por São Paulo com a compreensão do Dória que ele, no final do ano, não será a melhor opção, vamos dizer assim, pra representar esse campo.

Até a hipótese, que eu acho é importante, de trazer o PDT para esse diálogo, com a candidatura de Ciro Gomes, também (deve ocorrer) com a certeza que pode ser ele o candidato ou pode não ser. Então, nosso campo é que precisa organizar melhor as suas ideias, organizar melhor o seu espaço político.

Acho que o centro liberal hoje está muito amarrado na pauta bolsonarista, pela força que tem o governo nas nossas bases eleitorais. A gente vê com alguma preocupação o que hoje representa (a atuação no Congresso de partidos como) o PSDB, na maioria das vezes o MDB, o Cidadania, o Podemos, o próprio DEM, que eu acho que vai acabar apoiando o Bolsonaro. Vejo hoje no Parlamento nosso campo muito acanhado, muito refém dessa máquina federal. Todo mundo olhando suas reeleições. Então, acho que temos um caminho difícil, porque não temos nitidez de oposição ao governo, e nem conseguimos levar as bancadas desses partidos para essa posição.

E também ainda temos um problema interno do PSDB que acho que ainda precisa ser resolvido porque o PSDB é um partido que tem três grandes candidatos (Dória, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e o senador do Ceará, Tasso Jereissati) e precisa sair desse processo unido. E acho que não apenas (com a união) dos três, o correto era que a gente pudesse juntar com os outros possíveis candidatos, o (ex-ministro da Saúde Henrique) Mandetta, o Ciro, e tentar construir um centro único em que a gente conseguisse gerar uma convergência de ideias, uma agenda mínima de ideias.

Deu na BBC

Ricardo Rosado de Holanda



Descrição Jornalista