Setor de energia renovável enfrenta freada no Brasil após anos de crescimento acelerado - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
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Energia. 01/07/2025 10:18

Setor de energia renovável enfrenta freada no Brasil após anos de crescimento acelerado

Setor de energia renovável enfrenta freada no Brasil após anos de crescimento acelerado

Brasil vive retração no setor de energia renovável; projetos são cancelados por falta de infraestrutura e baixa atratividade.

Enel, Shell e Auren abandonam investimentos bilionários.

Após anos de avanços constantes, o setor de energia renovável no Brasil — que inclui fontes como a solar e a eólica — atravessa um período de retração. Nos últimos meses, grandes empresas como Enel, Auren e Shell solicitaram à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a revogação de autorizações de projetos em diversos estados.

O principal motivo é a inviabilidade econômica causada por gargalos na transmissão, excesso de oferta e dificuldade em negociar a energia gerada.

Os pedidos de cancelamento afetam diretamente projetos de larga escala, muitos deles aprovados durante a chamada “corrida do ouro” das energias limpas, impulsionada por benefícios tarifários garantidos por leis recentes.

A expectativa de um retorno financeiro estável se perdeu diante do cenário atual, marcado por câmbio instável, juros altos e falta de infraestrutura para escoar a produção energética.

Investimentos travados e perdas bilionárias

A Enel Brasil é um dos casos mais emblemáticos dessa crise. Em junho, a empresa pediu a revogação de outorgas que somavam quase 1.500 megawatts (MW) de capacidade instalada — volume comparável ao de uma usina hidrelétrica de grande porte.

Segundo Bruno Riga, presidente da Enel Green Power, os cortes obrigatórios na geração, chamados de curtailment, postergam o retorno dos investimentos em até cinco anos.

“O estado onde temos o maior impacto é a Bahia, porque temos 1,6 GW de capacidade instalada, e que representa 40% de toda a nossa capacidade instalada no Brasil”, afirmou Riga.

A empresa destaca que, além da dificuldade de conexão à rede elétrica, a sobreoferta energética tornou os projetos menos atrativos, com uma geração real até 35% inferior ao previsto em algumas usinas.

Energia renovável: promessas adiadas

A retração não é exclusiva da Enel. A Auren Energia também solicitou à Aneel a revogação de cinco outorgas referentes à segunda fase do Complexo Eólico Tucano, totalizando 159,6 MW.

A empresa alegou, entre outros fatores, os custos já desembolsados e a inviabilidade de negociar a energia gerada, tanto no mercado livre quanto em leilões.

A Shell Brasil seguiu o mesmo caminho e anunciou a interrupção de seus projetos de geração centralizada no país, que somavam cerca de 3 GW em energia solar.

A justificativa da empresa foi clara: sai mais barato comprar energia de terceiros do que continuar investindo em estrutura própria de geração.

Cristiano Pinto da Costa, presidente da Shell Brasil, foi direto: O mercado brasileiro tem excesso de oferta. Comprar energia no mercado é mais vantajoso do que investir em novas usinas, revelou ele.

O papel do escoamento e dos entraves ambientais

Uma das maiores barreiras para a continuidade dos projetos é a infraestrutura de transmissão. Sem novas linhas para transportar a energia gerada até os centros consumidores, as usinas ficam limitadas ou são obrigadas a reduzir a produção.

Essa limitação já causa cortes diários no sistema elétrico. O Operador Nacional do Sistema (ONS) estima que até 2029 os cortes de geração por excesso de oferta — sem compensação financeira aos geradores — possam atingir até 20 GW em horários de pico.

E 96% desses cortes ocorrerão por motivos energéticos, ou seja, por desequilíbrio entre oferta e demanda.

Além disso, a lentidão no licenciamento ambiental, sob responsabilidade do Ibama, prejudica a construção de novas linhas.

Segundo a ISA Energia Brasil, que investe R$ 7,5 bilhões até 2029 em projetos de transmissão, a escassez de técnicos nos órgãos ambientais compromete o andamento dos processos.

A empresa aguarda liberação para concluir a instalação de uma linha de 1.100 km entre a Bahia e Minas Gerais, essencial para conectar novas fontes de energia renovável ao sistema.

O planejamento energético do Brasil, tradicionalmente baseado na previsão de demanda, agora é pressionado por uma geração em expansão que não encontra espaço na malha de transmissão.

A proposta do governador do Ceará, Elmano de Freitas, de o estado investir diretamente em novas linhas em parceria com a iniciativa privada, mostra como a situação chegou a um ponto crítico.

“O estado pode colaborar diretamente com a infraestrutura de energia renovável, encurtando prazos e garantindo segurança para investidores”, defende o governador, que tem buscado protagonismo no debate nacional sobre a energia limpa.

O futuro da energia renovável no Brasil

Apesar dos desafios, o cancelamento das outorgas não elimina totalmente a possibilidade de retomada desses projetos.

As empresas continuam detentoras dos empreendimentos e podem pleitear novas licenças no futuro.

No entanto, o fim do desconto na tarifa de uso das redes (tarifa fio), que estava atrelado às outorgas originais, exigirá que os projetos sejam remodelados e tornem-se financeiramente mais robustos para compensar a perda do benefício.

Especialistas alertam que o país precisa equilibrar melhor o crescimento da geração com os investimentos em infraestrutura.

Caso contrário, o Brasil corre o risco de desperdiçar seu enorme potencial de energia renovável por falta de planejamento e execução.

Deu em CPG

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


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