Saúde 27/03/2026 16:05
Pílula oral supera Ozempic em eficácia e promete revolução no tratamento da obesidade

Os medicamentos injetáveis para perda de peso, como Wegovy e Ozempic, transformaram o tratamento da obesidade nos últimos anos. Mas um obstáculo persistia: a necessidade de agulhas.
Agora, um novo estudo aponta que um comprimido diário pode não apenas resolver esse problema, mas também superar a eficácia das versões injetáveis já disponíveis no mercado.
O orforglipron, medicamento desenvolvido pela Eli Lilly, foi testado em um ensaio clínico de fase 3 com 1.698 adultos com diabetes tipo 2 em seis países. Após 52 semanas, os resultados, publicados recentemente, mostraram que o novo comprimido foi superior à semaglutida oral — princípio ativo do Ozempic e Wegovy — tanto no controle da glicemia quanto na perda de peso.

Os participantes começaram o estudo com uma média de HbA1c (indicador de açúcar no sangue dos últimos três meses) de 8,3% — acima do limite de 6,5% que define o diagnóstico de diabetes. Após um ano, aqueles que tomaram orforglipron reduziram esse índice em média de 1,71% a 1,91%, enquanto o grupo da semaglutida oral teve uma redução de 1,47%.
Na balança, a diferença também foi significativa: os usuários do novo medicamento perderam entre 6,1 kg e 8,2 kg, contra 5,3 kg do grupo que tomou semaglutida.
“O orforglipron não só atingiu os objetivos do estudo de comprovar sua eficácia em comparação com a semaglutida oral, como também demonstrou ser superior na redução da glicemia”, explica Martin Whyte, Professor Associado de Medicina Metabólica da Universidade de Surrey em artigo publicado no The Conversation.
A semaglutida injetável revolucionou o tratamento da obesidade, mas tem desvantagens logísticas significativas. Pacientes com fobia de agulhas enfrentam barreiras para iniciar ou manter o tratamento. Além disso, o medicamento exige refrigeração contínua na cadeia de suprimentos — um obstáculo em países de baixa e média renda, onde a infraestrutura de frio é precária.
A versão oral da semaglutida já resolveu a questão das injeções, mas trouxe novos desafios: deve ser tomada em jejum, com 30 minutos de espera antes da primeira refeição, e tem baixa biodisponibilidade — apenas cerca de 1% do fármaco ingerido é efetivamente absorvido.

O orforglipron pertence a uma categoria diferente: a dos fármacos de pequenas moléculas. Compostos químicos sintéticos, eles são pequenos o suficiente para serem absorvidos diretamente pela parede intestinal, sem a necessidade de estruturas complexas que imitem o hormônio GLP-1.
Isso traz vantagens práticas significativas. Por ser mais simples de fabricar, o orforglipron tende a ser mais barato que os medicamentos peptídicos como a semaglutida. E, assim como a versão oral já existente, dispensa refrigeração — o que amplia seu potencial de acesso em regiões com infraestrutura limitada.
Nem tudo, porém, são vantagens. O estudo revelou que o orforglipron tem uma taxa mais alta de efeitos colaterais gastrointestinais — náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Cerca de 59% dos participantes que usaram o novo comprimido relataram esses sintomas, contra 37% a 45% no grupo da semaglutida.
Mais grave: 10% dos usuários de orforglipron abandonaram o tratamento devido aos efeitos adversos, contra apenas 4% a 5% no grupo controle.
A razão provável, segundo os pesquisadores, é a concentração plasmática máxima diária mais acentuada do orforglipron — um pico que pode intensificar os sintomas.
O estudo não comparou o orforglipron diretamente com a semaglutida injetável, mas os autores observam que a perda de peso observada em pessoas com diabetes tipo 2 foi amplamente comparável à registrada anteriormente com as injeções.
A pergunta que fica é se a maior eficácia do novo comprimido compensará sua menor tolerabilidade. Em um mercado cada vez mais competitivo, a adesão ao tratamento a longo prazo — influenciada tanto pela eficácia quanto pelos efeitos colaterais — será um diferencial crucial.
Deu em Olhar Digital

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