Saúde 04/04/2026 07:36
Pesquisa indica fragilidade na saúde mental de professores

Hoje, o assunto é educação, mas não o que acontece dentro da sala de aula, mas na cabeça dos professores.
Estudo nacional inédito, apresentado no GEduc – Congresso de Educação, no dia 26 de março, mostra que 36% dos profissionais da educação privada relatam sofrimento psicológico, um dado que acende alerta para o impacto direto na qualidade de vida desses profissionais e do ensino.
A pesquisa nasceu da iniciativa da parceria entre o Instituto SEMESP, centro de inteligência do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo, a Federação Nacional de Escolas Particulares (FENEP), a Humus Consultoria e na consultoria de educação Happy Academy.
O objetivo dela foi dar voz aos profissionais da educação e entender as percepções deles sobre saúde mental e bem-estar nas instituições de ensino particulares do país.
O levantamento ouviu 1.285 profissionais e mostrou que os da educação básica apresentam maior vulnerabilidade que os do ensino superior, tanto é que 57,65% deles relatam baixos níveis de segurança psicológica no ambiente de trabalho, indicando que muitos não se sentem plenamente confortáveis para expressar opiniões, dúvidas ou preocupações dentro das instituições.
Segundo o Ministério da Previdência Social, os afastamentos por saúde mental em 2025 aumentaram 15% em relação a 2024, sendo que, por transtornos mentais, ansiedade e depressão foram os principais diagnósticos. No caso dos educadores, não foi diferente.
Os transtornos mentais já têm assumido a primeira posição em causa de afastamento para tratamento de saúde dos professores e profissionais da área, sendo a maioria deles, por quadros ansiosos.
Essa realidade coloca o setor diante de algo que ultrapassa o campo individual e passa a ser um desafio coletivo, social e corporativo. Sabemos que os transtornos mentais podem ter múltiplas causas, mas o ambiente de trabalho é reconhecido como um fator determinante para o bem-estar psicológico.
Para Viviane Minozzo, CEO da Happy Academy, consultoria focada na humanização organizacional, a segurança psicológica é impactada por uma combinação de fatores organizacionais, sociais e individuais que, quando negativos, geram sofrimento mental e esgotamento.
“A ausência desse ambiente seguro, no qual o profissional se sente à vontade para expressar ideias, dúvidas ou erros sem medo de retaliação, é um dos principais fatores de adoecimento”, relata.
Segundo Sonia Simões Colombo, CEO da Humus, Head de Conteúdo do GEduc e Presidente do Instituto ELA Educadoras do Brasil, é preciso desmistificar o tema da saúde mental.
“Agora, o desafio é avançar. Esperamos que esse trabalho contribua para mobilizar todo o ecossistema educacional: líderes, mantenedores, professores, famílias e formuladores de políticas públicas, no sentido de transformar esses dados em ações concretas de prevenção e promoção do bem-estar”, conclui.
Diante de tais dados, busquei e encontrei duas educadoras que sofrem com questões de saúde mental. Os nomes são fictícios, mas os relatos são reais e fortes.
A primeira delas é a Sandra*, 32 anos de idade e sete lecionando. Ela é professora de uma escola particular de São Paulo. Ela percebeu que havia algo que interferia na sua performance.
“Quando percebi, era como se no simples eu já ficasse esgotada, não conseguisse entregar o quanto sei que sou capaz. A busca por ajuda foi justamente no momento em que atingi um limite e pensei em dar um fim em tudo. Precisar de ajuda rompia com o pensamento que fixei de que deveria ajudar a todos e permanecer forte”, mas diz como se sente lecionando fragilizada emocional e mentalmente:
“Por vezes é uma terapia, pois por um momento consigo não pensar na tristeza que tem me engolido. Mas naqueles dias que estou com o emocional abalado, sinto como se colocasse uma máscara que me ajuda a fingir estar bem, enquanto por dentro em pedaços. Contudo, sentir que não estou entregando o meu melhor é como se eu me sentisse uma fraude”.
Já Patrícia*, 60 anos, 42 deles lecionando. Ela relata que tudo aconteceu quando tinha 56, ocupando o cargo de gestora pedagógica educacional, começou a perceber algo que nunca tinha acontecido:
“Primeiro, você tem uma sensação muito real de cansaço, não tem vontade de levantar. Não tem vontade de ir para aquele local onde você sabe que o ambiente é tóxico. Você não quer conversar com determinadas pessoas, porque no meu caso foi especificamente a minha gestora direta.
E as suas ideias começam a desaparecer. Então, uma pessoa extremamente criativa começa a não ter mais criatividade. Sou uma pessoa extremamente ativa, uma pessoa que trabalha, se for o caso, 20 horas por dia, e nunca me cansei do jeito que eu estava me sentindo cansada. Quando fui para uma consulta no pronto-socorro, que relatei os meus sintomas, a médica imediatamente me disse: Você está com burnout”.
Quando eu procuro entender como as pessoas ao redor se portam em relação a essas fragilidades percebo que é ainda mais doloroso. Sandra diz que prefere não compartilhar no local de trabalho. Se abre apenas para as pessoas com quem convive e tem confiança de que não terão preconceito:
“No convívio com colegas não exponho e escondo bem”.
Mas, Patricia teve outra experiência. Teve ajuda de uma gestora parceira, que percebeu que havia algo errado, mas o gestor principal, não se mostrou preocupado ou teve alguma atitude empática: “Você está potencializando os problemas, você está potencializando. Todo mundo tem esse número de alunos, não é? A nossa escola não é única.”
Então não houve nenhum tipo de assessoria por parte dos gestores, revela e ainda expõe uma visão importante para quem enxerga a educação de dentro. Ela atribui o que aconteceu ao excesso de alunos com questões emocionais e também com questões de transtorno de aprendizagem.
“Não é o número de alunos que me atrapalhava e, sim, a qualidade e as características de todos os transtornos que eles apresentavam. Haja vista que, após a minha saída, houve a contratação de outras pessoas que seriam justamente aquilo que eu pedia, uma divisão de pessoas por departamento”.
Que a pesquisa científica e a vivência humana nas escolas possam ser instrumentos reais de transformação.
Porque ouvir de uma pessoa tão fragilizada que “O preconceito é velado porque as pessoas, quando elas dizem que estão com burnout, é como se a responsabilidade, a culpa mesmo, fosse dessa pessoa que a se adoentou e não do ambiente em que ela vive. E isso é bem comum.
Por alguns momentos, eu me senti envergonhada por contar para alguém. Eu cheguei, inclusive, a entrar com uma ação contra a escola, mas eu não tinha muita coisa registrada e aí você acaba não tendo sucesso nessa ação.
O próprio juiz, por incrível que pareça, como eu voltei a trabalhar, porque eu tive de entrar em licença, falou que eu estava bem.
Então, esse preconceito, ele está velado, mas ele existe”, arremata Patricia, a quem agradeço, bem como a Sandra, a coragem de dizer o que passaram e o que sentiram, a fim de colaborar para o entendimento e um aprimoramento estrutural do sistema educacional, que exige adaptação ao meio, ao que acontece com os alunos fora do ambiente escolar, bem como uma ressignificação do que é gerir, com empatia, qualquer unidade que se ensine algo benéfico para o outro.
* Os nomes foram omitidos pra preservar a identidade das entrevistadas.

Descrição Jornalista
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