FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado
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Uncategorized 26/02/2026 18:05

Perfuração recorde de gelo na Antártida permite recriar clima da Terra há 23 milhões de anos

Perfuração recorde de gelo na Antártida permite recriar clima da Terra há 23 milhões de anos

Uma equipe internacional de cientistas realizou uma das mais ambiciosas perfurações já feitas sob o gelo do continente. No domo conhecido como Crary Ice Rise, na margem da Camada de Gelo da Antártida Ocidental, pesquisadores atravessaram 523 metros de gelo e recuperaram um núcleo sedimentar de 228 metros de comprimento — o mais longo já extraído sob uma plataforma glacial.

O material, composto por camadas de lama, cascalho e rochas, funciona como um arquivo geológico contínuo que pode abranger até 23 milhões de anos de história climática da Terra. A iniciativa integra o projeto internacional SWAIS2C (Sensitivity of the West Antarctic Ice Sheet to 2°C), dedicado a avaliar a sensibilidade da camada de gelo da Antártida Ocidental a um aquecimento global de 2°C.

Segundo comunicado compartilhado no dia 17 de fevereiro pelo ETHZ (Instituto Federal de Tecnologia de Zurique), responsável por parte da coordenação científica, o registro sedimentar fornece, pela primeira vez, evidências diretas e abrangentes de como a margem da camada de gelo se comportou em períodos anteriores mais quentes do planeta.
Até agora, as projeções sobre o futuro da região baseavam-se sobretudo em dados de satélite e em registros geológicos coletados nas bordas da camada de gelo, sob plataformas flutuantes e no Mar de Ross.

Risco potencial de elevação do nível do mar

As implicações são significativas. Estimativas científicas indicam que, se a Camada de Gelo da Antártida Ocidental derretesse completamente, o nível médio global dos oceanos poderia subir entre quatro e cinco metros.

Dados recentes de satélite mostram que a região já perde massa em ritmo crescente, mas permanece incerto qual limiar de temperatura poderia desencadear um derretimento acelerado.

Os pesquisadores recuperaram o núcleo de sedimento em um local de perfuração na Antártica Ocidental, localizado a cerca de 700 quilômetros da estação de apoio mais próxima (Base Scott, Nova Zelândia) — Foto: Ana Tovey/SWAIS2C
Os pesquisadores recuperaram o núcleo de sedimento em um local de perfuração na Antártica Ocidental, localizado a cerca de 700 quilômetros da estação de apoio mais próxima (Base Scott, Nova Zelândia) — Foto: Ana Tovey/SWAIS2C

O Acordo de Paris estabelece como meta limitar o aquecimento global a bem menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais, buscando preferencialmente restringi-lo a 1,5°C. O novo núcleo sedimentar contém camadas formadas justamente em períodos em que a temperatura média global esteve significativamente acima desses valores, oferecendo um parâmetro concreto para comparação futura.

“Esse registro fornecerá informações críticas sobre como a Camada de Gelo da Antártida Ocidental e a Plataforma de Gelo de Ross provavelmente responderão a temperaturas acima de 2 °C”, afirma o glaciologista Huw Horgan, co-líder científico do projeto, no comunicado.

Em vídeo divulgado pela equipe, ele reforça a urgência do estudo: trata-se de restringir incertezas sobre impactos que podem afetar praticamente todo o planeta no próximo século.

Indícios de um antigo oceano sob o gelo

A perfuração revelou uma surpreendente diversidade de sedimentos. Algumas camadas são típicas de ambientes sob gelo espesso, outras, porém, sugerem condições de oceano aberto ou margens de plataformas de gelo com desprendimento de icebergs.

Veja como foi feita a operação no vídeo abaixo:

Fragmentos de conchas e fósseis de organismos marinhos dependentes de luz indicam que, em certos momentos do passado, a região esteve livre de gelo, com águas abertas e exposição solar suficiente para sustentar vida marinha.

“Deve ter havido oceano aberto”, afirma Horgan à revista Nature, ao comentar sobre a presença de pequenos fragmentos de conchas em camadas arenosas semelhantes a depósitos de praia.

Embora já houvesse hipóteses de que a região tenha experimentado recuos parciais ou até colapsos da camada de gelo no passado, o momento exato desses eventos permanecia incerto. Agora, segundo a geóloga Molly Patterson, da Binghamton University, a prioridade é determinar quando ocorreram esses recuos e quais fatores ambientais — como temperatura do oceano — impulsionaram as mudanças.

Engenharia em condições extremas

O feito científico foi também um desafio logístico. A equipe de 29 especialistas trabalhou ininterruptamente em turnos e utilizou um sistema de perfuração desenvolvido sob medida. Primeiro, uma sonda de água quente derreteu o gelo até atingir a base; depois, mais de 1.300 metros de tubos foram inseridos para alcançar os sedimentos subjacentes.

Duas tentativas anteriores haviam fracassado por dificuldades técnicas. Até então, os núcleos sedimentares perfurados sob gelo raramente ultrapassavam dez metros de comprimento. Ao superar a marca de 200 metros, os pesquisadores estabeleceram um novo recorde para esse tipo de ambiente extremo.

O núcleo já foi transportado para a Nova Zelândia, onde análises laboratoriais mais precisas deverão refinar sua datação, inicialmente baseada na identificação de microfósseis marinhos encontrados em campo.

A correlação entre essas camadas, as temperaturas globais passadas e os níveis do mar poderá oferecer um dos conjuntos de evidências mais robustos até hoje sobre o comportamento das grandes massas de gelo diante do aquecimento.

Ao decifrar esse arquivo profundo, os cientistas buscam reduzir as incertezas sobre o futuro climático do planeta. Em última instância, acredita-se que a história registrada sob meio quilômetro de gelo antártico pode ajudar a antecipar a velocidade e a magnitude das transformações que moldarão as próximas décadas.

Veja fotos capturadas no local de investigação:

Deu em Galileu
Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista