Alimentos 31/08/2021 09:03
Nutricionistas gordo e antidieta se posicionam contra restrições alimentares
No Dia do Nutricionista, profissionais criticam dietas e afirmam que profissão não serve para moldar corpos

Uma nutricionista antidieta e um nutricionista gordo: o que eles têm em comum além de fugir de estereótipos?
Ambos acreditam que se alimentar bem é mais do que listar nutrientes e ter um corpo magro. Conhecidos nas redes sociais com os perfis Nutrição (Des)Construída e Nutricionista Gordo, Pabyle Flauzino e Erick Cuzziol descontroem a ideia de que a nutrição deve ser atrelada a dietas restritivas e ao emagrecimento.
Para os nutricionistas, a alimentação saudável deve ser prazerosa e, sobretudo, levar em conta contextos culturais, emocionais e socioeconômicos.
“Falar que você tem que comer chia e farinha de amaranto, quando em sua região os alimentos acessíveis são outros, não faz sentido e é opressor”, diz Cuzziol.
“Você não diz que vai comer o carboidrato que a avó fez, mas o bolo. Por que retirar isso da memória afetiva? As pessoas estão listando nutrientes, não se alimentando, e isso não precisa ser desta forma”, afirma Flauzino.
No Dia do Nutricionista, celebrado em 31 de agosto, a CNN conversou com os dois profissionais, que vêm fazendo barulho nas redes sociais ao falar sobre o ‘direito de ser gordo e nutricionista’ e que ‘a função do nutricionista não é modelar corpos’.
Foi com o pseudônimo “Nutricionista Gordo” que Cuzziol resolveu falar sobre nutrição pelo ponto de vista de quem estudou, mas também sentiu na pele como as dietas restritivas nem sempre funcionam.
“Eu ouvia que as pessoas gordas vivem dando desculpas e fui tratado como mentiroso. Eu sou gordo, não queria ser, mas quando entendi o que era ser gordo e a importância de gostar de mim, as coisas mudaram”, conta.
Antes de chegar aos milhares de seguidores explicando sobre ‘comportamento alimentar’, Cuzziol precisou mostrar que tinha o direito de estudar nutrição. Sendo uma pessoa gorda, ele foi alvo de piadas durante a graduação e teve dificuldade para conseguir emprego após se formar.
“Eu ouvia que ser nutricionista e gordo era a mesma coisa que economista falido. Dentista com dente podre. E isso é assustador, porque são profissionais que estudam a obesidade e sabem que ela se manifesta por várias questões, não somente porque a pessoa não come bem ou não se exercita. Há questões genéticas e sociais também”, explica.
Segundo Cuzziol, ao longo dos anos, a ciência descobriu que as pessoas com obesidade têm fatores individuais, como metabolismo, consumo de alimentos e fatores psicológicos, além de fatores externos e ambientais, que não são controlados e devem ser considerados. Por isso mesmo, a orientação alimentar para a obesidade pode ser mais focada no controle de peso do que na questão estética.
Mas não foi só a experiência própria que embasou sua tese de que as dietas não funcionam de forma igual para todos, e que a nutrição se baseia mais em questões comportamentais do que em contagem de calorias. Segundo Cuzziol, cientistas começaram a perceber que havia uma piora no controle de peso após a opção por dietas muito restritivas.
E a conclusão foi alarmante. “Estamos causando obesidade através da dieta. Se eu modifico todos os seus hábitos, e você não consegue sustentá-los, você começa outro processo de ganho de peso”, afirma.
Ele dá como exemplo um estudo publicado no ano passado pelas universidades britânicas de Leeds e Lancaster, que analisou por 10 anos como a mídia inglesa tratava a obesidade. O trabalho concluiu que havia na grande maioria dos relatos a culpabilização da pessoa gorda por sua situação.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram reportagens publicadas de 2008 a 2017 e concluíram que os relatos sobre obesidade não levavam em conta fatores ambientais e a influência da indústria alimentícia em hábitos alimentares, o que ajudou ao longo dos anos a criar um estigma sobre as pessoas gordas.
Outra pesquisa, feita por pesquisadores da King´s College of London, no Reino Unido, e divulgada pela Nature Medicine em 2020, mostra que a estigmatização de pessoas gordas pode ter efeitos sociais devastadores, piorando o acesso delas ao trabalho e à saúde e aumentando a chance de desenvolverem problemas mentais.
“Explicar a lacuna entre as evidências científicas e uma narrativa convencional da obesidade construída em torno de suposições e equívocos não comprovados pode ajudar a reduzir o preconceito de peso e seus efeitos prejudiciais”, escreveram os pesquisadores.
Deu em CNN

Descrição Jornalista
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