FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado
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Economia 14/11/2025 13:53

Metade dos autônomos quer voltar à CLT: estudo revela a nova desilusão com o ‘ser patrão’

Metade dos autônomos quer voltar à CLT: estudo revela a nova desilusão com o ‘ser patrão’

Durante anos, empreender foi tratado como sinônimo de liberdade, um caminho para romper com chefes, horários e limitações. Mas os números mais recentes mostram que a realidade é bem menos romântica.

Um estudo conduzido pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), em parceria com o Vox Populi e o Dieese, revela que boa parte dos autônomos brasileiros sente falta justamente daquilo que a CLT oferece: segurança e previsibilidade.

Dos 3,85 mil entrevistados, 56% dos profissionais que já tiveram carteira assinada afirmaram querer voltar ao regime formal. O dado desmonta o discurso de que a autonomia sempre significa satisfação, trazendo à tona dilemas sobre estabilidade, renda e proteção social.

Mais do que uma questão econômica, o levantamento reflete uma mudança de mentalidade. Em tempos de incerteza, o desejo por vínculos sólidos e garantias trabalhistas volta ao centro do debate e recoloca o emprego formal como símbolo de segurança em meio ao caos do mercado.

Resultados centrais da pesquisa

Os números expõem ambivalências. Embora 53,4% acreditem que a maioria dos brasileiros prefira empreender, o retorno à CLT aparece como desejo consistente entre os autônomos com experiência formal.

No entanto, a busca por previsibilidade convive com críticas a salários baixos e exigências crescentes.

Indicadores de informalidade

O IBGE estima a informalidade em 37,8% dos trabalhadores ocupados. Segundo Sérgio Nobre, presidente nacional da CUT, o principal motivo do aumento é a precarização.

Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese, acrescenta que acreditar que “não vai conseguir pagar as contas” pesa na escolha do assalariado. Em muitos casos, a remuneração formal não cobre as despesas essenciais, o que empurra os trabalhadores para alternativas sem proteção.

Pejotização e autonomia

O pesquisador da Fundação Getulio Vargas, Nelson Marconi, analisa a pejotização crescente entre os menos escolarizados. Ele destaca que a sensação de ganho maior frequentemente decorre de jornadas ampliadas, e a remuneração por hora tende a ficar abaixo do emprego tradicional.

“Muitas vezes é uma ilusão imaginar que esse tipo de serviço garante maior renda. Ganha-se mais porque se trabalha mais, mas a remuneração por hora é menor”, diz.

A autonomia atrai por diferentes razões, mas vem principalmente da necessidade. As justificativas para a motivação revelam expectativas subjetivas e necessidades práticas, conforme mostra a pesquisa:

  • 18% querem fazer o que realmente gosta,.
  • 25% desejam ser o próprio patrão.
  • 35% buscam flexibilidade de horário.

CLT, autônomo e servidor público

A pesquisa aponta um equilíbrio nas ambições imediatas. Um dado interessante é o número de entrevistados que desejam “ter um bom emprego com carteira assinada”, correspondente a 17,8%. Esse percentual quase se equipara aos 17,6% que preferem ser autônomos.

Outro caminho é o sonho do concurso público, compartilhado por 7,6% dos participantes do levantamento.

  • 7,6%: sonho do concurso público, com 48% citando estabilidade como maior atrativo.
  • 17,6%: preferência por ser autônomo.
  • 17,8%: desejo de “ter um bom emprego com carteira assinada”.

Agenda pública e riscos

A CUT discute o tema do chamado “empreendedorismo de necessidade” com o governo federal e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Marconi sugere revisar os critérios do MEI para coibir fraudes e evitar a substituição de vagas formais por arranjos mais baratos.

Ele também alerta para a massa de informais sem contribuição previdenciária, que pressiona o equilíbrio do sistema no futuro. Na visão do especialista, a política pública deve traçar limites mais claros para evitar a “obsolescência da CLT, que carrega uma ampla rede de proteção social”.

Deu em Capitalist
Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista