FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado
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Inteligência Artificial 17/02/2026 12:11

Medo de IA – como a ansiedade com novas tecnologias, às vezes, tem motivo

Medo de IA – como a ansiedade com novas tecnologias, às vezes, tem motivo

O escritor Douglas Adams, conhecido no Brasil principalmente pelo Guia do Mochileiro das Galáxias, era também um colunista experiente, com centenas de textos e reportagens recheados de insights divertidos.

Num desses artigos ele conta ter elaborado “um conjunto de regras que descrevem nossas reações às tecnologias:

1. Tudo o que existe no mundo quando você nasce é normal e comum, e faz parte do funcionamento natural do mundo.

2. Tudo o que é inventado entre os 15 e os 35 anos é novo, empolgante e revolucionário, e você provavelmente pode construir uma carreira nessa área.

3. Tudo o que é inventado depois dos 35 anos vai contra a ordem natural das coisas.”

Ao longo das últimas décadas, desde que ele expôs essa ideia, a regra vinha fazendo sentido.

Até agora. Aparentemente algo mudou com o surgimento dos grandes modelos de linguagem que popularizaram o conceito de inteligência artificial, levando-o ao alcance do grande público.

Ao longo da história humana praticamente toda tecnologia foi objeto de medo e apreensão.

Desde Platão, que via o recurso aos textos escritos como uma ameaça ao exercício da memorização, passando pelos ludistas, que destruíam as máquinas têxteis para tentar salvar seus empregos no século19, até o medo do “bug do milênio “que dominou a sociedade na virada para os anos 2000, são muitos os exemplos de como as novidades nos assustam.

Mas o padrão, de forma geral, sempre se encaixou nas regras de Adams: os mais velhos temiam enquanto os mais jovens se empolgavam.

Agora, provavelmente em função tanto da velocidade com que ganhou escala como da amplitude de seu alcance, as IAs parecem estar superando essa diferença de gerações, causando medo em todo mundo ao mesmo tempo.

Um estudo publicado em 2025 investigou as dimensões dessa ansiedade em pouco mais de mil pessoas, identificando algumas camadas diferentes nessa aflição.

Há quem se sinta desconfortável em qualquer interação com a tecnologia; há quem tema o controle que ela possa vir a exercer sobre os humanos; outros desconfiam que podem estar sendo vigiados; muitos se incomodam com a falta de reflexão sobre os impactos sociais das IAs; e claro que não falta quem tema perder seu emprego – ou até a extinção do trabalho como um todo.

São receios justificados – como de resto, vários medos se mostraram fundamentados ao longo da história.

A facilidade de acesso aos textos de fato reduziu nossa capacidade de memorização; muitos empregos se perderam para automatização; não foram poucas as pessoas que não conseguiram se adaptar às transformações produzidas pelos computadores pessoais.

Mas o mais curioso é que, agora – ao menos nesse estudo – os jovens sentem-se tão receosos quanto os mais velhos.

E não é só: ao contrário do que costumava acontecer com outras tecnologias, o uso recorrente dos grandes modelos de linguagem não reduz a ansiedade: dimensões como o medo de vigilância, angústia com a falta de reflexão sobre impactos sociais das IAs e mesmo o desconforto geral com o uso tendem a aumentar entre pessoas mais acostumadas a utilizá-la.

Creio que isso ocorra porque a interação com as IAs ainda nos leve para uma espécie de vale da estranheza, termo cunhado por Masahiro Mori para descrever nossa reação emocional ao interagir com mecanismos autônomos. Se eles não têm aparência humana não provocam emoções.

À medida que se aproximam da nossa aparência começam a nos encantar, até o ponto em que ficam muito parecidas, mas não o suficiente para nos convencer. A essa altura as reações se invertem, gerando uma estranheza que se mantem até que a semelhança torne os robôs praticamente indistinguíveis de nós.

O que cria um paradoxo, convenhamos. Porque quando elas se tornarem realmente idêntica a nós, talvez aí mesmo que deveríamos ter mais medo do que nunca.

Deu em Galileu
Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista