Religião 05/04/2026 07:58
Marcas escondidas nas paredes do local associado à Última Ceia de Jesus por séculos são decifradas em Jerusalém e revelam inscrições medievais deixadas por peregrinos, nobres europeus e viajantes do Oriente Médio

Uma equipe internacional formada por pesquisadores da Academia Austríaca de Ciências e da Autoridade de Antiguidades de Israel identificou e decifrou, com apoio de técnicas digitais, dezenas de inscrições medievais nas paredes do Cenáculo, em Jerusalém.
O espaço é tradicionalmente associado, no cristianismo, à Última Ceia.
Os registros, desgastados pelo tempo e em muitos casos quase imperceptíveis a olho nu, incluem palavras, desenhos e brasões deixados por peregrinos que passaram pelo local entre os séculos XIII e XV.
Ao todo, a equipe localizou cerca de 40 elementos gráficos no edifício, entre inscrições, símbolos religiosos e cinco brasões atribuídos a famílias nobres europeias.
O material foi analisado no âmbito de um projeto voltado ao corpus epigráfico e heráldico do complexo.
Segundo a tradição cristã, o Cenáculo é o local onde Jesus realizou sua última refeição com os apóstolos antes da crucificação.
O edifício atual, porém, foi erguido no período das Cruzadas, no século XII.

Mesmo assim, o espaço já era venerado por peregrinos desde pelo menos o século IV, de acordo com o estudo.
Ao longo dos séculos, visitantes deixaram marcas nas paredes, e esses vestígios agora servem como fonte para reconstituir trajetórias, origens e práticas de peregrinação.
A pesquisa também reposiciona o debate sobre quem chegava a Jerusalém nesse período.
Durante muito tempo, a historiografia deu mais destaque a fontes produzidas na Europa ocidental.
As inscrições recém-decifradas, no entanto, indicam um quadro mais diverso, com registros ligados a visitantes da Armênia, da Síria, da Sérvia, de áreas de língua alemã e de comunidades cristãs de língua árabe do Oriente Médio.
Entre os achados destacados pela equipe está um brasão ligado à Estíria, na atual Áustria.
Naquele contexto, o arquiduque Frederico III, futuro imperador do Sacro Império Romano-Germânico, viajou à Terra Santa acompanhado por cerca de cem nobres austríacos.
A identificação desse emblema aproxima o vestígio encontrado no local de registros históricos sobre a viagem.
Outra inscrição considerada relevante no estudo é um texto em armênio com a expressão “Natal de 1300”.
Para os autores, o registro pode contribuir para a discussão historiográfica sobre uma possível passagem do rei armênio Het’um II por Jerusalém depois da batalha de Wādī al-Khaznadār, travada na Síria em 1299.
O estudo trata essa inscrição como um elemento de apoio dentro desse debate, e não como prova isolada de todo o episódio.
Além desses exemplos, o levantamento reuniu marcas deixadas por peregrinos de diferentes origens.
Segundo os pesquisadores, o maior grupo de inscrições identificado no local foi produzido por cristãos arabófonos do Oriente Médio.
Esse dado, na avaliação da equipe, ajuda a ampliar a compreensão sobre a composição social e geográfica dos visitantes que chegavam a Jerusalém durante a Idade Média.
Um dos fragmentos analisados traz uma inscrição em árabe com a leitura parcial “…ya al-Ḥalabīya”.
De acordo com os autores, a forma gramatical feminina sugere que o grafite tenha sido deixado por uma peregrina cristã de Aleppo, na atual Síria.

Caso essa leitura se confirme, o registro representa um raro vestígio material de peregrinação feminina no período medieval.
As paredes do Cenáculo também preservaram desenhos e símbolos ligados à tradição cristã.
Entre eles, os pesquisadores identificaram representações de objetos associados à Última Ceia, como um cálice, um prato e um pão redondo com um orifício central.
Esses elementos foram descritos no estudo como parte do repertório devocional deixado por visitantes no espaço sagrado.
Boa parte dessas marcas permaneceu invisível por séculos por causa do desgaste da superfície.
Para recuperar os traços, a equipe usou fotografia multiespectral e uma técnica conhecida como Imagem de Transformação de Reflectância, ou RTI.
O método permite registrar a superfície sob diferentes ângulos de iluminação, o que ajuda a destacar sulcos, riscos e contrastes quase imperceptíveis na observação direta.
Depois da documentação no local, as imagens passaram por análise em laboratório.
Nesse estágio, os registros fotográficos foram combinados digitalmente para tornar as inscrições mais legíveis.
A aplicação dessas técnicas, segundo os pesquisadores, permitiu identificar elementos que não podiam ser distinguidos a olho nu e abriu nova frente de leitura para um espaço histórico já amplamente estudado.
O historiador Ilya Berkovich, integrante da equipe, afirmou em nota divulgada pela Academia Austríaca de Ciências que, quando observadas em conjunto, as inscrições oferecem uma visão singular sobre a origem geográfica dos peregrinos.
Segundo ele, a diversidade apontada pelo material é maior do que a sugerida por parte da pesquisa tradicional, marcada sobretudo por fontes ocidentais.
Os resultados integram a primeira etapa de um projeto mais amplo dedicado às inscrições e aos sinais heráldicos preservados no complexo do Monte Sião.
Participam da iniciativa pesquisadores de Israel, Áustria e Armênia, em uma colaboração que reúne arqueologia, história, epigrafia e documentação digital.
O estudo concentra-se, neste momento, nas paredes do Cenáculo, mas o trabalho poderá avançar sobre outras áreas do conjunto.

As inscrições não funcionam apenas como marcas individuais de presença.
Para os especialistas, elas ajudam a documentar rotas de circulação, vínculos religiosos e formas de mobilidade entre Europa e Oriente Médio na Jerusalém medieval.
Em vez de depender só de crônicas, relatos de viagem ou registros administrativos, a pesquisa acrescenta evidências materiais produzidas pelos próprios peregrinos.
Também nesse ponto o levantamento chama atenção da comunidade acadêmica.
Ao analisar vestígios fragmentados, dispersos e por muito tempo ignorados, o estudo amplia o repertório de fontes disponíveis para compreender como diferentes grupos cristãos se deslocavam até Jerusalém.
O material sugere uma dinâmica mais ampla de circulação no período e reforça a presença de peregrinos de origens diversas no espaço sagrado.
Ao mesmo tempo, o trabalho mostra como técnicas de documentação visual podem alterar a leitura de sítios já conhecidos, sem depender de novas escavações.
Marcas discretas, quase apagadas, passaram a ser tratadas como documentos históricos capazes de acrescentar contexto a debates antigos sobre a cidade, seus visitantes e os usos religiosos do espaço.
Seu em CPG

Descrição Jornalista
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