Olhar o tecido cerebral em um microscópio pela primeira vez foi para Santiago Ramon y Cajal (1852-1934), o pai da neurociência moderna, como entrar numa floresta com centenas de bilhões de árvores.
Segundo o livro The Beautiful Brain, que trata do trabalho de Cajal, a sensação do neurocientista foi de “olhar cada uma das pequenas peças turvas dessas árvores entrelaçadas umas às outras e, após alguns anos disso, tentar escrever um elaborado guia ilustrado da floresta”.
O grupo de cientistas por trás da Iniciativa BRAIN do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos chegou bem perto disso, desenvolvendo um mapa detalhado do cérebro humano.
O resultado foi divulgado por meio de 21 estudos publicados nos periódicos Science, Science Advances e Science Translational Medicine na última quinta-feira (12)
Esses trabalhos são o resultado de cinco anos de pesquisa e podem ajudar no estudo de doenças, cognição e na compreensão do que nos torna humanos.
O programa tem como objetivo catalogar tipos de células cerebrais em humanos, primatas não humanos e camundongos para aprender mais sobre os mecanismos celulares por trás de doenças cerebrais mal compreendidas.
“Não é só um atlas. É realmente abrir todo um novo campo, onde você pode olhar para altas resoluções celulares nos cérebros de espécies onde não foi possível no passado”, disse o neurocientista Ed Lein, do Instituto para a Ciência do Cérebro um dos autores do estudo, em entrevista ao MIT Technology Review.
Mapa cerebral
Para desenvolver o mapa, as equipes de pesquisa pegaram pequenos pedaços congelados do tecido cerebral de um biobanco (onde amostras biológicas para uso em pesquisas são armazenadas), os trituravam e perfilaram os tipos de células.
“Cada tipo de célula tem uma série coerente de genes que normalmente usam. E você pode medir esses genes e, em seguida, agrupar todos os tipos de células com base no padrão geral de expressão do gene”, explicou Lein.
Até o momento, os pesquisadores identificaram mais de 3,3 mil tipos de células em adultos e indivíduos em desenvolvimento e, conforme a resolução aumenta, como eles pretendem que aconteça, é provável que descubram muitos outros.
“Essa é de longe a descrição mais completa do cérebro humano nesse nível, e a primeira descrição de várias regiões cerebrais.”
Segundo o cientista, apesar de a neurociência ter focado a maior parte de seus esforços de pesquisa nas camadas mais exteriores do cérebro, que são responsáveis pela memória, aprendizado e linguagem, a maior diversidade celular está em estruturas evolucionárias antigas dentro das profundezas do cérebro.
Observou-se que várias regiões do cérebro compartilham tipos de células, mas em proporções diferentes. Além disso, há categorias que só existem em certas partes do órgão.
O time da pesquisadora Kimberly Siletti, do hospital University Medical Center Utrecht, da Holanda, por exemplo, sequenciou o RNA de mais de três milhões de células individuais de 106 partes do cérebro.
De acordo com a revista Nature, eles identificaram 461 categorias de neurônios que, por sua vez, tinham mais de 3 mil subtipos.
A Iniciativa BRAIN, que custou US$ 500 milhões, continua a todo vapor.
A próxima etapa do projeto é aprofundar ainda mais a cobertura dos cérebros de humanos e primatas não humanos em adultos e indivíduos em desenvolvimento.
Deu em Galileu


