Bebidas 20/11/2025 12:12
Há anos, cientistas se perguntam por que gostamos de beber álcool. A resposta está nos macacos

Há mais de duas décadas, Robert Dudley se perguntou como era possível que o ser humano gostasse de álcool. Em 2014, o biólogo evolucionista da Universidade da Califórnia, em Berkeley, publicou “El mono borracho”, livro em que explorava as raízes evolutivas dessa atração universal pela bebida.
Segundo Dudley, o gosto dos primatas por frutas fermentadas — ricas em açúcares e com um leve teor alcoólico — estaria na origem desse comportamento. O desafio, como em grande parte das hipóteses da biologia evolutiva, era encontrar provas.
Agora, algumas evidências começam a surgir. A revista Science Advances publicou um estudo que mostra que chimpanzés selvagens consomem diariamente o equivalente alcoólico a uma ou duas taças de vinho humanas. Isso indica que a exposição ao álcool é regular — e “provavelmente” também era no passado da nossa espécie, como sugeria Dudley.
Mas como os cientistas descobriram isso?
A equipe analisou as frutas consumidas por chimpanzés selvagens em Uganda e na Costa do Marfim. Identificaram que as 21 espécies avaliadas apresentavam, em média, uma concentração de 0,3% de álcool.
Considerando que esses animais ingerem cerca de 4,5 quilos de frutas por dia, a quantidade de etanol consumida supera os 14 gramas presentes em uma dose padrão nos Estados Unidos.
“Quando ajustamos pelo peso corporal — cerca de 40 quilos nos chimpanzés, em comparação com 70 nos humanos —, a exposição equivale a quase duas taças”, explicou à agência SINC Aleksey Maro, autor principal do estudo. É verdade que, como o consumo ocorre ao longo do dia, os pesquisadores não encontraram sinais de embriaguez nos chimpanzés.
Mas isso significa que beber álcool é algo “natural”? Essa é uma confusão comum quando surgem explicações baseadas na evolução — e, evidentemente, não é bem assim. Para começar, não existe nada que seja “natural” em si.
A distinção entre natural e artificial tem pouca sustentação científica, filosófica ou social. Chegamos a um ponto em que praticamente tudo é artificial.
Ainda assim, há incertezas. O mundo mudou muito desde então. Embora a hipótese ajude a entender a origem do gosto pelo álcool em diferentes sociedades humanas, a exposição constante a bebidas de alta concentração alcoólica — como ocorre atualmente — não se compara à dos nossos ancestrais.
Portanto, é possível que nosso apreço pelo álcool tenha uma base evolutiva, mas o consumo excessivo de etanol e os problemas de saúde que ele provoca são outra história — e muito mais perigosa.
Deu em MSN

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