Dinheiro 29/09/2026 19:01
Fim das bets pode injetar bilhões em supermercados e farmácias

A restrição às apostas online pode fazer com que parte do dinheiro que hoje vai para as bets seja direcionada para outros setores da economia. Entre os possíveis beneficiados estão supermercados, farmácias, lojas de roupas e empresas ligadas ao consumo das famílias.
Porém isso não significa que todo esse dinheiro vai voltar para o comércio. Uma parte pode ser usada para pagar dívidas ou até migrar para sites de apostas ilegais.
Um relatório do BTG Pactual estima que as bets movimentaram R$ 37 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025. Já o Goldman Sachs calcula que a parcela do consumo das famílias destinada aos jogos passou de 0,3% em 2018 para 4,4% em 2025.
De acordo com o BTG, o mercado brasileiro de apostas movimentou R$ 36,9 bilhões em receita bruta em 2025.
O número considera o dinheiro apostado depois do desconto dos prêmios pagos aos jogadores, mas não representa o lucro das empresas.
Ao todo, cerca de 25,2 milhões de brasileiros adultos apostaram no ano passado. O gasto médio foi de R$ 122 por mês por pessoa.
Os gastos dos usuários recorrentes provavelmente são substancialmente maiores, uma vez que muitos apostadores cadastrados participam apenas ocasionalmente.BTG Pactual
Com o crescimento do setor, as apostas passaram a ocupar uma parcela maior do orçamento das famílias.
Conforme dados do IBGE, o faturamento de casas de apostas chegou a representar até 0,7% da renda nacional e até 0,6% do consumo das famílias em 2025.
Para o BTG, as apostas já se tornaram uma categoria relevante de gasto das famílias.
Um dos pontos que mais chama a atenção é o perfil de quem aposta. Segundo levantamento do DataSenado, a maior parte dos apostadores tem renda mensal de até dois salários mínimos.
O BTG avalia que as apostas podem ter agravado o endividamento de parte dessas famílias, que já enfrentam juros altos no país.
O banco, ressalta que não é possível colocar a piora da situação financeira das famílias apenas na conta das bets.
Não é possível identificar as apostas como a única causa da deterioração financeira, considerando juros elevados, expansão do crédito (…), mas existem evidências de que elas agravaram o estresse financeiro para uma parcela das famílias.
O Goldman Sachs também identificou forte crescimento das apostas no orçamento doméstico. Segundo o banco, a participação das bets no consumo mensal das famílias passou de 0,3% em 2018 para 4,4% no ano passado.
Com esse crescimento, o Brasil chegou ao quinto maior mercado de apostas do mundo , de acordo com a análise divulgada pelo banco no mês de agosto.
Dados do Sicredi revelam que a inadimplência entre clientes que apostam é 40% maior do que entre aqueles que não apostam.
Se parte do dinheiro que hoje vai para as apostas deixar de ser gasto nesse mercado, empresas do varejo podem sentir algum efeito positivo.
Para Felipe Cima, analista de renda variável da Manchester Investimentos, supermercados e empresas ligadas ao consumo básico podem ser algumas das primeiras beneficiadas.
Assaí e Grupo Mateus talvez sejam as empresas que mais podem se beneficiar no curto prazo se essa renda começar a sobrar.Felipe Cima, analista de renda variável da Manchester Investimentos, supermercados
Conforme ele, a Hapvida também poderia sentir algum impacto positivo caso as famílias passem a direcionar mais dinheiro para produtos e serviços básicos.
A ideia é que parte do dinheiro das apostas volte para o consumo de produtos como alimentos, roupas, eletroeletrônicos e opções de lazer. esse movimento não deve acontecer de uma hora para outra.
Matheus Jaconeli, analista de investimentos e portfólio da ZIIN DTVM, afirma que o desempenho das empresas na Bolsa ainda depende de outros fatores, principalmente da situação da economia e do cenário político.
É preciso considerar que a performance imediata dos ativos dos setores citados depende mais da conjuntura macroeconômica e, pela situação atual, do ciclo político. Mas, com o tempo, restrições mais firmes em relação às apostas esportivas podem beneficiar os setores citados.Matheus Jaconeli, analista de investimentos e portfólio da ZIIN DTVM,
Mesmo que o consumo aumente, as empresas ainda enfrentam outro problema: os juros altos.
Segundo Gustavo Bertotti, responsável pela área de renda variável da Fami Capital, empresas que dependem do consumo das famílias continuam em uma situação financeira delicada.
Na Bolsa, as empresas que dependem do consumo doméstico (cíclicas) estão em uma situação delicada em termos de fundamentos, com altas despesas financeiras e um endividamento elevado.Gustavo Bertotti, responsável pela área de renda variável da Fami Capital,
Para ele, a recuperação de empresas de moda e eletrodomésticos deve acontecer aos poucos.
Elas dependem fortemente de capital de giro e continuarão enfrentando juros altos.
Antes de voltar para as compras, o dinheiro que deixar de ser gasto com apostas pode ter outro destino: o pagamento de dívidas.
Nesse cenário, bancos e financeiras podem ser beneficiados com uma possível queda da inadimplência.
A lógica é, se as famílias tiverem mais dinheiro disponível, elas podem conseguir pagar parte das contas atrasadas e melhorar sua situação financeira.
Isso se deve ao fato de que a melhora da capacidade de pagamento das famílias resulta em uma redução da inadimplência e em uma melhora da qualidade das carteiras de crédito.Karen Focchesatto, consultora de investimentos da Unicred Porto Alegre,
Ela ainda ressalta, que não dá para considerar que todo o dinheiro das apostas vai automaticamente para o consumo, para o pagamento de dívidas ou para a poupança.
O eventual benefício tende a aparecer de forma gradual, e os principais indicadores a serem acompanhados seriam consumo, inadimplência, concessão de crédito e comprometimento da renda das famílias.Karen Focchesatto, consultora de investimentos da Unicred Porto Alegre.
Para as famílias com mais dividas, a redução dos gastos com apostas pode primeiro ajudar a colocar as contas em dia. Só depois o dinheiro poderia voltar para o consumo.
Existe ainda outro possível destino para esse dinheiro: o mercado ilegal de apostas.
De acordo com a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), o fim das plataformas autorizadas poderia fazer com que a participação do mercado clandestino chegasse a 82% do volume de apostas no Brasil.
Antes das restrições, o mercado regulado contava com mais de 180 marcas autorizadas.
As empresas também passaram a adotar medidas de controle. Entre elas estão o bloqueio de cerca de 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do BPC e os mecanismos de autoexclusão, que permitem que o próprio apostador peça para ser impedido de acessar as plataformas.
Segundo a ANJL, o Brasil poderia deixar de arrecadar entre R$ 3,6 bilhões e R$ 7,4 bilhões por ano em impostos caso o mercado regulado seja interrompido.
A associação estima ainda que o mercado ilegal já movimenta entre R$ 26 bilhões e R$ 40 bilhões por ano sem pagar tributos.
Em manifesto, a ANJL afirma que parte dos apostadores pode migrar para plataformas clandestinas, que não seguem as mesmas regras de fiscalização e proteção.
O mercado ilegal vai continuar sem controle de CPF, sem bloqueio de beneficiários de programas sociais, sem proteção de jogadores problemáticos, sem autoexclusão e sem responder ao Estado brasileiro. Menores de idade, hoje protegidos pela regulação, ficarão expostos no mercado ilegal.Associação Nacional de Jogos e Loterias

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