Cultura 16/02/2026 11:54
“Eventos da cultura estão sendo engolidos pela cultura do evento”

O historiador e escritor Luiz Antonio Simas nasceu, literalmente, em um terreiro.
Neto de uma ialorixá alagoana que se mudou para o Rio de Janeiro, onde abriu um terreiro, o autor de Samba de enredo — História e arte, escrito em parceria com Alberto Mussa, e O corpo encantado das ruas e Maracanã — Quando a cidade era terreiro, Simas gosta de falar em religiões de matriz europeia para se referir ao cristianismo e diz que a fé é um problema do Ocidente, que a inventou.
“Fui a clássica criança de terreiro. O que você experiencia como criança se naturaliza na sua vida. E um elemento básico da minha vida, da minha formação, da minha realidade foi esse: cresci sendo civilizado pelas culturas de terreiro, a ponto de costumar dizer uma pequena provocação: a fé foi um problema existencial e filosófico que o Ocidente colocou e vocês que se virem com ela.”
Pensador e historiador da música, em especial o samba, e das manifestações culturais brasileiras, com olhar afetuoso para o carnaval, Simas acredita que a folia é um momento de vivência da experiência humana coletiva, mas passou por mudanças nos últimos anos que reconfiguraram alguns de seus aspectos.
No Sambódromo, por exemplo, há excesso de empreendedorismo e falta de povo. Nas ruas, o movimento cresceu com bloquinhos e cordões, mas o folião já não quer mais se esconder atrás da fantasia, como antigamente, e necessita ser visto e identificado. “O carnaval é um evento da cultura, tem uma organicidade que é muito importante.
Uma escola, um bloco, não existem porque desfilam, eles desfilam porque existem. Isso faz uma diferença enorme. Só que estamos vivendo uma fase em que os eventos da cultura estão sendo engolidos pela cultura do evento”, diz o pesquisador, que é um dos autores do samba-enredo Lonã Ifá Lukumi (ou enredo sobre o oráculo Ifá), que embalou o desfile do carnaval de 2026 da escola Paraíso do Tuiuti.
Para Simas, os sambas-enredo devem ser analisados como documentos históricos e estão profundamente ligados às conjunturas brasileiras da época em que foram criados.
Ele diz, por exemplo, que o início do século 21 foi de abundância de dinheiro para as escolas de samba.
O país passava por momento de prosperidade econômica e grandes corporações investiram em patrocínios que renderam até sambas-enredo, caso da Varig e da Tam Linhas Aéreas, ambas temas dos sambas da Beija-Flor e do Salgueiro no carnaval de 2002.
“Uma disputa pelo mercado de propagandas da aviação civil. Isso cria uma situação paradoxal: ao mesmo tempo que o dinheiro estava jorrando, a qualidade dos enredos caía, e isso repercute na qualidade do samba- enredo, que é feito sob encomenda”, diz Simas.
A crise que veio entre 2015 e 2017 teve o efeito oposto: a situação financeira das escolas piorou, mas a qualidade dos sambas melhorou.
“O Brasil mergulhou numa crise política e econômica, a crise das commodities, o processo de impeachment da Dilma, depois Temer e Bolsonaro, o Rio teve um prefeito, Marcelo Crivella, de designação religiosa que demoniza explicitamente o carnaval, ele se vangloriava de ter sido exorcista na África. Imagina! Paradoxalmente, isso melhorou a qualidade dos enredos, porque as escolas passaram a apostar em enredos com densidade cultural maior, e isso repercute na melhoria dos sambas”, explica.
Em entrevista, Luiz Antonio Simas reflete sobre o carnaval de hoje, as contradições entre a festa e as denominações religiosas que a condenam e a importância das manifestações populares para a cultura brasileira.
Como você percebe o carnaval e o samba nos dias de hoje? Ele se descaracterizou pelas pressões do mercado e da internet ou permanece vital?
Olha, é muito curioso porque, a rigor, carnaval e samba são manifestações diferentes da cultura brasileira que eventualmente se encontram. O primeiro detalhe curioso é que o carnaval é uma data, e essa data comporta uma pluralidade de festas. Tem uma pluralidade impressionante de carnavais ao longo da história do Brasil. O próprio Rio de Janeiro não tem um carnaval, tem vários. E o modelo de carnaval das escolas de samba é distinto do carnaval de rua. E dentro do carnaval de rua tem modelos distintos que vão de um bloco espontâneo até o fenômeno dos megablocos. Hoje, o carnaval de rua, sobretudo, de tudo quanto é lugar, está diante de três questões: tem que lidar com a ordem pública, com o mercado e, ao mesmo tempo, com o avanço de algumas designações religiosas no Brasil, sobretudo do campo pentecostal, que buscam desqualificar o carnaval a partir do velho discurso da festa do pecado, da festa que dilui laços familiares. Mas acho que continua sendo essa pluralidade, continua sendo muito importante para refletir sobre o Brasil, a cultura brasileira e a sociedade.
O que você considera deletério e o que considera alentador nas manifestações populares do carnaval na atualidade?
Acho que deletéria é a confusão entre a cultura do evento e o evento da cultura. Parece a mesma coisa, mas não é. É uma proposta para refletir sobre cultura popular. O carnaval é um evento da cultura, tem uma organicidade que é muito importante. Uma escola, um bloco, não existe porque desfila, ele desfila porque existe. Isso faz uma diferença enorme. Só que estamos vivendo uma fase em que os eventos da cultura estão sendo engolidos pela cultura do evento, que dimensiona tudo a partir do entretenimento ligeiro, da financização, do retorno ligado ao capital. Acho importante que a gente tenha cuidado com isso porque estamos lidando com manifestações que são eventos da cultura a partir da cultura do evento.
Qual é o desafio das escolas de samba?
Em relação ao Rio de Janeiro, um desafio enorme hoje é você popularizar as passarelas do samba, o Sambódromo, porque a gente passa por um processo que chamo de camarotização, aliás, camarotização da vida, porque o estádio de futebol é elitizado também. O Sambódromo precisa ser popularizado porque não adianta só fazer ensaio técnico e o povão comparecer e, na hora do desfile tem um excesso de camarotes e arquibancadas vendidas a partir do interesse de empresas do turismo que afastam o público do carnaval mais orgânico da avenida. Não é que não tem que ter camarote, tem trabalhadores que dependem disso, mas acho que um desafio hoje é reconectar a escola de samba com suas comunidades. E essa reconexão só vai ser plena quando o espaço do desfile voltar a ser predominantemente popular.
Analisados como documentos históricos, o que os sambas-enredo dizem sobre o Brasil?
Em relação às escolas de samba, e isso repercute no samba-enredo, para mim, o pior momento da história das escolas de samba é a virada do século 20 para 21. Foi o momento em que a economia brasileira esteve muito bem, no fim do governo FHC, primeiro mandato de Lula, e as escolas de samba tiveram um fluxo de capital muito forte. É a grande onda dos enredos patrocinados, empresas que patrocinavam enredos, cidades que patrocinavam enredos porque queriam se vender como destinos turísticos. O documento histórico não se restringe ao oficial, um filme, uma canção, um samba-enredo, caricatura, charge é um documento. E o samba-enredo, muitas vezes, contou histórias que a história oficial não tem interesse de contar. E nesse sentido, acho que a crise fez bem para as escolas de samba e consequentemente passar os enredos e sambas-enredo.
Existe um contraponto entre carnaval e trabalho?
A rigor, a gente tem uma disciplina dos corpos que é estabelecida pelo tempo de relógio. De certa maneira, os corpos domesticados pelo tempo do relógio e do trabalho acabam transgredindo essa lógica numa dimensão de libertação vinculada à festa, um momento de restauração da soberania desses corpos. Ao mesmo tempo, temos os trabalhadores da folia, então, chamar o carnaval de uma festa de desocupados é uma besteira, porque a cadeia produtiva movimenta economias em tudo quanto é lugar. A essa disciplina domesticadora do corpo pelo trabalho, pelo relógio, pela produtividade, o carnaval oferece um contraponto muito forte. A festa tem uma importância existencial, primeiro, é um momento de reconstrução de sentido coletivo de mundo diante de uma realidade impiedosa que individualiza as experiências humanas. E é um grande debate sobre o uso da cidade, o uso dos corpos.
Como o racismo religioso afeta o carnaval?
Afeta muito. O carnaval não é uma festa que se origina a partir das culturas da diáspora africana, ele chega com a colonização portuguesa, mas os povos da diáspora transformam o carnaval em celebração de reconstrução de sentido coletivo de vida. O carnaval tem isso: reconstrução do sentido coletivo de vida presente nos maracatus, afoxés, escolas de samba, blocos, cordões. E, de certa maneira, temos um racismo religioso que se manifesta na desqualificação dos bens simbólicos dos povos que não são brancos. Existe um debate sobre temática afro religiosa nas escolas de samba. E ninguem, quando se declara cristão, fala de religião de matrizes europeias. Por quê? Porque se naturaliza a ideia de que o cristianismo com recorte europeu é a crença natural e isso joga tudo que é diferente para o campo do pitoresco, do culturalmente interessante. Isso é manifestação do racismo religioso. A gente naturaliza isso e tenta passar a impressão do universalismo da cristandade quando, a rigor, a gente pode fazer a provocação e falar das religiões de matrizes europeias.
Como as redes sociais alteram a forma de brincar o carnaval?
Hoje, você tem bloco de carnaval e camarote de escola de samba como ambiente instagramável. Eu gostaria muito de ver estudos sobre o impacto das redes sociais no carnaval. O carnaval de rua sempre foi ligado a uma ideia da máscara, da revelação, do esconderijo. Mas é curioso como as redes estão criando um certo tipo de carnaval que não é mais o do ‘não me encontram’ mas o do ‘saibam onde estou’. Não é mais o da máscara, é o do saiba que quem está fantasiado dessa maneira sou eu. Curioso isso. Tenho reparado a ocorrência desse tipo de coisa. Uma vez estava trocando uma mensagem com Aldir Blanc — que tem aquela frase (da música Fantasia) que diz que a fantasia é aquilo que você tira no carnaval e usa o resto do ano —e falei pra ele ‘é curioso, porque estamos numa circunstância que não sei mais se estamos postando porque vivemos ou se estamos vivendo porque postamos’. Não é juízo de valor, é uma constatação. As redes estão proporcionando uma transição entre a festa do não me ache para a festa do me encontre de qualquer maneira. Pierrô ficava frustrado quando reconhecido e, hoje, a frustração é quando você sai fantasiado e ninguém sabe quem é.

Descrição Jornalista
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