Na primeira entrevista após ser reeleito com votação recorde (78,11%) prefeito do Recife, João Campos (PSB) disse que as eleições mostraram que a esquerda deve ter um discurso mais focado em realizações do que em teses ideológicas.
Sobre a possibilidade de concorrer a governador em 2026, o filho do ex-governador Eduardo Campos desconversou e falou que seu foco é a capital pernambucana.
Ele também contou ter telefonado para o presidente Lula para agradecer por ter ajudado na construção de sua aliança e dizer que está ao lado dele.
Os resultados mostram uma força do bolsonarismo em geral no Brasil. Como o senhor, mesmo sendo de outro campo, conseguiu ter uma votação expressiva?
As pessoas esperam que o prefeito acorde cedo, trabalhe muito e, ao final do dia, as pessoas sintam que a vida delas está melhorando. Então, eu de fato dediquei a minha vida a trabalhar pelo Recife. O que a gente colhe aqui é um resultado desse trabalho. De um ponto de vista político, eu digo sempre que o chefe do Executivo tem que ter o papel de juntar as pessoas. A gente não pode estar se apegando à divisão. Conseguimos passar esse sentimento. Uma gestão que entregou muito, que buscou juntar e unir o Recife. As pessoas esperam cada vez da política uma capacidade de entrega, de fazer com que atenda às expectativas.
Mas qual a lição que as urnas trazem para a esquerda em geral?
Depende do contexto local. Mas eu acredito que as pessoas estão muito mais sedentas por um projeto de cidade que de fato se realize, como quando eu faço o dobro de vagas de creche, obra de hospital, expansão de serviços de saúde, transformação digital, obra de infraestrutura com recorde na periferia, grandes obras de mobilidade. As pessoas querem que a cidade melhore. Diria que a gente precisa ter um discurso mais próximo da vida das pessoas do que necessariamente teses de posicionamento político. A cidade é um local do concreto, é onde a calçada existe, a iluminação existe, a rua existe. Tem que ter uma capacidade concreta de fazer e ter um cuidado com uma disputa de narrativa de campo ideológico em que na prática as pessoas dizem: “Tudo bem, mas quem é que vai fazer o que eu preciso para minha cidade?”.
A composição da sua chapa, com a escolha do (seu ex-chefe de gabinete) Victor Marques para ser vice, indicou para muita gente que o seu plano é disputar o governo estadual em 2026. É isso mesmo?
Meu plano era ser reeleito no Recife. Tenho uma gratidão gigante pela minha cidade. Eu acho que a votação foi do tamanho da generosidade do povo do Recife. E a única forma de retribuir isso é trabalhando. Sou grato por ter sido o prefeito mais jovem da história das capitais e agora chegar à maior votação da história da minha cidade. Meu pai dizia que não podemos começar nem terminar uma eleição colocando outra no meio. Espero poder trabalhar muito pelo Recife.
Seu pai, Eduardo Campos, morreu quando disputava a eleição para presidente. Seu sonho é um dia ser presidente do Brasil?
Até por uma questão pessoal, por ter perdido meu pai de forma trágica, eu aprendi a viver um dia de cada vez. Então, meus planos são poder, depois de ter a maior votação da história do Recife, mais uma vez ser o prefeito que mais fez na história do Recife. Meu foco é absoluto na nossa cidade.
Por que o Lula não apareceu na sua campanha, seja em comícios ou no horário eleitoral?
De maneira nenhuma (ele não apareceu). Sempre fiz questão, inclusive no debate (da TV Globo) eu disse que tinha uma posição política, tinha posição ideológica, mas eu não estou aqui para dividir as pessoas. Diferentemente de candidaturas que entram para marcar uma posição, eu estou para juntar todo mundo. Fiz a maior frente desta eleição. O programa de televisão foi uma grande prestação de contas com a presença das pessoas da cidade, principalmente. A gente não teve uma aparição de figura da política de maneira geral, incluindo o próprio vice-presidente Geraldo Alckmin, que é do meu partido. Tinha tanta coisa para mostrar. E sou grato ao presidente Lula. Inclusive, eu fiz questão de telefonar e agradecer por ele ter sido parte dessa construção política. E dizer que a gente está junto. Ele sabe isso.
Um dos temas desta eleição municipal foi o Pablo Marçal, que teve inclusive muitos embates com a sua namorada, Tabata Amaral. Como o mundo político deve lidar com figuras como ele?
A primeira coisa é saber que a democracia e o próprio direito à livre expressão e manifestação têm limites. Uma preocupação da vida democrática é não achar que a linha da normalidade pode ser estendida. Dizer: foi só uma vez, é um episódio isolado. Tem que ter limite nas coisas. E o que aparenta é que ele transgrediu esses limites. E falando sobre a eleição de São Paulo, eu pude ver Tabata fazendo uma campanha com muita capacidade de posicionamento, coragem, força. Alguém que com certeza sai maior do que entrou.
Mas a Justiça Eleitoral deve agir em relação ao Marçal?
Com certeza. A lei é para ser cumprida, não é para ser opinada. Todo candidato está sujeito a ela. Se normalizar isso, você vai criando uma fragilidade democrática. Tem um regramento. Como se você estivesse jogando um jogo de futebol e, no meio do jogo, o jogador começasse a utilizar a mão. Tenho confiança na Justiça Eleitoral.

