Economia 20/08/2026 07:17
Empresas preveem crescimento menor e até recessão para 2027, com juro alto e inadimplência

A pouco mais de quatro meses da virada do ano, grandes empresas e bancos do Ibovespa preveem um cenário pouco animador para a economia do país em 2027.
Segundo levantamento feito pela Folha de S. Paulo com as 76 companhias listadas no índice da Bolsa, a expectativa de parte delas é que a economia cresça menos no próximo ano e que o juro alto afete ainda mais as operações na comparação com 2026. Os dados levam em conta o conteúdo das teleconferências de resultados do segundo trimestre deste ano.
O aumento do endividamento das famílias tem respingado até nas contas básicas, como água e luz. Empresas do setor, como CPFL Energia e Copasa, têm intensificado o corte no fornecimento de serviços.
“Há um desafio no pagamento das contas de energia, que reflete na última linha no aumento da nossa inadimplência”, apontou Gustavo Estrela, CEO da CPFL Energia, ao comentar a alta do indicador: de 0,82%, no segundo trimestre de 2025, para 1,08% este ano. “Nossa principal ferramenta de controle de inadimplência são as ações de corte”, afirmou.
Para a Copasa, que também classifica como desafiador o nível de endividamento das famílias, a estratégia tem sido também adotar mecanismos antecipados de cobrança e “mexer nas réguas de negociação”, afirmou o CEO, Cleyson Jacomini.
“Além dos pagamentos eletrônicos, como Google Pay e Apple Pay, estamos trabalhando para ampliar a forma de execução e aumentar a vigilância e a ação de cobrança, com cortes no caso de inadimplência, para reverter essa tendência.”
O cenário, segundo Marcelo Kfoury, professor de economia do Insper, mostra como o alto endividamento vira uma bola de neve mesmo em meio às mínimas históricas de desemprego.
“Alguém começa a pagar cheque especial, rotativo do cartão de crédito, e não consegue pagar as contas que tem. A pessoa recebe R$ 2.000 por mês, paga R$ 1.000 de prestação, e o resto sobra para comer, e não sobra para pagar energia e nem água. Ela vai escolhendo o que ela paga”, diz Kfoury.
No setor varejista, Lojas Renner e Assaí falam em pressão no consumo diante da Selic (taxa básica de juros) maior do que a esperada. CPFL Energia e Copasa, de serviços básicos, mencionam calotes em contas de água e luz diante do endividamento recorde das famílias.
Alfredo Setubal, CEO da holding Itaúsa, chegou a falar em “pequena recessão”, fazendo coro a Armínio Fraga, economista e ex-presidente do Banco Central, no início do mês. A holding agrupa empresas de diversos setores, como bancos (Itaú Unibanco), calçados (Alpargatas), concessões rodoviárias (Motiva) e saneamento (Aegea).
Segundo o executivo, a economia tem desacelerado “apesar de todos os incentivos que o governo tem dado para o aumento de consumo e para renegociações de dívidas”.
“Isso se refletirá em um menor consumo das famílias, que já apresentam um nível de endividamento bastante elevado. Estamos orientando as empresas investidas para ter um orçamento mais moderado e mais cauteloso também”, disse.
O setor bancário também deu sinais de alerta na divulgação dos resultados. BTG Pactual e Santander indicaram que o ambiente mais complexo de 2027 está se tornando um consenso no mercado, com a inadimplência do crédito como principal ponto de atenção.
“O cenário mais desafiador de 2027 está se tornando um consenso. O nível de endividamento do governo e das famílias é muito alto, a taxa de juros está muito alta, e vai chegar um momento em que tudo isso vai impactar a economia”, afirmou Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual.
Nas projeções do Boletim Focus desta semana, a Selic terminará 2027 em 12% ao ano, e o PIB, com crescimento de 1,5%. Para 2026, os especialistas consultados seguem vendo expansão de 1,98%.
Empresas do varejo também indicaram cautela. O Assaí Atacadista enxerga um “cenário de pressão de consumo” que deve perdurar e reajustou a rota diante da Selic elevada.
“A companhia está muito focada em desalavancar, então reduzimos níveis de investimento e seguramos uma série de projetos [devido à Selic alta]”, disse Belmiro de Figueiredo Gomes, CEO do grupo.

Descrição Jornalista
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