Homem 21/11/2025 17:55
Depressão masculina: uma condição silenciosa e cercada por tabus

A depressão masculina é uma condição médica séria e que exige atenção. No entanto, ainda existem tabus e estigmas em relação aos cuidados voltados para a saúde mental dos homens, o que leva muitos a ignorar sintomas e evitar buscar tratamento.
Para compreender melhor os sinais que devem servir de alerta e o que se deve fazer ao percebê-los, o Portal iG conversou com Ana Luísa Bolívar, psicóloga clínica e especialista em dependência química formada pela PUC Minas.
Segundo a psicóloga, embora os sintomas clássicos da depressão possam atingir homens e mulheres, eles se manifestam de forma particular no público masculino.
“Os sintomas clássicos da depressão podem envolver tristeza persistente, perda de prazer, fadiga, alterações no sono e apetite, e podem aparecer em ambos os sexos. No entanto, nos homens, esses sinais frequentemente se manifestam de maneira menos explícita emocionalmente e mais comportamental. Muitos dizem temer demonstrar por vergonha”, afirma.
A especialista também conta que é comum observar sinais de irritabilidade, impaciência, isolamento social, queda no desempenho profissional, aumento do consumo de álcool ou outras substâncias e comportamentos de risco.
“Em vez de expressar tristeza, muitos homens relatam ‘falta de motivação’, ‘cansaço constante’u ‘vazio’. Essa diferença ocorre porque, culturalmente, a expressão da vulnerabilidade emocional ainda é vista como sinal de fraqueza, o que leva muitos homens a expressarem o sofrimento por vias mais indiretas”, complementa.
Uma das barreiras mais densas para o tratamento é a dificuldade masculina em admitir o sofrimento. Para a psicóloga, isso se relaciona com as normas sociais de gênero.
“Desde cedo, muitos homens são ensinados a conter emoções, a “dar conta de tudo” e a evitar demonstrar fragilidade. Essa formação emocional faz com que o sofrimento psíquico seja mascarado, racionalizado ou negado”, explica.
Ana Luísa destaca que essa construção social leva, na prática, a um diagnóstico mais tardio. Isso porque muitos homens só buscam ajuda quando o quadro já está avançado, geralmente motivados por sintomas físicos como dores, insônia, fadiga ou problemas sexuais, e não pelo reconhecimento do sofrimento emocional.
E ainda alerta: “Esse atraso pode impactar na eficácia do tratamento e aumentar o risco de complicações”.
Ela ainda acrescenta que a chamada “masculinidade tradicional” reforça valores como autossuficiência, controle e invulnerabilidade. Quando esses padrões são internalizados de forma rígida, dificultam que o homem reconheça suas próprias necessidades emocionais.
A ideia de sempre ser forte, provedor ou racional pode gerar intensos conflitos internos diante de perdas, frustrações e até crises pessoais.
Segundo a psicóloga, “essa tensão entre o ideal de masculinidade e a experiência real de sofrimento emocional cria um terreno fértil para o desenvolvimento da depressão, além de reforçar o isolamento. Culturalmente, ainda há pouca valorização da saúde mental masculina, o que torna o processo de pedir ajuda mais complexo”.
A depressão masculina frequentemente aparece disfarçada em comportamentos que servem como mecanismos de defesa emocionais.
Entre eles, estão agressividade ou irritabilidade excessiva, uso abusivo de álcool ou drogas, excesso de trabalho ou esforço para “se ocupar sempre”, isolamento social, impulsividade ou atitudes autodestrutivas e humor sarcástico ou autodepreciativo.
“Essas ‘máscaras’ acabam reforçando o sofrimento, pois mantêm o homem distante de vínculos de apoio e de ajuda profissional”, alerta a psicóloga.
Os tratamentos mais eficazes envolvem psicoterapia baseada em evidências, como abordagens interpessoais ou psicodinâmicas e, quando necessário, acompanhamento psiquiátrico e medicação.
Para homens resistentes à terapia, Ana Luísa diz que “o primeiro passo é reduzir o estigma, apresentar a terapia como um espaço de autoconhecimento e estratégia de vida, não apenas como um “tratamento para doentes””.
Ela também indica apresentar exemplos de homens que buscaram ajuda e tiveram melhora, o que pode ser um estímulo importante. Reforçar a ideia de autonomia também faz diferença: o terapeuta não impõe nada, mas colabora.
“Essa compreensão ajuda o homem a enxergar a terapia como um processo ativo de cuidado, e não como um sinal de fragilidade”, afirma a especialista.
Familiares, amigos e colegas também são um pilar importante para ajudar a identificar os sinais da depressão masculina e oferecer apoio adequado.
A psicóloga orienta observar mudanças comportamentais e abordar o tema com empatia e respeito.
“Em vez de questionar ‘por que você está assim?’, é mais eficaz dizer algo como: ‘Percebi que você anda diferente, e me preocupo com você. Quer conversar?’. Evitar conselhos simplistas (‘reaja’, ‘seja forte’), em vez disso, é importante oferecer presença e escuta genuína. Pequenos gestos, como convidar para atividades, oferecer companhia, ou mesmo validar o que ele sente, podem ter grande impacto”.
Além disso, Ana Luísa reforça que, diante de sinais de risco como comentários sobre morte ou sentimento profundo de desesperança, é essencial encaminhar imediatamente para ajuda profissional e, se necessário, acionar serviços de emergência.
Deu em IG

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