Violência 21/07/2021 01:08
Depoimentos sobre violência policial nos protestos sacodem Cuba
Presos nas mobilizações denunciam abusos nas ruas e nas delegacias e agora temem penas duras. “Vários policiais me pegaram, me deram socos, mas não foi lá onde me espancaram de verdade”

Dez dias depois da onda de protestos que sacudiram Cuba, o Governo continua sem dar um número oficial de detidos, embora várias fontes afirmam que são centenas, a maioria jovens.
Pouco a pouco alguns dos presos em 11 e 12 de julho foram saindo às ruas, alguns com medidas de prisão domiciliar e aguardando julgamento e outros sem acusações.
Vários deram depoimentos sobre o ocorrido e denunciaram abusos policiais e violência excessiva nas ruas e nas delegacias.
Durante os protestos do maleconazo, em 1994, centenas de pessoas foram levadas a julgamento sumário e receberam sentenças de até um ano de prisão por desordem pública, e se espera que algo semelhante aconteça agora.
Os incidentes deste verão foram muito maiores do que os de 1994, restritos a Havana.
Nesta ocasião, foi uma verdadeira onda de manifestações que estremeceu cidades e vilarejos em todo o país, da qual participaram milhares de pessoas.
Embora a internet continue cortada ou funcionando mal, aos poucos foram circulando vídeos nas redes sociais que documentam os protestos, na maioria pacíficos, mas também outros que derivaram em distúrbios e saques de lojas. As autoridades afirmam que mais de 50 estabelecimentos foram vandalizados e advertem que os autores serão julgados com todo o rigor.
Em um desses vídeos, gravados pelos próprios manifestantes com seus celulares, pode-se ver como um comandante histórico, Ramiro Valdés, que foi duas vezes ministro do Interior, foi vaiado e obrigado a se retirar em meio a gritos de “liberdade” na localidade de Palma Soriano, no leste do país.
Na cidade de Cárdenas, em Matanzas, epicentro da pandemia neste momento, as pessoas viraram carros da polícia e até o veículo do secretário do Partido Comunista, algo absolutamente inédito.
Há um denominador comum na maioria dos vídeos divulgados: a dureza da resposta policial e de civis apoiadores do Governo armados com paus, cenas de violência contra os manifestantes que estremeceram muitos cubanos.
Ao lado disso, começaram a aparecer os primeiros depoimentos de jovens detidos que já foram libertados. Teve grande impacto nas redes sociais o relato de Leonardo Romero Negrín, um estudante universitário de 22 anos que foi preso no dia 11 de julho em frente ao Capitólio, onde o protesto foi maior.
Romero conta que veio em defesa de um ex-aluno seu que estava sendo chutado pela polícia por filmar com seu celular.
“Vários policiais me pegaram, me deram uma chave, me deram socos, mas não foi lá onde me espancaram de verdade. Eles me levaram para a estação de Dragones, que fica a exatamente um quarteirão de distância, e quando entramos me jogaram no chão e quatro pessoas me chutaram em todas as partes. Cobri o rosto com os antebraços e continuaram a me dar chutes, por isso estou com o antebraço inchado, um médico viu. Também dói uma costela, não chegou a quebrar, mas dói, e o médico viu”.
Romero Negrín já tinha sido preso no dia 30 de abril por se manifestar na calle Obispo com um cartaz que dizia “Socialismo sim, repressão não”, e estava sob uma medida cautelar, por isso, diz ele em um artigo publicado no veículo digital La Joven Cuba, evitou participar do protesto, mas mesmo assim foi preso. Na delegacia, conta o estudante, foi levado a um pequeno pátio.
“Um policial foi com um sarrafo de madeira branca e uma câmera na outra mão, que era de um jornalista estatal que estava lá e viu de tudo. Não quero envolvê-lo, mas é um jornalista da revista Alma Mater que viu exatamente tudo o que me fizeram. O policial bateu várias vezes com o sarrafo nas minhas pernas, ainda tenho as cicatrizes. Quando eu ia sair de lá veio outro oficial, o 03912 da estação de Dragones, e mandou duas pessoas me segurarem, agarrou-me pelos cabelos com as duas mãos e disse: ‘Por ser mercenário!’ e me deu uma cabeçada no nariz, quase desmaiei e continuaram me batendo antes de me levarem para a estação de Zanja”.
Deu em El País

Descrição Jornalista
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