Pandemia 29/08/2021 11:41
Como covid-19 deve acelerar epidemia de demência no mundo
"Tem gente que aprendeu a falar um novo idioma. Eu não fiz nada. Fiquei parada, olhando para as paredes. Subi as escadas e me perguntei, o que vim fazer aqui em cima?"

“O que eu queria mesmo era tomar um café com meus amigos, porque eu sei que ficar sozinha está me deixando um pouco louca. (…) Não tem ninguém para tirar os pensamentos maus, os pensamentos confusos, da minha cabeça. Normalmente, você pensa, ‘meu Deus, eu vou morrer’, ou, ‘meus netos vão morrer se forem para a escola’. Um papo rápido com um amigo vai fazer você perceber que você está falando bobagem. Mas eu não tenho tido isso, então, as coisas estão saindo completamente do controle.”
“Tem gente que aprendeu a falar um novo idioma. Eu não fiz nada. Fiquei parada, olhando para as paredes. Subi as escadas e me perguntei, o que vim fazer aqui em cima?”
É dessa forma que a renomada atriz e escritora britânica Sheila Hancock, de 88 anos, descreve a experiência de viver em isolamento durante a pandemia de covid-19 em entrevista à Rádio 4 da BBC.
Muita gente pelo mundo talvez se identifique com o depoimento de Hancock. Mas, na idade da atriz, a ausência de contato social e de estímulos cognitivos pode ter consequências graves. Em alguns casos, ela é um fator de risco para o desenvolvimento de demência.
Já existe uma epidemia de demência no mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), há hoje 50 milhões de pessoas vivendo com demência no planeta, e esse número deve ultrapassar 150 milhões em 2050.
Em entrevista à BBC News Brasil, o neurologista especializado em demência e professor da Universidade São Camilo Fábio Porto descreve o impacto negativo da pandemia sobre a saúde cognitiva de seus pacientes e conta o que os estudos mais recentes nos dizem sobre o assunto.
Mas o médico não nos traz apenas más notícias. Porto recomenda formas de se mitigar o problema e lembra que a pandemia nos oferece, além das dificuldades, uma oportunidade única de aprender.
E ressalta que a sociedade precisa começar a falar sobre a demência. “Não pode mais ser tabu falar sobre esse assunto.”
O ser humano é um animal social, não foi programado para viver em isolamento. Então, a obrigação de nos isolarmos causa grande estresse, diz Fábio Porto à BBC News Brasil.
Sobre a experiência de isolamento relatada pela atriz Sheila Hancock no início desta reportagem, o especialista pondera:
“Não é possível que isso não seja ruim para o cérebro. Quebrar o contato, não ter nenhum estímulo, nenhum desafio cognitivo. Isso não é natural, e as consequências acontecem.”
Como especialista em demência, Porto tem podido observar de perto o impacto do isolamento sobre os mais velhos.
“Tem sido muito amargo para os idosos. Eu trabalho com idosos. E existe uma coisa que o idoso tem em menor quantidade: são as reservas cognitivas.”
Mas como assim?
A reserva cognitiva é como um banco de ideias, conhecimentos, saberes e afetos que acumulamos ao longo da vida. E, quanto mais acumulamos, mais temos recursos para resistir quando uma doença degenerativa se instala no nosso cérebro.
Isso acontece porque, a cada novo conhecimento que adquirimos, abrem-se novas sinapses, ou seja, novas ligações entre os neurônios. As sinapses são como estradas. Quanto mais estradas, mais possibilidades de alcançarmos nosso destino.
Por exemplo, quando uma pessoa com bom vocabulário não consegue encontrar uma palavra, substitui essa palavra por outra.
Mas na população idosa, as reservas cognitivas são mais frágeis, podem ser “gastas” muito mais rapidamente, explica Porto.
“Vários idosos que estavam bem, porque caminhavam, faziam fisioterapia, faziam pilates, pararam. De uma hora para outra. Frequentemente, esses pacientes descompensam do ponto de vista neuropsiquiátrico”, ele afirma.
“O que eu mais tenho visto aqui, e eu tenho um viés porque eu trabalho com demência, são famílias dizendo, olha, o meu pai, a minha mãe, estava bem até começar a pandemia. Na pandemia, comecei a ver que a memória estava ruim.”
Isso não quer dizer que todos esses pacientes desenvolveram demência após o início da pandemia, ele ressalta.
“Ou a família começou a ficar mais tempo junto com aquele idoso e percebeu um problema que já existia, ou a pessoa teve de mudar sua rotina drasticamente e deixou de fazer um monte de coisas que estimulavam a cognição e promoviam a saúde.”
Deu na BBC

Descrição Jornalista
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