Em janeiro de 2026, um trem saiu de Bela Vista, no Piauí, carregado com 946 toneladas de sorgo e chegou a Iguatu, no Ceará, em 16 horas e 34 minutos.
Não era uma viagem de demonstração. Foi o segundo teste de transporte comissionado da Ferrovia Transnordestina, modalidade em que trechos já concluídos operam antes da entrega formal da obra.
O primeiro havia ocorrido em dezembro de 2025, com mil toneladas de milho no mesmo trajeto, concluído em 12 horas e 46 minutos. O cliente foi a Tijuca Alimentos, empresa do setor avícola cearense.
Duas viagens, dois tipos de carga e um trecho que, até pouco tempo atrás, existia apenas no papel. A Transnordestina é uma obra de grande escala, retomada como projeto federal na segunda metade dos anos 1990 e pela primeira vez, já transporta carga real.
1.206 quilômetros em três estados
A linha principal soma 1.206 quilômetros, além de 134 quilômetros em linhas secundárias. O traçado liga Eliseu Martins, no Piauí, ao Porto do Pecém, no Ceará, atravessando 53 municípios em três estados. Desse total, 608 quilômetros estão em território cearense, passando por 28 municípios.
O investimento estimado é de R$ 15 bilhões, dos quais R$ 11,5 bilhões já foram aplicados. Em março de 2026, o Fundo de Desenvolvimento do Nordeste aprovou liberação de R$ 152,4 milhões para o trecho entre Ceará e Piauí.
A fase 1, entre Paes Landim e o Pecém, alcançou 81% de avanço físico. São 727 quilômetros concluídos e outros 326 em execução, distribuídos em oito frentes de trabalho no Ceará. A previsão de entrega é 2027. Em fevereiro, chegaram ao Pecém 33.900 toneladas de trilhos produzidos na China para concluir a ferrovia.O trecho que destravou a obra
Em dezembro de 2025, o Ceará passou a ter todas as frentes de obra em execução simultânea. Os 97 quilômetros entre Baturité e Caucaia foram liberados, completando o ciclo de canteiros ativos no estado.
O segmento final, entre Caucaia e o Porto do Pecém, é o mais complexo de todo o traçado. Diferente dos demais, precisa ser encaixado na infraestrutura portuária já em funcionamento, o que exige obras em paralelo com a operação cotidiana do porto.
A conta logística
Em 2025, o Porto do Pecém movimentou 20,9 milhões de toneladas, crescimento de 7% sobre o ano anterior, além de 706.509 contêineres, alta de 27% e recorde histórico.
Com a ferrovia em operação plena, a projeção é que esse volume alcance até 28 milhões de toneladas por ano. Só no primeiro ano completo, cerca de 6 milhões de toneladas devem chegar ao porto diretamente pelo corredor ferroviário. O que muda não é só o volume. É o custo de chegar até lá.
Hoje, a produção do interior percorre centenas de quilômetros por rodovia até o litoral. No transporte ferroviário, o custo por tonelada-quilômetro pode ser até quatro vezes menor. No Nordeste, esse número tem peso adicional: 69% das rodovias são classificadas como regulares, ruins ou péssimas, segundo a Pesquisa CNT de Rodovias 2024, o que encarece em cerca de 31% os custos operacionais do frete.
Com terminais previstos ao longo do traçado cearense, como por exemplo em Missão Velha, Iguatu e Quixeramobim, a carga não precisa mais percorrer a distância inteira por caminhão. Embarca próximo à origem segue pela ferrovia.
Em Quixeramobim, será implantado um terminal aduaneiro com 362 hectares, batizado de Porto Seco José Dias de Macêdo. O complexo permite que cargas sejam desembaraçadas no interior antes de seguir ao porto, reduzindo tempo e custo no trecho final. O investimento estimado é de R$ 1 bilhão, com primeira fase de R$ 350 milhões prevista para agosto de 2026 e geração de cerca de 1.300 empregos.
O elo que ancora o projeto
O Porto do Pecém conta com uma vantagem geográfica importante: está mais próximo da Europa e da América do Norte do que qualquer grande porto do Sul ou Sudeste.
A travessia até a Espanha leva em torno de oito dias, contra 12 a 14 dias saindo de Santos.
Faltava, porém, conexão direta com o interior produtor. Com a Transnordestina, o porto passa a se integrar às áreas agrícolas do Piauí e do Ceará. Na etapa seguinte, a ligação com a Ferrovia Norte-Sul estende esse corredor até o Matopiba, região que já responde por 19% da produção nacional de soja e cresceu 84% nos últimos dez anos.
Em 2027, quando a fase 1 estiver concluída, o mesmo percurso que hoje leva dias de caminhão vai levar horas de trem.

