Amazônia 13/02/2026 17:25
Civilização amazônica perdida desmente mito da floresta intocada

Há décadas a Bacia Amazônica é considerada um ícone da natureza intocada. Novos achados arqueológicos e scanners aéreos modernos, porém, contrariam a ideia de que ali só havia vida selvagem.
Entre as savanas e pântanos da planície beniana, região nas terras baixas da Bolívia também conhecida como Llanos de Moxos, esconde-se uma paisagem cultural que revoluciona o conhecimento histórico sobre a floresta tropical.
Por muito tempo, cientistas acreditaram que eram poucas as sociedades caçadoras e coletoras que habitaram a planície beniana. Isso porque a região no norte boliviano, uma savana de 100 mil quilômetros quadrados, não é muito propícia para isso. A área está exposta a inundações o ano inteiro, e o solo é pobre em nutrientes.
Há mais ou menos um século o etnólogo sueco Erland Nordenskiöld e, depois dele, o geógrafo americano William Denevan descobriram ali vestígios de ocupação humana. Seus habitantes deixaram marcas decisivas na paisagem habitada há mais de mil anos: aquedutos, campos de cultivo, entre outros.
A hipótese foi claramente comprovada por projetos de pesquisa bolivianos e alemães.
Munidos de uma tecnologia de sensoriamento remoto a laser que permite medir distâncias e criar mapas tridimensionais detalhados de um ambiente, pesquisadores revelaram a verdadeira dimensão desses assentamentos: estruturas de defesa, plataformas em formato de pirâmide e centros ritualísticos, integrados a um sistema de irrigação inteligente.
O mapeamento a laser motivou uma expedição multidisciplinar a uma área até então pouco pesquisada da planície beniana em 2021, sob a liderança da professora e arqueóloga Carla Jaimes Betancourt, da Universidade de Bonn, na Alemanha.
Os focos da expedição eram os grandes lagos Rogaguado e Ginebra, parte do Río Yata, zona úmida protegida de importância internacional reconhecida pela Unesco sob a Convenção de Ramsar.
Debaixo dos campos e da água, os pesquisadores descobriram resquícios de campos elevados, sistemas de canais sofisticados e fartos depósitos de cerâmica – todos testemunhos de uma paisagem cultural criada e mantida ao longo de gerações.
Medições de radiocarbono e análises botânicas comprovam uma alimentação diversa, com milho, leguminosas e diversos tipos de palmeiras – e complementada pela caça e pela pesca, principalmente leões-marinhos, tucunarés e piramboias, além de répteis como jacarés e tartarugas, e mamíferos como porquinhos-da-índia, pacas e tatus.
O escaneamento com tecnologia LiDAR e datações de radiocarbono comprovam assentamentos subsequentes na região desde por volta do ano 600 até 1400 d.C.
Os habitantes souberam, por séculos, usar a dinâmica sazonal do Rio Amazonas a seu favor . “Em vez de dominar a natureza, os antigos habitantes do Amazonas trabalhavam com os ritmos [do rio] e aproveitavam inundações sazonais”, afirma Betancourt em um artigo no periódico científico Frontiers in Environmental Archaeology.
Ainda hoje a região é habitada por povos cayubaba e movima. Ali eles plantam arroz, mandioca, banana, cana-de-açúcar e outras culturas, além de criar gado. Sua presença de longa data e seus conhecimentos mantêm viva uma herança biocultural em que a diversidade ecológica e cultural por séculos se desenvolveram juntas, segundo Betancourt.
“Numa era em que o desmatamento, a agricultura industrial e as mudanças climáticas ameaçam a integridade do Amazonas, paisagens como Rogaguado e Ginebra oferecem mais do que meros conhecimentos arqueológicos; elas oferecem lições de sustentabilidade”, argumenta a arqueóloga.
Ela não se refere apenas aos habitantes da planície beniana. Em muitas áreas da Bacia do Amazonas há comunidades e povos ameaçados pela expansão do agronegócio, pelo desmatamento e pelas mudanças climáticas. Isso vale tanto para as comunidades já conhecidas quanto para os cerca de 180 povos isolados que entidades de defesa dos direitos como a Survival International afirmam viver só no lado brasileiro da Bacia do Amazonas.
Os achados arqueológicos da planície beniana não trazem à tona apenas resquícios do passado, mas revelam também um contínuo biocultural duradouro, caracterizado por uma interação cuidadosamente ajustada entre seres humanos, plantas e animais, afirma Betancourt.
As sociedades compreendiam a dinâmica das enchentes sazonais e a aproveitavam por meio de condução estratégica da água e de estratégias de cultivo diversas.
Para Betancourt, esse conhecimento nos lembra que a resiliência nasce da diversidade – de diferentes formas de vida, espécies e perspectivas. Por isso, argumenta, quem deseja preservar a floresta tropical precisa também proteger a memória cultural e os direitos de seus guardiões.
Deu em DW Brasil

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