Como destaca a NASA, naquele dia, a capital amazonense registrou uma qualidade do ar extremamente ruim, com concentrações de partículas finas (PM 2,5) superiores a 135 microgramas por metro cúbico — a segunda pior classificação em um índice regional de qualidade do ar.
A fumaça afetou a rotina da cidade, que tem mais de 2 milhões de habitantes, provocando o fechamento de escolas e o cancelamento de eventos e atividades esportivas infantis.
O efeito dominó do El Niño
Segundo Douglas Morton, cientista do Centro de Voos Espaciais Goddard, da NASA, os incêndios registrados na Amazônia fazem parte de uma espécie de efeito dominó que ocorre em regiões tropicais durante episódios de El Niño.
O fenômeno altera os padrões de chuva e favorece condições de seca em diferentes partes do planeta. Nesse processo, o aumento das queimadas começa próximo à Linha do Equador, com incêndios em áreas de turfa na Indonésia, antes de atingir regiões da Amazônia.
Morton e pesquisadores de outras instituições descreveram esse comportamento em um estudo publicado em 2017, após a intensa temporada de incêndios associada ao El Niño de 2015 e 2016. O mesmo padrão também foi observado em 2023.
Em 2026, a sequência voltou a se repetir. Desde agosto, a Indonésia enfrenta secas, incêndios e grandes quantidades de fumaça. Agora, o aumento das queimadas nos estados do Pará e Amazonas indica que o fogo chegou à segunda etapa desse processo. “Agora, na Amazônia, estamos vendo a segunda peça do dominó cair”, afirmou Morton, em comunicado destacado pela NASA.
As previsões dos pesquisadores indicam que a próxima onda de incêndios poderá atingir, entre novembro e dezembro, os estados de Roraima, o norte do Pará e o Amapá, além de regiões da Venezuela, Guiana e Suriname. Já entre agosto e setembro de 2027, o risco de seca e incêndios deverá atingir seu pico em áreas do sul da Amazônia brasileira e do Paraguai.
Por que a floresta está tão vulnerável?
Embora o El Niño contribua para intensificar a seca, a maioria dos incêndios registrados na Amazônia tem origem humana. Segundo Morton, menos de 1% das queimadas na região são provocadas por raios, devido à elevada umidade característica da floresta.
Muitos dos grandes incêndios começaram como queimadas utilizadas para limpar pastagens ou retirar restos de plantações. No entanto, com a vegetação extremamente seca, o fogo escapou do controle e passou a se espalhar pelo sub-bosque, a camada de vegetação localizada abaixo das copas das árvores.
Outro fator preocupante é que algumas das áreas atingidas já haviam queimado durante os episódios de El Niño de 2015 e 2023. De acordo com Morton, os incêndios anteriores danificaram parcialmente as árvores e degradaram a floresta, tornando a vegetação remanescente ainda mais vulnerável ao fogo.
Além disso, os incêndios florestais provocam danos ecológicos especialmente graves na Amazônia, já que a maioria das espécies que vivem nesse ambiente não está adaptada à ocorrência de fogo.
Incêndios passam despercebidos
O monitoramento dos incêndios também enfrenta dificuldades. Uma análise de observações por satélite indica que existem entre 50 e 70 incêndios fora de controle apenas na região de Santarém, segundo Shane Coffield, pesquisador da Universidade de Maryland e do Centro Goddard, da NASA.
Coffield utiliza dados do instrumento VIIRS (Conjunto de Radiômetros de Imagem Visível e Infravermelha), presente em satélites de observação da Terra, para identificar incêndios que não aparecem nos registros convencionais do Sistema de Informações de Incêndios para Gestão de Recursos (FIRMS), da NASA.
Na região de Santarém, sua equipe identificou aproximadamente 40% mais incêndios do que os contabilizados pelo sistema. Isso acontece porque a fumaça densa, as nuvens e a cobertura das árvores podem impedir que os sensores detectem os sinais infravermelhos emitidos pelo fogo, especialmente quando as chamas se espalham com menor intensidade pelo sub-bosque.
Os pesquisadores pretendem compartilhar as localizações desses possíveis incêndios com cientistas do MapBiomas, rede formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia que monitora mudanças no uso da terra e a ocorrência de queimadas na Amazônia.
Para Morton, os incêndios nas regiões de Manaus e Santarém devem continuar até a chegada da estação chuvosa, prevista para dezembro de 2026 ou janeiro de 2027. Enquanto isso, ainda há tempo para que outras regiões se preparem para o avanço das queimadas. “Dada a intensidade deste El Niño, este realmente é o ano para as pessoas evitarem queimadas a todo custo”, alertou o cientista.

