Uncategorized 31/05/2021 10:36
Brasil tem fila de 60 mil à espera de cirurgias cardiovasculares
Situação é agravada por uma crise no fornecimento de materiais essenciais para essas cirurgias

Desde outubro do ano passado, a ajudante de cabeleireiro Rosilda da Silva Magalhães, de 55 anos, está com os exames prontos para fazer uma cirurgia para a troca de duas válvulas cardíacas e aguarda o chamado do hospital.
Enquanto espera, tem episódios frequentes de tontura e mal-estar.
Ela está entre os cerca de 60 mil pacientes com doenças cardiovasculares diretamente afetados pela pandemia de Covid-19 que tiveram procedimentos suspensos ou adiados porque leitos estavam ocupados com infectados pela doença.
A situação é agravada por uma crise no fornecimento de materiais essenciais para essas cirurgias. Com a alta do dólar e a defasagem na Tabela SUS, fornecedores têm dificuldade de repassar os produtos sem prejuízo, e hospitais da rede pública nem sempre conseguem repor a diferença para garantir as compras, o que já resulta em desabastecimento de itens em 52% das unidades que fazem o serviço, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV).
“A pandemia simplesmente represou as cirurgias cardiovasculares. Normalmente, a gente faz de 95 mil a 100 mil por ano e, no ano passado, fizemos menos de 40 mil. Então, tem mais ou menos 60 mil cirurgias eletivas que estão represadas. Elas não são de urgência, mas o problema é que estão ficando para trás”, disse Eduardo Rocha, presidente da SBCCV.
“Além disso, teve o impacto tributário, o dólar disparou e muitos produtos são importados”, completou.
A entidade tem alertado sociedades médicas e instituições ligadas à indústria desde o fim do ano passado, e passou a se deparar com o apagão de materiais em janeiro deste ano. “Começaram a faltar alguns produtos, como válvulas cardíacas, oxigenadores e cânulas para poder operar dentro do coração. São usados em cirurgias de ponte de safena, correção de defeitos congênitos de adultos e crianças, trocas de válvulas. E para cirurgia cardíaca de peito aberto.”
A retomada dos procedimentos eletivos não amorteceu o problema, pois esbarrou em outra questão que preocupou o país neste ano: a escassez de sedativos, analgésicos e bloqueadores, medicamentos do chamado kit intubação, que também são usados em cirurgias cardiovasculares. “Tivemos um primeiro trimestre com UTIs ocupadas, sem o kit intubação e isso é muito grave. Mesmo quem conseguir assistência pode ter o quadro agravado e muita gente vai morrer antes de ter assistência adequada. Estamos muito preocupados.”
Rosilda precisa trocar as válvulas mitral e aórtica e chegou a ter uma previsão de cirurgia para dezembro. Enquanto a data não é marcada, sofre com os impactos do problema de saúde.
“Não consigo andar na rua de máscara, tenho tontura e preciso parar e sentar. Até hoje, ninguém me ligou. Era para fazer no Hospital Evangélico, aqui em Belo Horizonte. Tem a falta de alguma coisa para o procedimento, mas não falam diretamente.”
Em nota, o hospital confirmou a situação. “Praticamente, toda a linha de materiais da cirurgia cardíaca não está sendo atendida pelos fornecedores. Desde janeiro de 2021, os fornecedores informaram sobre a dificuldade de atender os hospitais com os valores da tabela do SUS, sendo necessário uma complementação de valores, que hoje é inviável para os hospitais filantrópicos custearem.”
A fila tem, atualmente, 34 pessoas. Para resolver a situação, o hospital relatou o quadro para a Secretaria Municipal da Saúde e para o Ministério Público, solicitando “até mesmo encaminhamento desses pacientes para outros hospitais que tenham materiais disponíveis”.
Deu na CNN

Descrição Jornalista
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