FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado
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Saúde 08/05/2022 11:00

Com tabela do SUS defasada, despesas das famílias superam gastos do governo com saúde

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam perda bilionária de recursos por causa do sistema de financiamento

Com tabela do SUS defasada, despesas das famílias superam gastos do governo com saúde

Com a defasagem da tabela de procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS), usada para os serviços hospitalares prestados pelos estabelecimentos conveniados à rede pública de saúde, as despesas das famílias superam os gastos do governo para a área, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os gastos com o consumo final de bens e serviços de saúde no Brasil atingiram R$ 711,4 bilhões em 2019, início do mandato de Jair Bolsonaro (PL).

Desse total, R$ 283,6 bilhões (3,8 do PIB) foram despesas do governo e R$ 427,8 bilhões (5,8% do PIB), de famílias e instituições sem fins lucrativos a serviço das famílias.

Segundo o IBGE, a despesa per capita com o consumo de bens e serviços de saúde, na ocasião, foi de R$ 2.035,60 para famílias e de R$ 1.349,60 para o governo. O principal gasto das famílias foi com serviços de saúde pública, que incluem despesas com médicos e planos de saúde — correspondente a 67,5% do total das despesas de consumo final de saúde.

O serviço público conta com defasagem na tabela de procedimentos do SUS e especialistas criticam o modelo de financiamento de recursos destinados para a área.

De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), mais de 1.500 procedimentos hospitalares estão defasados — e a lista poderia ser ainda maior, se considerados os atendimentos ambulatoriais, não apontados no levantamento.

A perda acumulada nos honorários médicos em determinados procedimentos chegou a quase 1.300%, aponta a estimativa do órgão, feita pela última vez em 2015.

Segundo o levantamento, o médico recebia R$ 10 por cada consulta ambulatorial realizada no SUS.

Os honorários médicos para o tratamento de doenças do fígado, como hepatite ou cirrose, chegam a apenas R$ 59,70, divididos pelo tempo médio de oito dias de internação do paciente.

Ao fim do tratamento, corresponde a uma diária de R$ 7,46. De 2008 a 2014, a média diária de pagamento teve reajuste de apenas R$ 0,35. No final da comparação, pelos índices de inflação acumulados no período, hoje estaria, no mínimo, em R$ 10,50.

A tabela de procedimento do SUS lista, por exemplo, os valores de remuneração de quase 5 mil procedimentos médicos, que vão desde atendimento em ambulatório até cirurgias mais complexas, como transplante de coração.

Além da defasagem de décadas na tabela do SUS, especialistas criticam ainda o sistema de financiamento de recursos, dividido atualmente entre os três entes federativos — União, estados e municípios —, e citam perdas milionárias ocasionadas a partir da Emenda à Constituição 95/2016, editada durante o governo de Michel Temer (MDB).

O texto instituiu no país um novo regime fiscal e impôs um teto para os gastos até 2036. Durante o período, as despesas públicas poderão variar apenas conforme a inflação acumulada no período de um ano.

Se os efeitos das políticas de austeridade fiscal na área da saúde proporcionaram um financiamento aquém do adequado para suportar a demanda registrada no SUS, com a emenda do teto de gastos, especialistas apontam subfinanciamento.

Uma tabela que será apresentada em julho pela Comissão de Orçamento e Financiamento do Conselho Nacional de Saúde (CNS) aponta que a emenda do teto de gastos fez com que o sistema público perdesse quase R$ 37 bilhões de recursos em saúde desde que foi promulgada.

Participam do estudo Francisco Funcia, Bruno Moretti, Rodrigo Benevides, Mariana Mello, Erika Aragão e Carlos Ocke-Reis.

Se em 2019 o governo tivesse aplicado o mesmo montante que aplicou em 2017 — 15% da receita corrente líquida —, o Ministério da Saúde teria um orçamento de cerca de R$ 142 bilhões, e não R$ 122 bilhões de fato aplicados.

Ou seja, houve encolhimento de R$ 20 bilhões apenas naquela ocasião, segundo o estudo.

Deu em R7

Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista