Sem categoria 09/09/2013 08:57
Medo da violência afastou classe média dos protestos
Deu na Valor
Por Daniele Madureira, Marina Falcão e Alessandra Saraiva |
De São Paulo e do Rio
O novo perfil de manifestações sociais, com menor volume de pessoas e maior frequência de ações violentas entre os que protestam e a polícia, tende a afastar a classe média desse tipo de ato. Foi o que ocorreu em 7 de setembro e o que pode vir a ser observado nos próximos eventos do gênero, na opinião de cientistas sociais ouvidos pelo Valor.
Para o sociólogo e cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Paulo Baía, a violência continuamente divulgada nos atos desestimula adesões. “Nos protestos de sábado, estavam presentes os grupos mais violentos, não somente entre os manifestantes, mas também entre as forças institucionais”, disse. “Só quem vai aos protestos agora são aqueles que valorizam o confronto, a violência como forma de proteger sua representação”, disse, acrescentando que a disposição, nos atos em junho, era diferente. “Eram pessoas movidas por um sentimento de mudar o país”, avaliou.
Cláudio Couto, cientista político e professor do curso de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), acredita que a menor participação popular nos protestos era esperada.
“Ninguém se mobiliza o ano inteiro, há um refluxo normal nesse tipo de manifestação”, disse. A tendência, então, é que os mais radicais permaneçam. No Rio, tanto os manifestantes, mais agressivos, quanto a polícia, pouco preparada, afastaram os cidadãos comuns, que desejavam apenas expressar sua opinião. “A resposta das forças institucionais no Rio foi mais violenta”, afirmou. “Há pouca habilidade da polícia local para lidar com esse tipo de ato”.
Para Túlio Velho Barreto, cientista político da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), de Recife, o ideário anarquista do grupo Black Blocs, um dos organizadores das manifestações nas redes sociais, ganhou força em um país em que há uma crise de representação dos partidos.
“A crise do paradigma de esquerda é mundial, mas no Brasil se agrava porque os partidos são frouxos e pouco programáticos”, disse.
Citando o caso recente da absolvição do deputado Natan Donadon, Barreto disse que população brasileira sofre de um acúmulo de impunidade e cinismo na atividade política no Brasil.
“Há uma descrença generalizada da atividade política dentro do partido. O que não é necessariamente bom. Até hoje, não se fez democracia sem partidos”, afirmou.
No Recife, conta Barreto, os protestos contaram com a participação de pequenos grupos. Algumas pessoas reunidas na Praça do Derby, centro do Recife, entraram em confronto com a polícia. “Eles usaram máscaras, foram abordados por policiais e se recusaram a se identificar”, afirmou. Um outro grupo tentou se articular pelas redes sociais para sair sem roupa pelas ruas. “A Secretaria de Defesa social já tinha se manifestado dizendo que iria prender todo mundo que saísse nu. O movimento perdeu força”.

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