Uncategorized 04/10/2021 11:00
Noruega fará túnel de navios em mar que assustava até os vikings

Um dos trechos mais perigosos do ultrarrecortado litoral norueguês vai ganhar o primeiro túnel de navios de grande porte do mundo.
Ele atravessará a península Stad, um terror para navegantes há muito conhecido.
O Stadhavet (“havet” é “mar” em norueguês), que marca o encontro do Mar do Norte com o Mar da Noruega, é uma área de navegação difícil e perigosa durante 90 a 110 dias por ano, com condições marítimas imprevisíveis, muito vento, topografia complexa e naufrágios recorrentes.
Tanto que há 150 anos já propunham construir um túnel nessa península.
Segundo o jornal “The Norwegian American”, em 1874 uma publicação local deu a seguinte manchete: “Kanaltunnel gjennom Stadt!” (ou “túnel através de Stadt!”).
Cento e dez anos mais tarde, o debate voltou à mesa dos políticos. Desde os anos 1980 havia propostas para a criação do sonho, até que em 2013 ele entrou no plano de transporte nacional e em 2021 as obras foram autorizadas a começar.
Se tudo der certo, o túnel será inaugurado em 2025 e terá 1,7 quilômetros de extensão, 49 metros de altura e 36 metros de largura, o suficiente para a passagem dos navios que fazem as rotas regionais na Noruega.

Ao deixar de contornar a península, as embarcações deixarão de fazer 56 quilômetros em cada viagem.
Mas há críticas ao projeto, estimado em 2,7 bilhões de coroas norueguesas (ou US$ 312 milhões). O custo-benefício não compensaria, pois embarcações atuais têm melhores condições de lidar com as condições marítimas ruins da região.
A NCA, órgão que administra a costa norueguesa, afirma que o projeto economizará combustível dos navios e tornará as viagens mais previsíveis, sem depender tanto das intempéries marítimas.
Não será uma missão fácil. A empresa responsável é especializada na construção de túneis, porém fazer túnel para carro é uma coisa, para navios de 16 mil toneladas é outra.
Fora que pioneirismo tem dessas, ela não tem muito onde buscar referências, já que não existe obra do tipo dessa magnitude.
O empreendimento precisará tirar do caminho cerca de 3 milhões de metros cúbicos de rochas. O primeiro passo será a perfuração horizontal a partir das duas pontas.
Depois, explosivos para limpar o teto.
Limiares de pedra nas aberturas manterão a água afastada durante a construção.
A expectativa é que até 100 navios por dia usem o túnel, que será de mão única, alternando o sentido de hora em hora. Embarcações comerciais terão prioridade na passagem, mas já se espera um incremento nas viagens de turismo, afinal o túnel por si só será uma atração a mais — em uma região repleta delas: Vestland, o condado onde fica Stad, esbanja fiordes e cachoeiras de tirar o fôlego, além da história e cultura de Bergen, que tem uma das regiões portuárias mais antigas do norte da Europa.
O túnel poderá resolver uma questão que os vikings já sabiam que era problemática.
Uma das cópias feitas no século 13 do “Landnámabók”, manuscrito sobre a colonização da Islândia feito 200 anos antes, menciona Stad: “Sábios dizem que a partir de Stad, na Noruega, são sete dias de navegação até Horn, na Islândia oriental, mas de Snæfellsnes [península no oeste da Islândia] são quatro dias de navegação até Hvarf, na Groenlândia.” De Stad à Islândia oriental são cerca de 1.000 quilômetros.
Do oeste da Islândia ao sul da Groenlândia são 1.200 quilômetros, e segundo os relatos vikings era um percurso que durava praticamente a metade.
É claro que o que determinava isso eram outros fatores, como marés, mas dá para ter uma noção de que Stad não era dos melhores pontos de partida para nenhuma viagem.
Deu em UOL/Terra à vista