Para investigar como situações externas influenciam a vida a dois, a pesquisa acompanhou 100 casais que viviam em uma grande cidade do Reino Unido. Durante 14 dias consecutivos, os participantes responderam a questionários individuais todas as noites, depois de completarem suas obrigações diárias.
As perguntas avaliavam situações estressantes enfrentadas ao longo do dia, como problemas com tarefas domésticas, dificuldades no transporte, doenças e conflitos com amigos ou colegas de trabalho. Além disso, cada pessoa precisava avaliar seu humor e o quanto sentia amor, paixão e proximidade emocional pelo parceiro.
O objetivo era entender se o estresse cotidiano poderia interferir em diferentes dimensões dos relacionamentos. Ece Yilmaz, pesquisadora da Universidade de Ottawa, no Canadá, e autora do estudo, explica ao site PsyPost: “queríamos entender o quanto esses sentimentos são afetados por fatores externos que não estão relacionados ao relacionamento amoroso”.
O que acontece depois de um dia estressante?
Ao analisar as respostas, os pesquisadores perceberam que, nos dias em que uma pessoa enfrentava mais situações estressantes do que o habitual, seus sentimentos de amor, paixão e intimidade pelo parceiro eram menores naquela noite.
A associação permaneceu mesmo depois que os pesquisadores consideraram outros fatores, como o humor diário, o tempo de relacionamento e o nível de proximidade emocional registrado no dia anterior.
Para medir os sentimentos, os participantes utilizavam uma escala de zero a sete pontos, em que notas mais altas indicavam níveis maiores de amor, paixão e intimidade.
Os resultados mostraram que cada situação estressante adicional estava associada a uma queda de 0,04 a 0,13 ponto nessa avaliação. Embora a redução seja pequena, ela indica que até mesmo problemas que não têm relação com o parceiro podem influenciar a maneira como uma pessoa se sente em relação ao relacionamento naquele dia.
Outro resultado interessante foi que essa influência não se repetiu quando os pesquisadores observaram o estresse de maneira mais ampla. Pessoas que passaram por mais situações estressantes ao longo dos 14 dias não apresentaram, necessariamente, notas menores nos sentimentos em relação ao parceiro.
Ou seja, não era o fato de ter uma rotina mais estressante que estava associado à redução do amor, mas enfrentar um dia mais difícil do que o habitual.
“Foi surpreendente ver que as pessoas que passam por mais estresse do que outras não relataram níveis mais baixos de amor, paixão e intimidade”, explicou Yilmaz. Segundo a pesquisadora, o impacto parece estar mais relacionado a enfrentar um dia particularmente difícil do que a ter uma rotina geralmente estressante.
“Em outras palavras, se você costuma estar estressado e sabe como lidar com isso, essa situação não afeta tanto seu relacionamento. Mas, se está passando por mais estresse do que o habitual, também sente menos amor, paixão e intimidade no relacionamento”, acrescentou.
Estresse do parceiro
Outro ponto investigado foi a possibilidade de que o estresse de uma pessoa afetasse diretamente os sentimentos da outra. Nesse caso, os resultados não identificaram uma relação significativa entre as situações estressantes enfrentadas por um parceiro e o nível de amor, paixão e intimidade relatado pelo outro.
Isso não significa, porém, que o estresse de uma pessoa seja completamente indiferente à vida do casal. Os pesquisadores observaram que o estado do parceiro estava relacionado indiretamente aos sentimentos do outro, por meio de alterações no humor.
Ou seja, situações difíceis vividas por uma pessoa podem afetar o estado emocional da outra e, consequentemente, a maneira como ela se sente em relação ao relacionamento.
Resultados restritos
Apesar dos resultados, os autores ressaltam que o estudo apresenta algumas limitações. A maioria dos participantes era jovem, branca e heterossexual, e cerca de 70% eram estudantes.
Além disso, aproximadamente 85% dos casais estavam namorando, e a duração média dos relacionamentos era de 2,8 anos. Portanto, os resultados podem não representar da mesma maneira casais mais velhos ou que estejam juntos há mais tempo.
Outro cuidado é que a pesquisa identificou associações, mas não conseguiu comprovar uma relação de causa e efeito. Como os participantes apenas relataram suas experiências diárias, não é possível afirmar que o estresse tenha sido diretamente responsável pela diminuição dos sentimentos.
Também existe a possibilidade de que o cansaço ou mudanças na interação entre o casal tenham influenciado as respostas. Para Yilmaz, compreender essa relação pode ajudar as pessoas a interpretar melhor as próprias emoções em períodos difíceis.
“Se você está sentindo menos amor, paixão e intimidade em relação ao seu parceiro, isso pode ser resultado do estresse externo que está enfrentando”, destacou a pesquisadora.
Assim, antes de interpretar um dia ruim como um sinal de que algo não vai bem no relacionamento, vale considerar o que aconteceu fora dele. Nem sempre a distância emocional sentida ao fim do dia tem origem na relação a dois.

