Riscos à saúde da pessoa idosa - Fatorrrh - Ricardo Rosado de Holanda
FatorRRHFatorRRH — por Ricardo Rosado

Idosos 15/10/2026 13:39

Riscos à saúde da pessoa idosa

Riscos à saúde da pessoa idosa

O cenário climático previsto para os próximos meses, marcado pela intensificação do El Niño, deve contribuir para temperaturas acima da média e menor ocorrência de chuvas no Nordeste. No Rio Grande do Norte, a combinação de calor e tempo mais seco reforça a atenção aos impactos das altas temperaturas sobre a saúde, especialmente entre grupos mais vulneráveis.

Entre eles, estão as pessoas idosas, que, com o avanço da idade, perdem parte da capacidade de regular a temperatura corporal e de responder às mudanças do ambiente.

É o que aponta o artigo Alterações climáticas e impactos na saúde da pessoa idosa, elaborado por integrantes do Observatório de Estudos do Envelhecimento Humano (Longeviver), do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DSC/UFRN).

A revisão de literatura reunida no estudo mostra associação entre o aumento das temperaturas e maior ocorrência de morbidade, internações e mortalidade entre idosos, sobretudo por causas cardiovasculares, cerebrovasculares e respiratórias.

A preocupação ganha relevância diante do envelhecimento da população brasileira.

Ainda segundo o estudo, pessoas com 60 anos ou mais representavam 15% da população brasileira em 2022, e a projeção é que essa parcela chegue a 37,8% em 2070. No mesmo período, a expectativa de vida ao nascer, que era de 76,4 anos em 2023, deve alcançar 83,9 anos.

Para os autores, o envelhecimento populacional e o agravamento da crise climática ocorrem paralelamente, configurando um desafio para gestores públicos e profissionais de saúde, que precisam desenvolver estratégias de prevenção e adaptação diante da maior exposição da população idosa a condições climáticas extremas.

Por que o calor afeta mais os idosos?

Segundo Vilani Medeiros, professora do Departamento de Saúde Coletiva da UFRN, a vulnerabilidade não pode ser explicada apenas pela idade.

Doutora em Ciências da Saúde, pós-doutora em Gerontologia e coordenadora do Grupo Longeviver, ela explica que diferentes fatores podem se combinar: doenças preexistentes, uso de medicamentos, grau de funcionalidade, condições de moradia e existência de uma rede de apoio.

Vilani Medeiros, professora do Departamento de Saúde Coletiva da UFRN, orienta para os cuidados com a pessoa idosa em altas temperaturas. Foto: Samara Oliveira – CPI/UFRN.

Uma das principais mudanças associadas ao envelhecimento é a menor eficiência na regulação da temperatura corporal. “A pessoa pode transpirar menos, perceber menos a sensação de sede e ter uma capacidade reduzida de dissipar o calor”, esclarece.

Em condições normais, o organismo tenta eliminar o excesso de calor, principalmente por meio da dilatação dos vasos sanguíneos e da transpiração. Quando as temperaturas estão muito elevadas ou permanecem altas por períodos prolongados, porém, esses mecanismos podem não ser suficientes para manter o equilíbrio térmico.

Cuidados na hidratação

Com relação à hidratação, a pessoa idosa pode não perceber que precisa beber água mesmo quando já está perdendo uma quantidade significativa de líquidos.

Por isso, a ingestão de água não deve depender apenas da manifestação de sede. “Não devemos esperar que a pessoa idosa manifeste sede para oferecer líquidos. A hidratação precisa ser estimulada regularmente ao longo do dia”, orienta a professora.

A experiência de quem vive essa realidade ajuda a dimensionar o problema.

Aos 72 anos, o pastor e missionário Clifford Vincent convive com arritmia e problemas de circulação e reconhece que nem sempre mantém uma rotina adequada de hidratação. Ele conta que, mesmo sentindo sede, muitas vezes, acaba deixando a ingestão de água para depois. “Com 72 anos de idade e sempre morando em uma área tropical, eu fico acostumado a sentir sede e não beber água”, relata.

Clifford Vincent relata sua rotina em dias de calor intenso. Foto: Samara Oliveira – CPI/UFRN.

Segundo Clifford, a falta de hidratação costuma ser acompanhada de cansaço e sensação de mal-estar. Quando percebe os sintomas, a principal medida é aumentar o consumo de água. O problema, porém, é que ele nem sempre consegue manter uma quantidade regular ao longo do dia e não costuma contabilizar quanto bebe.

A desidratação causada pela ingestão insuficiente de água pode ocasionar pele, boca e olhos ressecados. A diminuição da urina e a urina mais escura ou concentrada também são sinais que merecem atenção.

Para evitar que a ingestão de líquidos seja esquecida, a recomendação é incorporá-los à rotina, de acordo com as necessidades e limitações individuais.

“Não é legal que a gente force, mas é legal que a gente estimule, que motive essa gestão hídrica de alguma forma — seja água, sucos, vitaminas. A gente mora numa região que tem essa facilidade de ter alguns tipos de opções. A água de coco é importante também”, indica Vilani.

Doenças e medicamentos aumentam os cuidados

Doenças crônicas, como condições cardiovasculares, renais e respiratórias, além de diabetes e hipertensão, podem aumentar a vulnerabilidade das pessoas idosas durante períodos de calor intenso.

O calor aumenta a demanda sobre o sistema cardiovascular, favorece a perda de líquidos e pode provocar alterações na pressão arterial. Para quem tem doença renal, por exemplo, a desidratação representa um risco adicional e pode agravar o quadro de saúde.

De acordo com Vilani, o uso de medicamentos também merece atenção, especialmente entre pessoas idosas, que, frequentemente, utilizam mais de um medicamento de forma contínua.

“Alguns medicamentos podem interferir na capacidade do organismo de lidar com o calor, por diferentes mecanismos. Alguns podem favorecer a perda de líquidos, alterar a pressão arterial, modificar a transpiração ou interferir na percepção da sede”, explica.

Entre os grupos que podem exigir atenção estão os diuréticos, alguns medicamentos com efeito anticolinérgico e determinados psicotrópicos. Os diuréticos, por exemplo, aumentam a eliminação de líquidos pela urina.

Quando essa perda não é acompanhada de reposição adequada, pode ocorrer desidratação. “Se ele vai muitas vezes ao banheiro, mas ele não tem reposição hídrica, então, isso pode acarretar a desidratação”, ressalta.

A presença de calor intenso, no entanto, não é motivo para interromper ou modificar o tratamento por conta própria.

Qualquer ajuste na medicação deve ser feito somente após avaliação individual do médico ou de outro profissional habilitado. Também é necessário observar as condições de armazenamento dos medicamentos, pois alguns produtos podem ser prejudicados quando expostos a temperaturas elevadas.

Sinais de alerta

Em períodos de altas temperaturas, familiares e cuidadores devem observar mudanças no estado físico e no comportamento da pessoa idosa.

“Os primeiros sinais de desidratação e mal-estar são sede, boca seca, cansaço, fraqueza, sonolência incomum, tontura, dor de cabeça, náuseas e câimbras”, aponta a especialista. Com a continuidade da exposição ao calor, podem surgir quadros mais intensos, como vômitos e queda da pressão arterial.

Já sinais como desmaios, convulsões, confusão mental, perda da consciência, temperatura corporal muito elevada e dificuldade para caminhar ou falar indicam agravamento e exigem atendimento médico imediato, pois podem indicar o chamado “golpe de calor”, uma  emergência médica que ocorre quando o corpo é incapaz de regular sua temperatura interna. Se não tratada rapidamente, pode ser fatal.

Mudar a rotina também ajuda

Em dias de calor intenso, adaptar horários e atividades pode reduzir o tempo de exposição às temperaturas mais elevadas. Clifford, por exemplo, costuma frequentar a academia ao ar livre à noite, por volta das 20h. A escolha do horário é uma forma de evitar o calor do período diurno. “Prefiro a noite por isso, sem dúvida”, afirma.

Na avaliação de Vilani, priorizar períodos de menor temperatura é uma medida importante, especialmente durante ondas de calor. “Atividades físicas devem, quando possível, ser realizadas em horários mais frescos, evitando a exposição ao sol e ao calor intenso”, aconselha.

Pele também precisa de proteção

A pele da pessoa idosa tende a ser mais fina e seca, o que aumenta a necessidade de proteção durante os períodos de exposição solar e temperaturas elevadas. Entre as medidas recomendadas estão evitar o sol excessivo, utilizar roupas que ofereçam proteção, recorrer a chapéus ou outras barreiras físicas e aplicar protetor solar.

“Banhos frescos também contribuem para o conforto térmico”, complementa a especialista.

É importante ainda observar o surgimento de vermelhidão, irritações, assaduras ou lesões, especialmente entre pessoas com mobilidade reduzida ou que permanecem por longos períodos na mesma posição.

“Muitos idosos passam muito tempo deitados, e essa alteração na mobilidade pode levar ao aparecimento de lesão por pressão, que, antigamente, chamavam-se de escaras ou úlceras por pressão”, explica.

Clifford conta que costuma optar por roupas leves nos dias quentes, mas admite que não tem o hábito de usar protetor solar ou boné. O relato mostra que alguns cuidados recomendados pelos especialistas ainda não fazem parte da rotina de todos, reforçando a importância de ampliar a orientação sobre proteção térmica e solar.

Ambiente e rede de apoio fazem diferença

No ambiente doméstico, é importante manter os espaços ventilados e utilizar recursos que favoreçam o resfriamento do corpo. Em residências sem ar-condicionado, os ventiladores podem ajudar na sensação de conforto e na circulação do ar, mas não devem ser considerados uma solução isolada em temperaturas extremamente altas.

“Durante o dia, é importante manter os ambientes ventilados e usar cortinas, persianas ou outras barreiras fechadas nos locais onde incide diretamente o sol. Também é útil utilizar o período noturno para favorecer a renovação do ar”, orienta a professora.

A possibilidade de contar com ajuda também influencia diretamente na capacidade de se proteger.

Uma pessoa idosa, que mora sozinha, tem dificuldade de locomoção ou depende de terceiros, pode encontrar obstáculos para buscar água, abrir uma janela, trocar de cômodo ou chegar a um local mais fresco. Por isso, a prevenção precisa envolver não apenas o próprio idoso, mas também familiares, vizinhos, cuidadores e serviços de saúde.

“Mais do que orientar a pessoa idosa a ‘se cuidar do calor’, precisamos perguntar: ela consegue efetivamente se proteger do calor?”, questiona. Nesse cenário, a rede de apoio pode ser decisiva.

“Uma ligação telefônica, uma visita ou uma mensagem podem fazer diferença”, acrescenta.

Infográfico educativo da campanha "El Niño no RN" da UFRN com o título "Como se proteger durante uma onda de calor: Hidratar, refrescar e reduzir a exposição ao calor nos horários mais críticos". A imagem tem fundo amarelo e ilustrações em azul, destacando cinco recomendações principais: 1) Hidratação: Ofereça água e líquidos regularmente, e tome banhos para refrescar. 2) Ambientes e sol: Mantenha locais ventilados e evite exposição direta ao sol nos horários mais quentes. 3) Roupas e atividade física: Use roupas leves e folgadas, e reduza atividades físicas intensas nos períodos mais quentes. 4) Alimentação: Priorize refeições leves, frutas e verduras com bastante água. 5) Rede de apoio: Acompanhe de perto idosos que vivem sozinhos e pessoas com doenças crônicas. No topo, há a ilustração de uma garrafa de água com gotículas e o logo "El Niño no RN". Na base, o texto "Campanha de enfrentamento do El Niño no RN | UFRN".

Deu no Portal da UFRN
Ricardo Rosado de Holanda
Ricardo Rosado de Holanda


Descrição Jornalista