Eleições 27/09/2026 08:00
‘Eleitor que está com Flávio não quer apenas tirar o PT’, diz Marta Arretche

Mesmo com as acusações que envolvem Flávio Bolsonaro (PL) no caso Master, o candidato à presidência encurtou a distância em relação a Lula nas pesquisas recentes, resultando num cenário de empate técnico a menos de dez dias da eleição.
Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (24) mostra o presidente com 40% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto o senador aparece com 36%. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou menos.
A cientista política Marta Arretche, professora do Departamento de Ciência Política da USP, vê na situação atual algo similar ao que aconteceu nas eleições recentes de Peru e Colômbia: “um empate na reta final da eleição cujos resultados são imprevisíveis”.
Quando há esse nível de polarização, segundo ela, eleitores tendem a “descontar” acusações contra o candidato escolhido.
“A palavra desconto tem um significado muito importante na ciência política hoje. Não é que (o eleitor) não veja os problemas do candidato, mas desconta aquilo que está vendo, seja porque diz ‘bom, esse aqui é um defeito que o meu candidato tem, mas ainda assim ele está mais próximo daquilo que é a minha preferência para o país’, seja por achar que o outro candidato também tem (acusações ou defeitos)“.
Como vê o cenário atual da disputa presidencial?
As pesquisas estão dizendo que está muito dividido, empatado. Se isto é um preditor do resultado, não se sabe. A situação atual pode produzir tanto um desestímulo geral como uma mobilização de última hora, assim como é a decisão de muitos eleitores. É algo muito similar ao que se viu no Peru e na Colômbia, um empate na reta final da eleição cujos resultados são imprevisíveis. Qualquer tentativa de especular sobre o resultado com base nas pesquisas desse momento é limitada, mas o que elas mostram é que qualquer um pode ganhar, está muito apertado.
Por que as acusações não ‘colam’ em Flávio?
A palavra desconto tem um significado muito importante na ciência política hoje. Pesquisas para outros países mostram — os Estados Unidos são o caso mais estudado — que, quando se tem esse nível de polarização, os eleitores tendem a descontar o que é acusado contra o seu candidato. Não é que (o eleitor) não veja os problemas do seu candidato, mas desconta aquilo que está vendo, seja porque diz ‘bom, esse aqui é um defeito que o meu candidato tem, mas ainda assim ele está mais próximo da minha preferência para o país’ ou porque considera que o outro candidato também tem (defeitos). Acho que é isso que explica por que nenhuma acusação parece colar no Flávio, pela mesma razão que as acusações contra Alexandre Moraes não parecem afetar a preferência do eleitor do PT.
Não são acusações exatamente equiparáveis, no sentido de envolver diretamente o candidato. No caso do Flávio, atingem ele próprio. Esse desconto pode ser ainda mais forte entre os eleitores da direita?
É evidente para o eleitor melhor informado que o Flávio faz um personagem que não tem nenhum compromisso com os fatos. Sob esse ponto de vista, (o crescimento dele nas pesquisas) soa incompreensível. Isso faz parte de uma dificuldade de entender como o eleitor forma os seus julgamentos. A gente tende a subestimar o quanto o eleitor do Flávio ou que vier a votar no Flávio está realmente acreditando, apesar de todos os fatos, que ele é quem mais crivelmente vai implementar a agenda para um determinado projeto de Brasil: endurecer com a área de segurança pública, diminuir o tamanho do Estado, impedir o progresso da agenda LGBT, que está comprometido com determinados valores religiosos.
Como fica a pauta anticorrupção, que costumava ser um elemento importante no discurso antipetista, ela entra nesse desconto? Isso ficou em segundo plano?
É uma possibilidade. Outra é que o eleitor pense que em termos de acusação de corrupção, tem de todo lado, ninguém seria muito diferente de ninguém. Então se desconta isso, concentrando naquela agenda que é mais importante (para esse eleitorado).
Tem evidências de que há, de fato, uma parte expressiva do eleitorado que acredita na superioridade dessa plataforma. Agora, não acho que é apenas isso que vai explicar o resultado da eleição. Tem muita indeterminação, pode acontecer muita coisa nas próximas duas semanas. Mas as pesquisas mostram que o bolsonarismo construiu uma densidade eleitoral em torno dessa plataforma. Caiado e Zema tentaram se apresentar como uma alternativa melhor ao antipetismo, mas o que as pesquisas estão mostrando é que Flávio Bolsonaro parece ao eleitor a aposta mais crível nessa plataforma eleitoral.
Isso é consequência da conexão mais direta com o Jair, com o fato de ser filho, de ser do clã? Essa herança deu mais legitimidade a ele?
É muito provável, porque ele apela explicitamente a isso. O início da campanha mostrava uma disputa aberta pela herança do bolsonarismo, entre Michele Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Silas Malafaia, mas depois que eles se entenderam, Flávio cresceu.
Por que o antipetismo não é suficiente para explicar a adesão ao Flávio?
Porque, se o que explica a escolha do eleitor fosse basicamente uma rejeição ao petismo, qualquer candidato que se apresentasse como antipetista seria competitivo. Foi essa a aposta que Caiado e Zema fizeram: (se apresentarem como) candidatos antipetistas, com experiência administrativa, bem avaliados em seus estados, sem acusações de corrupção.
Até ali, acreditava-se que o que movia o eleitorado era a rejeição ao PT, e esse foi o cálculo que o Kassab fez, colocar um candidato (Caiado) que, além de ser antipetista, tem credenciais como governante. Se o sentimento de rejeição ao PT fosse suficiente para explicar essa eleição, Caiado e Zema teriam provocado algum abalo viável, o eleitorado teria se dividido.
O que parece explicar a candidatura do Flávio ter se firmado é mais do que apenas a rejeição ao PT. É uma adesão à plataforma bolsonarista. É isso que o Tarcísio parece ter enxergado e os outros não. Não é suficiente ser antipetista, mobilizar esse sentimento negativo. O que o bolsonarismo produziu é uma fidelidade “positiva” a um programa para o Brasil. A ideia de identificação positiva é que não é só rejeição do outro lado, mas adesão a uma proposta.
O eleitor que está com o Flávio não quer apenas tirar o PT. Ele também quer a mistura da religião com a política, menos Estado e menos política social, um endurecimento na segurança pública, redução da maioridade penal, a recusa ao casamento homoafetivo. O bolsonarismo se constituiu mesmo como um movimento que combina nesse candidato a adesão a essa plataforma. Importa menos que o Flávio seja esse candidato de fato e mais que seja crível ao eleitor que ele é esse candidato.
Esse enraizamento do bolsonarismo não estava claro antes?
A afirmação do bolsonarismo (a partir) do Flávio é semelhante ao que aconteceu com Trump. Existem duas propostas, dois projetos para o Brasil. A densidade partidária e a agregação dos eleitores em torno do PT existe, e a agregação dos eleitores em torno do bolsonarismo existe. Essas são as duas alternativas mais fortes para o Brasil. E as disputas partidárias estão centralmente estruturadas em torno dessas propostas. A candidatura do Flávio sobreviveu a todas essas acusações porque ele expressa as preferências de um movimento, aceite ou não, goste ou não. Tem uma parte que pode não considerar que o Flávio é o melhor candidato do mundo, mas é o candidato que eles têm. É um engano acreditar que a derrota do Jair Bolsonaro, tanto eleitoral quanto no Supremo Tribunal Federal, a prisão, representou a derrota desse projeto, ou que a eventual derrota do Flávio Bolsonaro irá representar a derrota desse projeto.
O Jair Bolsonaro perdeu por apenas dois milhões de votos (em 2022). Dois milhões de votos no Brasil é muito pouco. Foi uma derrota por um detalhe. O resultado dessa eleição deve ser assim de novo: qualquer que seja, será por muito pouco. O problema de um resultado como esse, com um panorama internacional muito adverso, uma situação tão instável, com tantos desafios, é que qualquer governo que ganhar dificilmente vai trazer estabilidade política ou econômica para o Brasil.
Deu em O Globo

Descrição Jornalista
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